Felizes Para Sempre?
O colchão mudava de firmeza sob cada parte do nosso corpo. Quando virei o ombro durante o sono, a superfície cedeu naquele ponto e sustentou minha coluna sem me despertar. Um mecanismo na cabeceira emitia sons quase imperceptíveis, acompanhados por um aroma fresco que diminuía sempre que a respiração se aprofundava. Depois de duas mortes, uma simbiose nova e a travessia de um reino desconhecido, dormimos sem sonhar.
Acordei com dedos percorrendo meu rosto. O quarto ainda recebia pouca luz pelas cortinas fechadas, mas reconheci Ilana antes de abrir os olhos por completo. Ela estava sentada junto ao travesseiro, com os cabelos caindo sobre o nosso peito e uma expressão que eu conhecia de outra vida.
— Ilana! Você está mesmo aqui? Eu precisava ouvir sua voz.
Ela respondeu aproximando a boca da minha. O primeiro beijo trouxe uma lembrança menor do que a experiência: calor, respiração interrompida e a mão dela segurando minha nuca para impedir qualquer dúvida sobre sua vontade. Abracei sua cintura e senti Henri despertar junto comigo.
Henri perguntou dentro da nossa consciência se deveria separar-se. Fenrir já percebera a mudança de cheiro e mantinha distância dos nossos movimentos; Suzaku abriu uma onda de calor sob as costelas, ainda sem linguagem que permitisse interpretar intenção. Eu interrompi o beijo e permaneci com a testa encostada na de Ilana.
— Preciso explicar o que aconteceu com meu corpo antes de continuarmos.
Ilana afastou-se o suficiente para olhar meu rosto. A mão continuou no meu pescoço, mas os dedos perderam a pressão.
— Você encontrou outra pessoa durante todo esse tempo?
— Encontrei Henri, mas de uma forma que não cabe nessa pergunta. Nós dividimos este corpo. Fenrir, o lobo que conheceu na outra vida, também está conosco. Ontem Suzaku entrou na simbiose por escolha própria.
Ela retirou a mão e observou meus braços, peito e olhos, procurando alguma mudança visível. Henri pediu passagem para demonstrar a separação. O ar se reuniu ao lado da cama, ganhou contorno e recebeu parte da nossa matéria até que ele ficou em pé diante de nós, vestido com a mesma roupa usada no palácio. Fenrir atravessou o ombro dele e assumiu a forma lupina no tapete.
— Eu sou Henri — apresentou-se. — Magno e eu compartilhamos lembranças, movimentos e sentidos quando estamos unidos, mas continuamos pessoas diferentes. Posso permanecer separado enquanto vocês estiverem juntos, e prefiro que decidam sem me considerar uma presença inevitável.
Ilana olhou de Henri para mim e depois para Fenrir. A surpresa ainda prendia sua respiração, mas ela estendeu a mão para o lobo cheirar antes de tocá-lo.
— E a ave continua dentro de Magno?
— Suzaku está ligada a ele com mais força — respondeu Henri. — Ainda conhecemos pouco da conexão, por isso precisamos confirmar que ela consegue fechar os sentidos.
Concentrei-me na região onde o calor se acumulava e transmiti a Suzaku imagens simples: porta, escuridão, silêncio e o direito de recusar. A resposta veio pelo corpo. A temperatura desceu dos braços e do rosto, recolheu-se atrás do esterno e formou um ponto fechado, sem visão, som ou tato compartilhado. Tentei alcançar a consciência da ave e encontrei a passagem bloqueada por ela.
— Ela fechou a conexão — expliquei. — Consigo sentir que continua aqui, mas não recebe meus sentidos. Se o bloqueio abrir, eu paro.
Fenrir encostou o focinho na perna de Henri e indicou que sairia com ele. Henri perguntou se Ilana queria mais tempo, outra explicação ou que todos permanecessem no quarto sem qualquer aproximação. Ela caminhou até ele, apertou sua mão e agradeceu por ter perguntado.
— Quero ficar com Magno agora. Quero conhecer você quando nenhuma de nossas decisões estiver sendo tomada no meio de um beijo.
Henri sorriu e seguiu para o aposento vizinho com Fenrir. Antes de fechar a porta, mostrou a corrente de ar que ainda nos ligava e explicou que Magno poderia chamá-lo caso precisasse. Ilana esperou a fechadura tocar o batente e voltou para a cama.
— É uma situação muito mais complicada do que eu imaginei durante séculos — disse ela. — Ainda assim, continuo querendo beijar você.
— Eu também esperei séculos. Posso continuar ou você quer mais tempo?
Ela segurou minha camisa e me puxou para perto em resposta, mas eu permaneci imóvel até que sua vontade também chegasse pela voz.
— Pode. E não tente decidir sozinho o ritmo só porque voltou com título de rei.
Ilana retirou minha camisa, guiou minhas mãos até sua cintura e conduziu os primeiros movimentos sem pressa. A cada mudança, um de nós perguntava pelo corpo ou pela voz e o outro respondia aproximando, segurando ou pedindo mais devagar. Quando tentei inverter nossa posição, ela prendeu meus pulsos no colchão e balançou a cabeça, sorrindo.
— Ainda não. Agora você acompanha e deixa que eu conduza.
Obedeci. Ela percorreu meu corpo com a segurança de quem conservara desejos durante muitas vidas, mas também parava para descobrir o que aquele corpo novo reconhecia. A força recebida depois das mortes exigia cuidado; minhas mãos podiam apertar além do que eu pretendia, e Ilana corrigiu a pressão duas vezes antes que encontrássemos medida comum.
O calor de Suzaku permaneceu fechado atrás do esterno. Nenhum sentido atravessou a barreira. Isso me permitiu abandonar a vigilância por alguns instantes e prestar atenção somente na respiração de Ilana, na boca encostada ao meu ombro e nas palavras curtas com que ela orientava cada aproximação.
Mais tarde, Ilana soltou meus pulsos e me puxou sobre ela. Perguntei antes de mudar o movimento, e a resposta veio clara. O desejo acumulado atravessou nossos corpos sem apagar o cuidado que nos trouxera até ali. Quando o prazer rompeu o ritmo, ela segurou minhas costas, eu escondi o rosto junto ao pescoço dela e ficamos unidos até a respiração recuperar alguma regularidade.
Ilana deitou sobre o meu peito e passou os dedos pela queimadura já fechada deixada por Suzaku. Contei apenas o necessário sobre Indra, o teste e a escolha da ave. As histórias maiores poderiam esperar; naquele momento, ela queria saber quais partes do corpo ainda doíam e eu queria confirmar que continuava ali.
— Henri perguntou se deveria sair porque isso já aconteceu antes? — perguntou ela.
— Já dividimos intimidade com outras pessoas, mas nunca com a história que existe entre nós. Por isso nenhuma experiência anterior respondia por você.
— Ótimo. Tenho ideias para outro momento, mas primeiro quero aprender onde termina cada pessoa dentro dessa simbiose.
Ela fechou os olhos abraçada a mim. Quando percebi que o momento privado terminara, chamei Henri pela corrente de ar. Ele bateu antes de entrar, trouxe Fenrir e perguntou diretamente se podia reunir os corpos. Ilana concordou. A matéria voltou a circular entre nós, Fenrir ocupou seu lugar e, por último, Suzaku abriu devagar a conexão sensorial. O calor espalhou-se pelo peito sem carregar qualquer imagem do que acontecera.
Dormimos novamente, agora com Ilana ao nosso lado. O colchão refez o apoio para dois corpos, a cabeceira diminuiu o som e o quarto ficou silencioso até que uma mudança no ar despertou Fenrir.
Abri os olhos e encontrei uma kinnara parada aos pés da cama. Ela mantinha as asas recolhidas para não tocar o dossel e observava o grupo sob os lençóis. Ilana acordou quando me sentei.
— Bom dia, meu rei. O momento preparado atendeu aos seus desejos?
— Bom dia. Antes de qualquer coisa, ninguém entra neste quarto sem bater e receber resposta. Isso vale mesmo quando a porta estiver aberta.
A kinnara recuou um passo e baixou a cabeça. Ao pedir desculpas, começou a soltar o fecho da própria roupa, interpretando a correção como outra forma de serviço. Levantei a mão antes que abrisse a primeira camada.
— Mantenha a roupa. Eu não pedi que você participasse de nada.
— As kinnaras costumavam aguardar o rei na cama — explicou ela. — Algumas de nós deveriam estar aqui antes que ele despertasse. Esperamos seu sinal porque ainda desconhecemos suas preferências.
Ilana cobriu a boca, contendo uma risada nascida mais do absurdo da situação do que da mulher diante de nós. Depois se sentou e falou sem ironia.
— Ele está dizendo que você não precisa se oferecer para cumprir uma função. Se algum dia existir interesse entre pessoas daqui, todos terão de querer antes, inclusive você.
A kinnara franziu a testa, apertou novamente o fecho da roupa e levou alguns segundos para formular a pergunta seguinte.
— Posso continuar servindo ao rei e ainda recusar a cama?
— Pode recusar a cama, uma tarefa, uma pessoa e até o serviço inteiro — respondi. — Também pode desejar alguém sem transformar isso em obrigação. Não precisamos decidir sua vida nesta conversa, mas o costume anterior acabou para este quarto.
Henri sugeriu dentro de nós que a regra fosse levada às demais kinnaras antes de outra visita. Fenrir acompanhava o cheiro da mulher e encontrou medo junto do interesse. Suzaku reagiu ao movimento das asas, sem assumir controle.
— Qual é o seu nome? — perguntei.
— Sou K11, meu rei. Esse é o nome que recebi aqui.
Ilana contou nos dedos, olhou para o corredor e calculou quantas portas semelhantes àquela poderiam existir apenas naquele andar do palácio.
— Então existem pelo menos onze mulheres identificadas desse mesmo jeito?
— Somos cem, todas selecionadas por Deus para o palácio.
Olhei para o corredor e contei as portas visíveis daquele andar. Se cem mulheres viviam no palácio sob números, o costume alcançava muito além daquele quarto. Perguntei se K11 sempre tivera aquele nome. Ela tocou o próprio pulso, procurando uma lembrança que demorou a alcançar.
— Tive outro há muito tempo. Não consigo mais ouvi-lo inteiro.
— Você pode continuar K11, procurar o nome antigo ou escolher outro. Continuar kinnara também é uma escolha separada de servir alguém.
— Posso escolher agora? Ninguém jamais me perguntou isso.
— Pode escolher agora e mudar depois. Ninguém tomará isso de você.
Ela abriu as asas por alguns centímetros, examinou o próprio reflexo no metal da cabeceira e olhou para Ilana antes de responder.
— Kaconforma. Sempre guardei esse som, embora nunca tenha podido usá-lo.
O nome nos surpreendeu pela forma e pela certeza com que saiu. Ilana perguntou a pronúncia, repetiu até acertar e estendeu a mão.
— Prazer, Kaconforma. Pode me chamar de Ilana.
Kaconforma apertou a mão dela com cuidado. Depois repetiu o próprio nome duas vezes, testando-o no quarto, e informou que levaria a nova regra da porta às outras. Antes que saísse, meu estômago interrompeu a conversa com um ruído que fez Ilana rir sem qualquer contenção.
— Kaconforma, onde podemos conseguir alguma coisa para comer?
Ela abriu a porta e fez um sinal. Quatro kinnaras entraram empurrando mesas já cobertas por travessas, frutas, folhas, pães, carnes, doces e recipientes cujo conteúdo mudava de cor com a temperatura. Haviam preparado tudo antes de sabermos que estávamos com fome.
— Trouxemos pratos de várias regiões para que o rei encontre aquilo de que gosta — explicou uma delas. — Existe mais comida nas cozinhas caso alguma opção acabe.
Ilana pegou uma folha vermelha, mordeu a ponta e imediatamente procurou uma taça. A bebida estava longe; Kaconforma entregou água antes que ela precisasse pedir.
— Isso queima até pensamento. Alguém come uma folha inteira?
Uma das kinnaras confirmou que sim, mas não soube dizer quem. Escolhi dois pratos pelas semelhanças com comida terrestre e encontrei sabores salgados que funcionavam bem juntos. Henri apontou um doce e, ao perguntar os nomes, recebemos descrições da origem, nunca do gosto.
— Vocês já provaram esses pratos? — perguntei.
Kaconforma indicou quatro travessas entre mais de cem e recolheu a mão depressa, sem tocar nos alimentos preparados para o rei.
— Somente esses. K1 conhece todos os sabores e decide o que deve ser servido. As outras guardam, preparam e substituem o que o rei consumir.
Ilana pousou a folha vermelha no prato e olhou para mim. A comida cercava a cama, suficiente para alimentar dezenas de pessoas, enquanto quem a preparava desconhecia quase tudo que estava sobre as mesas.
— Chamem K1, levem os pratos para o salão principal e convidem todas as kinnaras — pedi. — Ninguém precisa provar nada, mas toda pessoa que quiser comer deve ter acesso. Depois vocês mesmas precisarão decidir regras para a cozinha, o trabalho e a distribuição. Hoje começamos sentando na mesma mesa.
Kaconforma repetiu a instrução para as outras. Algumas sorriram; outra perguntou se o rei realmente suportaria esperar a comida ser levada. Ilana pegou um pão antes que retirassem a mesa e entregou metade a ela.
Vestimo-nos e seguimos pelo palácio. As paredes douradas misturavam dois metais, um mais quente e outro quase branco, trabalhados em arcos que conduziam o olhar até tetos arredondados. Tecidos vermelhos e azuis cobriam bancos, paredes e passagens. Mesmo nos corredores maiores, entalhes nos batentes e nos rodapés conservavam detalhes feitos para serem vistos de perto.
Descemos uma escadaria longa e chegamos a uma sala onde mesas começavam a ser organizadas. Kaconforma disse que aquele era o espaço habitual das kinnaras. Caberiam cem pessoas se todas recolhessem as asas e ocupassem os bancos encostados.
— Onde fica o salão principal? Quero conhecer o espaço reservado aos reis.
— Do outro lado do corredor leste, meu rei. Ele costuma ser reservado aos Reis do Vento e aos convidados.
— Então vamos usá-lo para esta reunião. Cem asas e mais de cem pratos precisam de espaço.
Kaconforma hesitou diante da mudança de lugar, depois orientou o grupo pelo corredor leste. Passamos por portas altas, galerias fechadas e varandas que davam para a cidade. O salão principal ocupava quase toda uma ala do palácio. Fileiras de colunas sustentavam um teto pintado, e o piso conservava marcas de mesas retiradas muito tempo antes.
— Quando alguém usou este salão pela última vez?
— Oitocentos e sessenta e sete anos atrás — respondeu uma voz atrás de nós. — Foi durante o último baile dos Reis.
A kinnara que se aproximava usava adornos metálicos nas asas e carregava chaves presas à cintura. Ela se apresentou como K1, tomou minha mão e encostou os lábios sobre os dedos. O gesto misturava reverência, hábito e uma sedução que ela executava com segurança própria. Retirei a mão sem brusquidão.
— Kaconforma contou sobre os nomes. Você também pode escolher outro ou procurar o antigo.
— Conheço a autorização e continuarei K1 — respondeu ela. — Este nome guarda minha posição e tudo que aprendi. Quero conservá-lo.
— Então K1 continua sendo seu nome enquanto essa for sua escolha.
As mesas entraram no salão, seguidas pelas kinnaras que terminavam o preparo. Cem mulheres ocuparam as laterais, mas nenhuma se sentou. K1 organizou os pratos por sabores, corrigiu descrições e esperou que eu escolhesse o primeiro.
Peguei uma travessa salgada, servi meu prato e passei o utensílio a Kaconforma. Ela olhou para K1, recebeu um aceno e colocou uma porção pequena diante de si. Outras repetiram o gesto, ainda de pé.
— Sentem onde desejarem — falei. — A comida será dividida entre todas. Quem cozinhou pode comer, quem não cozinhou também, e ninguém precisa agradecer a mim por isso.
As primeiras cadeiras arrastaram devagar. Ilana sentou-se junto de Kaconforma e convidou duas kinnaras que continuavam encostadas à parede. Henri provou o prato mais apimentado sem conhecer o aviso e nos fez procurar água pela segunda vez naquela manhã. A risada percorreu o salão e reduziu um pouco a vigilância dos rostos ao redor.
K1 permaneceu em pé até que quase todas estivessem servidas. Quando finalmente ocupou uma cadeira, segurou a taça com as duas mãos.
— Shiva enviou um rei permissivo. Comer com ele e escolher nossos nomes é uma bondade que nenhuma de nós esperou receber.
— Se vocês preparam esta comida e passam a vida sem prová-la, alguma coisa está errada, K1. Corrigir uma parte disso não transforma o acesso em presente meu.
Ela ouviu e continuou segurando a taça sem beber, esperando outro gesto meu antes de levá-la à boca. Em volta, algumas kinnaras também interromperam os talheres quando comecei a falar. Propus que se reunissem sem nossa presença para escrever regras sobre turnos, aposentos, alimentação, nomes, entrada nos quartos e qualquer serviço íntimo. Depois poderiam apresentar o que decidissem, inclusive pontos que não desejassem negociar conosco.
Kaconforma perguntou se poderia participar mesmo tendo escolhido o nome naquela manhã. K1 respondeu antes de mim que todas participariam e que os números não definiriam posição na reunião. A resposta trouxe murmúrios, perguntas e a primeira discussão que já não procurava nossa aprovação a cada frase.
Ilana apoiou a cabeça no meu ombro e continuou comendo. Ao redor, algumas kinnaras trocavam pratos, outras experimentavam sabores que conheciam apenas pelo cheiro, e duas já discordavam sobre manter as tarefas da cozinha. Pela janela, eu via as vias aéreas cheias, enquanto muito abaixo delas permaneciam os corredores escuros que atravessáramos.
Eu tinha Ilana ao meu lado, Henri dentro de mim, Fenrir acomodado entre nossas consciências e Suzaku acordando em pequenas ondas de calor. Pela primeira vez desde a praia, o corpo encontrou descanso, desejo e comida sem que uma batalha começasse no mesmo instante.
Chamei aquilo de felicidade enquanto Ilana segurava minha mão e Kaconforma discutia a divisão da cozinha com duas companheiras. Do lado de fora continuavam um reino que desconhecíamos, duas cidades arrancadas de outro planeta e cem mulheres começando a perguntar o que queriam. O para sempre teria de esperar.