Anjos
As três figuras permaneceram acima das equipes que verificavam o território. Vestiam roupas claras presas ao corpo por placas metálicas, e nenhuma usava veículo ou asas. O som da conversa chegava ao chão por uma técnica que ampliava cada palavra.
— Eu disse que alguma coisa atravessara a região — falou o primeiro. — Uma civilização inteira surgiu com solo, edifícios e sistemas de água.
— Isso difere das mortes em massa — respondeu o segundo. — As estruturas vieram junto, Fanuel. Alguém transportou matéria organizada.
— O retorno continua trazendo povos que ninguém avaliou — disse o terceiro. — Agora despejam uma cidade sobre nosso Paraíso. Quanto falta para o fim, Baraquiel?
O primeiro chamara o segundo de Fanuel; o terceiro recebera o nome Baraquiel. Antes que identificássemos o primeiro, Henri pediu às equipes que afastassem feridos, crianças e trabalhadores das áreas abertas. Dash levantou barreiras sobre os pontos médicos, enquanto Nazer e Nazerith conduziam observadores para dentro das torres.
Subimos apenas o suficiente para manter distância das figuras. A adaga permaneceu presa ao nosso corpo, preparada para abrir uma passagem se o primeiro contato terminasse em ataque.
— Meu nome é Magno, e Henri divide este corpo comigo. Nosso território foi transferido sem escolha sobre o destino. Podemos informar o que ocorreu e precisamos saber onde estamos.
O primeiro ser nos examinou dos pés à cabeça. Uma luz percorreu seus olhos, desceu por nosso corpo e parou sobre a adaga.
— Ele acredita que possui informação para negociar conosco. Fanuel, explique ao recém-chegado por que deveria voltar ao chão.
— Uriel, a transferência atingiu nossa área sem aviso — respondeu Fanuel. — Ouvir a explicação custa menos do que remover outra cidade.
Uriel finalmente tinha nome. Apontou para as construções e disse que povos renascidos ocupavam a região sem critério, consumindo espaço reservado a quem alcançara aquele planeta pelos próprios méritos. Baraquiel observava os hospitais e contava as pessoas reunidas sob as barreiras.
— Chamou este lugar de Paraíso — disse Henri. — Isso é título político, religioso ou nome do planeta?
— É o território mais próximo da salvação — respondeu Uriel. — Vocês deveriam permanecer dentro das casas até decidirmos onde serão colocados.
— Vocês são os seres que deram origem às histórias de anjos? — perguntei.
Fanuel abriu a boca para responder, mas Uriel estendeu um dedo. Um raio atravessou o ar e entrou em nosso peito. O coração se rompeu dentro do corpo compartilhado; a luz do céu desapareceu antes que conseguíssemos levantar uma defesa.
Voltamos sobre o terreno alguns metros abaixo do ponto atingido. Meus joelhos bateram na terra e as mãos procuraram o peito ainda inteiro. Henri respondeu dentro de mim, confuso e vivo. Fenrir e Suzaku recuperaram os sentidos em ritmos diferentes, enquanto o gosto de metal deixado pela morte permanecia na boca.
Ilana tentou correr até nós, mas Alice a manteve atrás da barreira até Nazer confirmar que Uriel não preparava outro disparo. Dash ampliou a proteção dos médicos. Nazerith registrou a morte, o local do renascimento e o intervalo mínimo percebido.
— É essa a falha deste lugar — reclamou Uriel. — Podemos matar intrusos, mas eles retornam perto do corpo anterior.
— Os sistemas de nível seis e cinco já entraram na destruição final — disse Baraquiel. — Permanecemos aqui porque esta região oferece mais tempo e estabilidade. Uriel, não abra outro conflito sem medir o que chegou.
Fanuel desceu alguns metros e confirmou que os três não podiam abandonar o planeta por meios próprios. Chamou aquilo de proteção; Uriel descreveu a permanência como prisão. A divergência entre eles oferecia mais informação do que qualquer ameaça.
— Respondendo à pergunta anterior, as lendas chamaram nosso povo de anjos — declarou Fanuel. — Não usamos esse nome entre nós. Somos mais poderosos do que as histórias e buscamos a maior aproximação possível com Deus.
— Que Deus? — perguntei, mantendo o corpo atrás da barreira de Dash.
— O criador único, onipotente, onisciente e presente em toda parte — respondeu Uriel. — Nenhuma das pessoas trazidas para cá chegou perto dele como nós.
— Se está presente em toda parte, também está nas pessoas que você chama de intrusas. Proximidade não pode depender apenas de ocupar este planeta.
Baraquiel virou o rosto para Uriel. Fanuel conteve um sorriso breve, mas nenhum dos dois rebateu a pergunta. Uriel aproximou as mãos e reuniu eletricidade entre os dedos.
— Filosofia não altera sua posição. Entrem nas casas ou serão mantidos sob o solo até aceitarem as regras.
Henri e eu avaliamos a adaga, as barreiras e a distância dos civis. Poderíamos evacuar uma parte das pessoas, mas ignorávamos o alcance dos três. Dash falou conosco pelo canal interno preparado durante a inspeção.
— Consigo tocar Uriel se vocês interromperem o primeiro ataque. Copiar um agressor para proteger outras pessoas difere do teste que tentei contra Elaryan, mas quero a decisão registrada.
— Execute apenas se ele atacar ou avançar sobre as barreiras — respondeu Henri. — Depois do contato, recue para junto de nós.
Nazerith incluiu a condição na placa. Pedi a Uriel que mantivesse distância dos hospitais enquanto representantes locais avaliavam uma área de encontro. Ele avançou, estendendo a eletricidade na direção da barreira.
Abrimos uma passagem curta com a adaga e desviamos o primeiro arco para uma área vazia. Dash atravessou o portal, tocou o pescoço de Uriel e recebeu uma descarga que iluminou seus braços. O contato terminou quando Henri fechou a passagem.
Uriel lançou uma corrente de vento. Dash repetiu o movimento e as duas forças se desfizeram no espaço entre eles. O fogo veio em seguida; Dash ergueu a mão, produziu a mesma temperatura e abriu a chama para os lados, longe das construções.
Fanuel tentou separar os dois com uma faixa de matéria endurecida. Nazer deslocou Dash antes do fechamento, evitando que a contenção o prendesse junto de Uriel. Baraquiel abriu uma tela luminosa com os dedos e começou a ler os dados projetados.
— Dash conserva técnicas de fogo, vento, água, metal, eletricidade, manipulação molecular e controle mental. A leitura alcança dez mil quinhentos e dois. O valor supera o de Uriel por uma pequena margem.
— Você mediu meu poder sobre ele — respondeu Uriel. — Os números são idênticos.
— A essência foi clonada — corrigiu Baraquiel. — A capacidade existia apenas em registros sem comprovação.
Uriel recuou até Fanuel. Dash permaneceu diante das barreiras, sem perseguir os três nem testar os novos poderes contra alvos que já se afastavam.
— Esta cidade trouxe uma ameaça que precisa ser avaliada pelo conselho — declarou Fanuel. — Voltaremos com pessoas capazes de decidir a permanência de vocês.
— Tragam também alguém disposto a conversar sem executar um representante — respondeu Henri. — Enquanto isso, ninguém daqui aceitará confinamento.
Os três desapareceram numa dobra curta da luz. O céu ficou livre, mas ninguém interpretou o recuo como vitória definitiva. Dash pousou ao nosso lado e examinou as próprias mãos.
— Elaryan disse que copiar outros poderes me transformaria em ameaça. Agora Uriel e os demais levarão essa mesma conclusão ao conselho deles.
— O ataque tornou a defesa necessária — respondi. — Ainda assim, eles voltarão por causa do que viram. Precisamos preparar abrigo, negociação e retirada ao mesmo tempo.
Henri transmitiu o alerta às comunidades. As equipes mantiveram os pontos médicos protegidos, mapearam estruturas subterrâneas que não serviriam de prisão e testaram rotas de evacuação com a adaga sem deslocar moradores.
Enquanto o primeiro plano de defesa chegava aos conselhos, um canal de emergência da cidade dos lobos começou a repetir o nome de Henri. Tocqueville tentava contato e dizia que a transformação de algumas gatas produzira uma consequência que ninguém previra.