Visitantes Liberdade do Vento · Capítulo 35 de 49
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Na manhã seguinte, Amor encontrou nossa comitiva junto aos veículos de abastecimento que partiam para Finiti. Ilana ficaria no palácio para acompanhar as atas da feira, enquanto Falcão e Alice pediram para rever a cidade onde tinham governado e morrido. K1 descansava por escolha própria. Nazer e Nazerith seguiriam mais tarde para os quartéis, onde examinariam os sinais de autoridade sem retirar a Vajra da caixa isolada.

Finiti começava depois de uma faixa de terreno cultivado que separava suas primeiras casas das torres vermelhas. Caminhões baixos percorriam a estrada carregando grãos, ferramentas e pigmentos. As placas laterais indicavam origem, destino e responsáveis por cada carga, uma mudança adotada depois que os moradores descobriram desvios provocados pelo sistema automático de prioridades.

Amor nos levou até um depósito instalado numa antiga praça de Finiti. Trabalhadores das duas cidades separavam caixas sob um toldo, enquanto representantes locais discutiam a distribuição dos veículos. Uma mulher chamada Zélia abriu o mapa de rotas sobre uma mesa e mostrou onde o transporte de alimentos interrompera materiais destinados aos artistas.

— Podemos aumentar o tempo que os veículos de Vermilion permanecem aqui, mas Finiti precisa decidir se deseja recebê-los e em quais bairros. Nossa visita não transforma a integração em ocupação.

Zélia marcou três trechos no mapa e chamou dois motoristas, uma agricultora e um representante do conselho de Finiti. Eles escolheram testar uma rota durante sete dias, com relatórios públicos de carga, espera e consumo. O acordo saiu da mesa com responsáveis, prazo e possibilidade de cancelamento, sem depender de nossa permanência.

Falcão caminhou pela praça reconhecendo construções e procurando outras que já tinham desaparecido. Duas pessoas o abraçaram; uma terceira pediu que ele não retomasse o antigo posto. Ele ouviu o pedido sem defender o próprio reinado e respondeu que voltara para encontrar o filho, não para recuperar um governo encerrado por séculos.

Seguimos para a cidade dos lobos perto do meio-dia. Canais rasos conduziam água fria entre as casas novas, e uma equipe misturava minerais de Inc ao revestimento para conservar a temperatura. Moradores do Vento ajustavam as correntes acima dos canais; lobos verificavam cheiro, umidade e resistência do material antes de liberar cada trecho.

Alguns habitantes tinham se mudado para Vermilion. Outros formaram vínculos afetivos entre as comunidades e continuavam vivendo em casas separadas. Ninguém recebera orientação para se aproximar, e por isso recusei a ideia de aconselhar que passassem mais tempo na capital. Perguntamos apenas quais rotas e serviços facilitariam as escolhas que já faziam.

Uma construtora chamada Merat pediu transporte noturno, pois a luz artificial do fim da tarde aquecia os recipientes usados na obra. Amor registrou o pedido, mas entregou a placa ao conselho local. A solução dependeria de quem conduzia os veículos, de quem trabalhava nos canais e de quem regulava o céu, não do gosto dos reis por aquela integração.

Fenrir reconheceu membros da antiga alcateia e assumiu nossos olhos durante parte da visita. Correu conosco por uma passagem de terra preservada entre as casas, recebeu cumprimentos e farejou o composto luminoso usado nas noites sem lua. A ausência dos satélites continuava sob observação; ninguém tratava a estabilidade recente como cura definitiva.

Os quartéis ocupavam plataformas afastadas das áreas residenciais. Cada zona de treinamento flutuava dentro de um campo de contenção, com paredes capazes de absorver impacto e devolver ao centro o material deslocado. Pontes largas ligavam os edifícios, mas podiam se desprender durante exercícios que envolvessem fogo, vento ou alteração do solo.

Fora das zonas, soldados cuidavam de uma horta, reparavam instrumentos e ensaiavam música num pátio coberto. As escalas reservavam períodos para treino, trabalho civil, estudo e descanso. Havia quatro exércitos com especializações diferentes, porém os líderes usavam o título de líder-soldado e precisavam registrar decisões contestadas pelo grupo.

Gregony, responsável pelo Exército C, mostrou a área de salvamento. Equipes treinavam a retirada de pessoas de uma estrutura inclinada sem derrubá-la sobre os observadores. O exercício parou quando Nazer entrou pela ponte, sem fôlego e com sangue na manga.

A Auralim surgiu logo atrás e pousou na mureta, voltada para a zona de defesa.

— Nazerith encontrou César dentro da zona de defesa. Ele está atacando sozinho, e ninguém conseguiu afastá-lo sem atingir os dois.

Henri assumiu nossas pernas durante a corrida. Falcão e Alice vieram atrás, conduzidos por Amor e Nazer. Gregony abriu a contenção apenas o suficiente para nossa passagem e fechou o campo assim que entramos.

Nazerith lançava César contra uma parede que absorvia o impacto e o devolvia ao centro. O antigo general mantinha os braços diante do rosto, desviando golpes sem contra-atacar. Soldados formavam um círculo distante, aguardando uma ordem que Gregony se recusara a emitir sem conhecer a origem do conflito.

Henri tomou nossa voz, mas não avançou até conversar comigo. Fenrir concordou em conter o ataque sem participar de uma execução. A memória do salão onde Falcão caiu atravessou nossos braços; junto dela veio o momento em que já impedíramos a morte de César. Concordamos em separar os dois e manter o general desarmado.

— Nazerith, afaste-se dele. Você poderá acusá-lo diante de todos, mas não decidirá sozinho a pena.

— Ele matou Falcão, tomou o reino e me manteve preso enquanto perseguia Henri. Quantas vidas precisa destruir para merecer que ninguém o proteja?

— Nenhuma dessas vidas será apagada. Também não entregaremos a você uma execução dentro do quartel.

Nazerith preparou outra corrente. Nazer entrou no campo, colocou-se entre o irmão e César e abriu os braços. O golpe perdeu força até dispersar o sangue que escorria da manga dele.

— Saia da frente, Nazer. Ele mandou buscar você depois que não conseguiu me dobrar.

— Eu sei o que ele fez conosco. Também sei que você terá de viver depois deste minuto, qualquer que seja sua escolha.

Falcão atravessou a contenção acompanhado por Gregony. César baixou os braços quando reconheceu o homem que assassinara. O movimento expôs o rosto ferido, mas Nazerith permaneceu atrás do irmão.

— Olhe para mim, César. Desta vez você contará o que fez sem anunciar outra versão ao povo.

César sustentou os olhos de Falcão e pediu água. Gregony entregou um recipiente transparente depois de verificar o conteúdo, sem permitir que ele deixasse o centro do campo.

— Recebi uma missão de uma figura que se apresentou como Shiva. Ela me levou a outros planetas, mostrou cidades que sobreviveram a guerras e afirmou que a morte de Falcão conduziria nosso povo até uma existência superior. Aceitei porque já acreditava que a paz nos enfraquecia.

— Você o matou porque uma mulher mostrou cidades e lhe ofereceu uma conclusão? — perguntou Henri por nossa boca.

— Eu o matei porque a conclusão também servia ao que eu desejava. Queria retomar o comando, preparar o povo para a guerra e provar que Falcão estava errado. A missão me deu uma justificativa maior.

A profecia de Erudes prometera uma união depois da morte de Falcão. Indra conservara durante séculos a promessa de um sucessor. Agora César dizia ter recebido de Shiva uma justificativa para produzir o assassinato que colocaria a primeira profecia em movimento. Eu ainda não podia provar que Elaryan criara nenhuma delas. Podia reconhecer o método: ela encontrava uma crença capaz de conduzir alguém e a reforçava no ponto em que uma decisão poderia mudar de direção.

Falcão permaneceu diante dele, segurando as próprias mãos para impedir qualquer impulso. Alice parou ao lado do marido, sem tocar César nem esconder o tremor dos dedos.

— Quem entrou no palácio com você, quem tentou matar Henri e quem preparou a mentira sobre meu assassino?

— Você também mentiu quando afirmou que nunca vivera na Terra — acrescentou Nazerith. — Por quê?

— Porque eu queria usar o que aprendera sobre guerra sem permitir que tratassem minhas decisões como um vício de outra vida. A origem terrestre me dava experiência, mas também levantaria suspeitas. Escondi a segunda parte.

César forneceu nomes, postos e tarefas. Gregony chamou duas pessoas do registro para gravar o depoimento em placas independentes. Nazer corrigiu uma data; Nazerith acrescentou o local onde fora mantido; Henri pediu que cada informação sem prova recebesse a marca de testemunho, não de fato confirmado.

Quando terminou, Gregony explicou que César pedira ingresso num dos exércitos após chegar a Vermilion. O grupo o destinara ao salvamento, retirara seu acesso a comando e observara sua conduta durante treinamentos. Naquela manhã, ele protegera duas pessoas durante o colapso controlado da estrutura e se recusara a atacar Nazerith.

— Isso descreve o que ele fez aqui — disse Gregony. — Não me autoriza a absolvê-lo pelo que fez antes.

— Nem a melhora observada autoriza Nazerith a espancá-lo até a morte — respondeu Falcão. — Minha sobrevivência atual também não desfaz meu assassinato nem o que Henri sofreu depois dele.

Henri e eu pedimos uma pausa. Dentro do corpo compartilhado, ele desejava manter César longe da família e ouvir tudo que o pai pensava. Eu queria impedir que a condição de rei transformasse nossa resposta em sentença privada. Levamos as duas necessidades ao grupo.

César seria afastado do treino e permaneceria em alojamento monitorado, sem armas, acesso a comandos ou contato sem registro com antigos subordinados. Seu depoimento seria comparado a documentos de Finiti e às lembranças das pessoas citadas. Uma audiência incluiria sobreviventes do golpe, familiares dos mortos, soldados coagidos, Nazer, Nazerith, Henri, Alice e Falcão. O retorno à equipe de salvamento dependeria dessa apuração e das medidas de reparação definidas por quem sofreu as consequências.

— Eu aceito a custódia, mas não peço perdão pelo caminho que nos trouxe até aqui — declarou César.

— Então você ainda não compreendeu o que precisa reparar — respondeu Alice. — A audiência começará por essa frase.

Nazerith recusou apertar a mão de César e exigiu que seu ataque também entrasse no registro. Gregony incluiu a agressão, o motivo declarado e a interrupção. Nazer acompanhou o irmão para fora do campo, enquanto Falcão ficou tempo suficiente para conferir o lacre do alojamento.

Continuamos a visita pelo Exército A. Emanadel abriu as caixas trazidas da última missão e distribuiu os depoimentos sobre uma mesa. Um soldado de outro grupo descreveu as campanhas de Shiva como períodos de evolução em massa, usando o termo com orgulho aprendido durante anos.

Henri colocou diante dele os nomes das pessoas mortas na batalha recente. Ao lado de cada nome estavam o número de mortes, as lesões conservadas depois do retorno, as lembranças perdidas e a decisão tomada sob pressão. Syanna continuava sem destino confirmado.

— Chame de evolução depois que cada pessoa puder ler o próprio registro e escolher se aceita essa palavra — disse Henri. — Até lá, escreva mortes, ferimentos e ordens.

Emanadel pediu que os quatro exércitos adotassem o mesmo modelo. Gregony acrescentou que missões anteriores precisariam ser reconstruídas por quem participou delas, pois muitos relatórios descreviam vitórias sem registrar quem morreu para produzi-las. O orgulho do soldado não desapareceu, mas ele levou uma cópia das placas e aceitou rever seu depoimento.

Uma sirene curta interrompeu a reunião. Kafar entrou no quartel carregando o símbolo dos guardiões da ala sul e entregou a Gregony uma imagem obtida acima da muralha. Centenas de pessoas avançavam em formação larga, com outras fileiras ainda surgindo atrás das primeiras.

— Os observadores calculam entre oitocentas e mil e duzentas pessoas. Não atacaram postos nem esconderam a aproximação.

Mantivemos a Vajra dentro da caixa. Gregony enviou o Exército B para reconhecimento aéreo e pediu ao Exército D que consultasse registros de entrada, incidentes e desaparecimentos. Cada equipe recebeu o mesmo objetivo: observar, abrir comunicação e impedir invasão ou ataque sem iniciar confronto.

Falcão permaneceu com César e os registros. Alice voltou ao palácio para avisar Ilana e o conselho. Amor, Nazer, Nazerith, Gregony e Kafar nos acompanharam até a muralha, enquanto equipes médicas preparavam água e abrigo fora do alcance das armas.

A muralha sul tinha cerca de cinquenta metros e protegia uma passagem aberta entre duas elevações. Quando chegamos, os visitantes já tinham parado a uma distância que permitia conversar por amplificação do ar. Não carregavam máquinas de cerco, mas muitos possuíam armas presas ao corpo.

— Sou Magno e compartilho este corpo com Henri e Fenrir. Representamos este reino durante a aproximação. Informem quem são, quantas pessoas trouxeram e o motivo da entrada.

Um homem saiu da primeira fileira e levantou as mãos vazias. Sua voz alcançou a muralha com ajuda de alguém posicionado atrás dele.

— Meu nome é Paole. Seguimos durante meses os sinais de cinco nobres desaparecidos. A última marca aponta para dentro deste reino, e acreditamos que foram trazidos contra a vontade.

O Exército D enviou o primeiro levantamento a Gregony. Nenhum dos cinco nomes fornecidos por Paole constava nos registros regulares de entrada, atendimento ou hospedagem. A ausência não provava que estivessem fora do reino, pois áreas anexadas ainda possuíam sistemas incompletos.

— Podemos procurar com métodos rápidos, mas precisamos entrar. Os cinco mantêm nosso povo alimentado e seguro. Cada hora aumenta o risco para todos que vieram comigo.

— Explique os métodos antes de cruzar a muralha. Nenhuma busca entrará em casas, tocará moradores ou retirará alguém sem prova e acompanhamento.

Paole consultou duas pessoas de sua comitiva. Informou que conseguiam seguir sinais físicos deixados pelos desaparecidos e que a busca inicial dispensava contato com moradores. Concordou em limitar o grupo e submeter qualquer descoberta à verificação conjunta.

Oferecemos entrada a Paole e dez acompanhantes, escolhidos diante das equipes de registro. Eles entregariam armas transportáveis, manteriam identificação visível e seguiriam escoltados por integrantes dos Exércitos B e D. O restante permaneceria fora da muralha, com água, alimento, atendimento e um canal aberto para notícias.

— Aceito essas condições. Podemos subir sem que abram o portão, pois todos os onze voam.

Paole indicou os acompanhantes pelo nome. Depois que o registro terminou, os onze saltaram e alcançaram o alto da muralha com um único impulso. Os guardiões recuaram apenas o espaço combinado, mantendo livre a passagem para a equipe de busca.

— Antes de começarmos, preciso registrar a origem de vocês. Qual planeta foi trazido para esta região?

— Elaryan trouxe Minorim. A maior parte de nosso povo, porém, nasceu em Dracs.

O nome Dracs tocou uma lembrança distante que não consegui reconstruir. Henri também o reconheceu sem encontrar a origem. À nossa frente, Paole aguardava a autorização formal para procurar cinco pessoas capazes de colocar quase mil viajantes em marcha.

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