Vampiros?
O nome Dracs continuou preso à memória enquanto as equipes conferiam as identificações dos onze visitantes. Vi uma torre escura, uma capa atravessada pelo vento e um rosto que desapareceu quando tentei aproximá-lo. Henri encontrou a mesma lembrança por outro caminho, ligada às histórias que Falcão proibia nas salas de estudo.
— Paole, Drácula viveu no planeta de vocês?
Ele demorou a responder. Olhou para os dez acompanhantes, depois para as fileiras que aguardavam fora da muralha, onde bolsas transparentes passavam de mão em mão sob os toldos montados pelas equipes médicas.
— Drácula foi nosso rei. Lutou até perder o planeta e morreu tentando retirar as últimas cidades. Se vocês conhecem esse nome, imagino que também conheçam histórias sobre o nosso povo.
Henri tomou nossa voz para formular a pergunta seguinte. Mantive os braços relaxados e pedi ao Exército D que não alterasse a posição por causa da resposta.
— Paole, vocês são vampiros de fato? — perguntou Henri.
Paole abriu a boca e deixou as presas visíveis durante alguns segundos. Dois guardiões da muralha apertaram as armas; Gregony pediu que as abaixassem, pois nenhuma ameaça acompanhara o gesto.
— Somos vampiros. Dependemos de sangue, mas dependência não transforma cada um de nós em caçador. Construímos outra forma de alimentar o povo e viemos recuperar a parte que desapareceu.
Ele retirou a mochila presa às costas. No interior, tubos flexíveis ligavam cinco bolsas a um recipiente escuro junto à coluna. Uma mulher trocou uma das bolsas, anotou volume e horário numa placa e levou o sangue até a borda da muralha, de onde outro mensageiro o conduziu aos toldos.
— Dez pessoas do nosso povo produzem sangue em quantidade muito superior à comum. Chamam-nos de Guardiões do Sangue. Cinco estão aqui e os outros cinco desapareceram. Cada bolsa retirada se recompõe, mas a renovação exige água, alimento, descanso e intervalos que deixamos de cumprir durante a busca.
Paole mostrou marcas recentes nos braços e na lateral do corpo. Os quatro Guardiões que tinham vindo com ele carregavam dispositivos semelhantes. Atrás da muralha, as equipes distribuíam bolsas em filas separadas por necessidade, enquanto representantes da comitiva registravam cada entrega.
— Por isso quase mil pessoas viajaram juntas? — perguntei. — A distância dos cinco presentes interromperia o abastecimento.
— Sim. Os demais permaneceram próximos das fontes e dividiram as reservas. Nos últimos dois meses, reduzimos as porções, esvaziamos os bancos de sangue e alternamos quais comunidades recebiam primeiro. Se demorarmos, a fome aumentará o risco de ataques, mas esse risco exige organização, não uma condenação antecipada de todos.
Henri recordou que a comitiva tivera força para tentar atravessar a muralha e escolhera parar. Isso contava a favor do acordo, porém a ausência de ataque não provava tudo que Paole dizia. Pedimos os registros de distribuição e os nomes dos cinco Guardiões. O Exército D recebeu cópias e iniciou a comparação com atendimentos, deslocamentos e ocorrências das áreas anexadas.
Paole explicou o método de busca. Os onze podiam assumir corpos pequenos, capazes de seguir partículas deixadas pelo sangue dos Guardiões. Voariam apenas sobre vias públicas, depósitos, canais e áreas vazias. Quando o sinal apontasse para uma construção ocupada, retornariam antes de entrar.
O Exército B prendeu selos luminosos às roupas e preparou uma corrente de ar que conservaria o rastro de cada integrante sem misturá-lo aos sinais procurados. O Exército D dividiu o mapa em setores e designou duas pessoas para cada rota. Paole repetiu as condições diante dos dez acompanhantes antes que qualquer transformação começasse.
Os onze corpos se contraíram dentro das próprias roupas. As asas surgiram primeiro, seguidas por pelos escuros e cabeças pequenas. Os equipamentos permaneceram presos em faixas adaptadas, e cada selo produziu um ponto de cor diferente. Eles partiram em grupos de dois, com Paole sozinho na rota central, enquanto os escoltas acompanharam do alto.
Henri e eu seguimos Paole pelas vias que levavam aos depósitos. Fenrir ampliou nosso olfato, mas manteve distância das partículas de sangue. O primeiro setor terminou sem indicação. No segundo, Paole contornou uma oficina fechada, verificou o teto e retornou ao corredor público sem tentar atravessar uma janela.
Quando alcançamos a faixa entre Vermilion e Finiti, ele recuperou a forma humana no ar e ergueu a mão. O selo de sua roupa emitiu três pulsos, sinal combinado para interromper todas as rotas.
— Senti o sangue de um dos Guardiões e outro cheiro que não deveria estar perto dele. Existem lobos neste reino?
Fenrir reconheceu o odor na mesma corrente. A reação contraiu nossos músculos e alterou a saliva, mas continuávamos capazes de escolher o próximo movimento. Afastei-nos do rastro enquanto Henri pediu detalhes.
— Em Dracs, encontros sem preparação entre vampiros e certas linhagens de lobos provocavam fome, agressividade e perda gradual de coordenação. A intensidade variava. Barreiras de distância, ar filtrado e alimentação recente reduziam o efeito. Nunca testamos o que acontece com pessoas modificadas por outras simbioses.
— Então não diga que nenhum dos lados consegue resistir — respondeu Henri. — Diga o que vocês observaram e prepare a contenção para quem reagir.
Paole aceitou a correção e produziu uma descarga de luz acima da faixa de terra. Os selos dos outros visitantes responderam, conduzindo os dez de volta para junto dele. Ninguém avançou até Finiti.
Na muralha, a mesma luz informou à comitiva que deveria recuar para o leste. Gregony enviou mensageiros com água, bolsas e a explicação do risco. Os deslocamentos ocorreram em grupos, mantendo atendimento e comunicação, sem abandonar pessoas que precisavam de auxílio.
Organizamos dois corredores de ar filtrado entre a cidade dos lobos, Finiti e a muralha. O Exército B observava as extremidades; equipes do Exército C permaneciam desarmadas perto dos pontos médicos; o Exército D registrava quem entrava e saía. Nenhuma corrente retirava o ar necessário à respiração.
Brinshen chegou antes que enviássemos qualquer chamado à cidade dos lobos. Trazia as mãos sujas de terra e vinha acompanhado por uma mulher chamada Salia, responsável por um dos depósitos subterrâneos. Os dois pararam fora do corredor filtrado e pediram para falar conosco sem a presença de Paole.
Levamos Paole para outra plataforma, explicamos que moradores tinham procurado o conselho e garantimos que ele receberia o relato depois que autorizassem o compartilhamento. Nazer e Nazerith permaneceram com os visitantes; Gregony acompanhou Magno, Henri e Amor até Brinshen e Salia.
— O rastro dos desaparecidos chegou à cidade de vocês — comecei. — Não vou usar a posição de Alfa para arrancar uma resposta. Preciso saber se vieram por vontade própria, se estão feridos e quem consegue abrir o local sem expor outras pessoas.
Brinshen olhou para Salia. Ela retirou do bolso uma chave curta, coberta por pó mineral, e a colocou sobre a mesa entre nós.
— Cinco vampiros chegaram perto de Finiti algumas semanas depois da transferência. Um grupo de lobos os encontrou durante a noite. O cheiro afetou os dois lados, houve luta e troca de sangue. Quando recuperaram o controle, os vampiros estavam presos no depósito inferior.
— Quem ordenou que fossem mantidos lá? — perguntou Henri.
— Ninguém do conselho — respondeu Brinshen. — Os envolvidos fecharam os acessos por medo de outro confronto. Trouxeram bolsas, água e alimento pelos dutos, mas esconderam o cárcere de Tocqueville e dos responsáveis pelos depósitos. Eu descobri hoje, depois que o selo dos visitantes iluminou uma saída de ventilação.
Salia abriu um mapa do subsolo. Três corredores de manutenção cercavam uma câmara usada para conservar gelo e minerais. Os cinco Guardiões estavam atrás de duas portas reforçadas pelos lobos. Sensores instalados naquela manhã ainda marcavam movimento e temperatura compatíveis com pessoas vivas.
— Posso abrir a porta externa sem entrar — explicou Salia. — A interna emperrou depois de uma ruptura na parede lateral. Não sabemos quem a rompeu nem o que existe do outro lado.
Pedimos que chamassem voluntariamente os lobos envolvidos e oferecemos atendimento separado antes dos depoimentos. Brinshen transmitiu o pedido ao conselho local. Em poucos minutos, seis pessoas se apresentaram no limite do corredor filtrado; outras duas enviaram mensagens admitindo participação e pedindo tempo para chegar.
Uma delas, Merat, a construtora que conhecêramos no dia anterior, confirmou a captura. Disse que tentara reparar a parede por fora, mas recuara quando ouviu vozes além da câmara. Gregony registrou cada afirmação sem prometer imunidade nem permitir que Paole recebesse somente uma versão.
Quando autorizamos o compartilhamento, Paole ouviu o relato atrás da barreira de ar. As mãos dele se fecharam ao saber que os cinco continuavam presos, mas ele não atravessou o limite.
— Quero vê-los vivos. Depois discutiremos quem atacou primeiro, quem fechou as portas e por que esconderam isso durante tanto tempo.
— Você participará do resgate com uma equipe limitada — respondeu Henri. — Ninguém entrará alimentado pela raiva nem pelo cheiro. Primeiro isolaremos as correntes de ar e abriremos comunicação.
O Exército C preparou máscaras filtrantes, cordas, iluminação e recipientes de sangue dos Guardiões presentes. Paole indicou que o próprio sangue poderia estabilizar os cinco depois do confinamento. Os médicos registraram volume e risco antes de autorizar o uso.
Salia continuava examinando o mapa. Tocou uma área sem marcação ao lado da parede rompida e pediu que Brinshen contasse o restante. Ele esfregou a terra das mãos, deixou duas manchas sobre a mesa e respirou até conseguir falar.
— Existe outra comunidade naquele subsolo. Parte dos lobos trouxe gatas antes da transferência e pediu que fossem transformadas para sobreviver aqui. Elas ficaram escondidas porque o acordo com Freya não incluía a mudança. A parede rompida ligou o cárcere dos vampiros aos aposentos delas.
— Quantas pessoas vivem lá neste momento? — perguntei.
— Ainda estamos conferindo. As saídas do setor foram fechadas por dentro, e ninguém respondeu desde que descobrimos a abertura.
Paole olhou para a entrada subterrânea, depois para as bolsas preparadas pela equipe médica. A busca pelos cinco terminara diante de uma porta, mas o resgate agora incluía uma comunidade que o reino sequer registrara.