Um Novo Lar Liberdade do Vento · Capítulo 14 de 49
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Um Novo Lar

O vento atravessava a plataforma por baixo das raízes e subia entre as construções suspensas, trazendo um cheiro de folhas úmidas que me lembrou Finiti sem pertencer a nenhuma parte dela. Henri procurava muralhas, postos de vigilância e caminhos de retirada através dos nossos olhos; eu acompanhava as pontes estreitas, as janelas abertas e as copas que escondiam o chão. Krakor continuava diante de nós, satisfeito por ter respondido a um pensamento que eu não lhe oferecera.

— Acho que precisaremos criar um guia para os recém-chegados — disse Athos. — Já repetimos algumas explicações, e cada novo grupo chega com urgências diferentes.

— Um guia pode dizer onde existe água e até onde alguém pode voar sem ser esmagado — respondeu Krakor. — O restante deve ser dito olhando para as pessoas. Ninguém atravessa um portal deixando um mundo para trás e merece ser recebido por uma gravação.

Hagar apoiou a garrafa de Anteom contra o peito e observou o espaço acima das árvores. Duas fontes de luz atravessavam as nuvens em direções distintas, embora apenas uma delas aquecesse a lateral do nosso rosto. O horizonte curvava-se muito longe, amplo demais para que eu calculasse a altura das torres ou a distância da floresta.

— Comecem pelo que pode nos matar — disse Hagar. — Depois expliquem quanto tempo ficamos aqui e quantas pessoas este lugar comporta.

Krakor apontou para o céu, onde um ponto luminoso se deslocava devagar por trás das nuvens e alterava a claridade sobre as torres.

— As estrelas giram ao redor de Vésper. Perto da superfície, o corpo de vocês conserva peso e movimento semelhantes aos de Finiti, mas essa condição termina acima de uma determinada altura. Quem ultrapassar o limite entra numa força capaz de desmanchar matéria. As rotas aéreas ficam abaixo dele e serão marcadas para quem ainda não as conhece.

Henri voltou nossa atenção para as construções. Algumas plataformas estavam vazias; outras sustentavam casas incompletas, depósitos e canais de água presos aos troncos por peças metálicas. Havia trabalho recente ali. Marcas de ferramentas cortavam a madeira, e montes de material esperavam sob coberturas de folhas largas.

— Esta região foi preparada para povos que vivem com o vento — explicou Athos. — Krakor e outros moradores começaram a estrutura, e os habitantes que chegaram depois ajudaram a ampliá-la. Existem outras comunidades em Vésper, separadas por distâncias grandes o bastante para que cada uma se organize sem disputar território. Finiti seria a primeira população numerosa nesta parte.

— Seria? — perguntou Henri por nossa boca. — Então vocês ainda não sabem se há moradia, alimento e água para todos.

— Água existe, e o solo produz mais do que consumimos agora — respondeu Krakor. — Moradia para uma população inteira, pronta e mobiliada, não existe. Há espaço, madeira, áreas cultiváveis e gente capaz de ensinar o que já aprendeu. Os primeiros dias exigirão abrigo coletivo e construção.

— Isso precisa ser dito antes de qualquer passagem — afirmou Henri. — Finiti está morrendo, mas não chamarei este lugar de salvação sem explicar o preço de chegar.

Athos recolheu as asas junto às costas. Ele não tentou defender a palavra salvação nem garantir o que ainda não conhecia. Dafa aproximou-se de uma das pontes e examinou os encaixes que prendiam as tábuas às raízes, enquanto Móretar permanecia ao lado dela, atento às árvores e aos caminhos.

— Podemos preparar alojamentos antes de trazer a maior parte da população — disse Dafa. — Um grupo pequeno atravessa primeiro, mede o espaço, separa água, abrigo e alimento. Os demais chegam em etapas.

Hagar tirou a rolha da garrafa, tornou a fechá-la sem beber e encarou Athos, esperando que ele abandonasse qualquer explicação preparada.

— Agora o tempo. Dafa afirmou que nenhum instante passaria em Finiti enquanto estivéssemos aqui.

— Foi o resultado das viagens que consegui comparar — respondeu Athos. — Deixei pessoas acompanhando instrumentos em diferentes planetas, atravessei para Vésper e permaneci aqui. Quando voltei, elas me receberam no instante da partida. Fiz o percurso contrário e observei o mesmo deste lado. Não sei explicar a causa nem afirmar o alcance disso para lugares onde nunca estive.

Henri organizou a resposta dentro de nós. Os testes ofereciam uma vantagem, não uma lei em que pudéssemos apoiar toda a população. Hagar também percebeu a diferença; seus dedos afrouxaram ao redor da garrafa, mas ele continuou olhando para Athos.

— Dash ficou na adega com os relatórios — disse Hagar. — Se regressarmos e ele ainda estiver na mesma frase, teremos uma confirmação para Finiti. Continuará sendo uma experiência, não uma certeza sobre o Universo.

— Há outra coisa — pensei, e Henri me deixou usar nossa voz. — Quantas pessoas você consegue levar de uma vez?

Athos olhou para Dafa antes de responder. Ela já sabia o que viria e abandonou a ponte para voltar ao grupo.

— Não uma população inteira. Quando transportei parte dos habitantes de outro planeta, precisei de várias passagens e quase perdi a capacidade de abrir a última. Quanto maior a distância, a abertura e o número de corpos, maior o esforço. Posso começar a retirada de Finiti, descansar aqui entre os grupos e continuar, mas o processo levará tempo para mim, ainda que pouco ou nenhum tempo passe lá durante cada intervalo em Vésper.

Eu vira homens correrem para a fortaleza acreditando que bastava derrubar César para recuperar o planeta. Depois, assistira à explosão de Tarkar comprar apenas uma demora. A abertura luminosa diante de nós podia se tornar outra promessa simples demais caso voltássemos chamando Vésper de lar e mandássemos todos atravessar.

— Precisamos de uma ordem de passagem — disse Henri dentro de nós.

— E eles precisam escolher — respondi em pensamento. — Se começarmos pela ordem, a escolha vira cerimônia.

Henri manteve nosso rosto voltado para Athos, mas senti a mão se fechar. Ele tinha comandado soldados durante o golpe, tomado o Palácio e recebido relatórios de pessoas que obedeciam ao título antes de compreender a decisão. A população de Finiti conhecia o chamado de emergência como uma ordem do rei. Usá-lo para reunir todos seria inevitável; usá-lo para decidir por todos repetiria outra forma de domínio.

— Vamos apresentar o que vimos e o que ainda não sabemos — declarou Henri. — Quem quiser atravessar será retirado. Famílias não serão separadas para preencher grupos, e ninguém perderá lugar por precisar de tempo para decidir. Os feridos, as crianças e quem cuida deles devem ter prioridade depois que uma equipe confirmar o abrigo.

— Também precisamos levar arquivos, sementes, ferramentas e pessoas que conheçam os sistemas de água e alimento — acrescentei. — Não adianta salvar corpos e chegar aqui esperando que este planeta faça o restante.

— Posso ficar em Vésper para organizar a recepção — ofereceu Dafa. — Hagar e Nerfate conhecem Finiti e podem ajudar a reconhecer o que será necessário deste lado.

Nerfate observava uma das torres distantes. A reunião com integrantes dos Doze ainda estava incompleta, e o sinal de Zeon continuava sem resposta, mas ela não desviou a conversa para a busca.

— Ficarei aqui — decidiu Nerfate. — Se Athos trouxer os primeiros técnicos, eu os acompanho até a área de abrigo. Hagar pode voltar e ajudar Henri a organizar a retirada.

— Não voltarei agora — respondeu Hagar. — Se a passagem realmente nos devolver ao mesmo instante, posso gastar aqui algumas horas examinando água, acesso e defesa sem roubar um segundo dos preparativos em Finiti. Levem Magno e Henri. Dash saberá que não houve demora, e Arc começará a reunir o povo.

Henri aceitou a utilidade do plano, embora não gostasse de regressar sem Hagar. Krakor se aproximou de nosso corpo e estendeu a mão. Hesitei antes de tocá-la, ainda incomodado com a leitura do meu pensamento.

— Não leio tudo o que passa por uma mente — disse ele, poupando-me de formular a pergunta. — Algumas ideias chegam com força suficiente para alcançar quem está perto. A sua preocupação com essas pessoas chegou antes de você.

— Então vai ouvir bastante coisa quando elas começarem a atravessar — respondi. — Muitas perderão a casa no mesmo momento em que ganharem uma saída.

— É por isso que prefiro conversar com cada grupo.

Athos abriu o portal no centro da plataforma. A luz atingiu as raízes por baixo e apagou parte da floresta, substituída pela adega estreita do outro lado. Vimos Dash junto à parede, na posição em que o havíamos deixado, e uma folha do relatório ainda tombava da borda da mesa. Atravessamos com Athos. O ar frio do subterrâneo cobriu nossa pele, e a folha terminou de cair perto do pé de Henri e meu.

Dash afastou-se da parede e levou a mão à arma quando Athos fechou a passagem, bloqueando a saída com o próprio corpo.

— O que aconteceu? — perguntou ele. — Hagar e Nerfate acabaram de entrar e vocês já voltaram sem eles.

— Para você, quanto tempo passou? — perguntou Henri por nossa voz.

— O bastante para a luz fechar e abrir outra vez. Se alguma coisa deu errado, diga logo.

Athos se abaixou, pegou a folha caída e devolveu-a à mesa. O líquido nos copos ainda oscilava por causa da passagem que havia cortado a adega na primeira vez. Henri acompanhou o movimento e aceitou o teste pelo que ele podia demonstrar.

— Eles estão bem — respondemos. — Encontramos um lugar capaz de receber a população, mas será preciso preparar abrigo e fazer várias viagens. Hagar e Nerfate ficaram para examinar a estrutura.

— Quantas pessoas cabem nesse lugar? — perguntou Dash, sem retirar a mão da arma.

— Há território, água e cultivo para todos. As casas ainda precisam ser construídas, e o transporte depende da força de Athos. Não sabemos tudo sobre o planeta. Sabemos que Finiti não precisa morrer aqui.

Dash olhou para Athos, para o buraco aberto no teto da adega e para os relatórios deixados por Hagar. A sirene de emergência ficava sob autoridade do rei, mas o mecanismo podia reunir a capital e transmitir o chamado para as plataformas mais distantes.

— Arc está no Centro de Ciência — informou Dash. — Posso trazê-lo sem acionar o chamado.

— Traga-o — respondeu Henri. — Antes da sirene, precisamos impedir que a multidão corra para um portal sem saber o que existe do outro lado.

Arc chegou acompanhado por dois técnicos e ainda carregava as anotações das últimas medições de Finiti. Ouviu o relato sem interromper, conferiu com Athos o tamanho máximo da passagem e dividiu uma página em grupos. Técnicos de água, construtores, curandeiros, soldados e representantes das plataformas formariam a primeira equipe. Depois viriam feridos, crianças com suas famílias e os habitantes que se apresentassem para partir. Arquivos, sementes e ferramentas seriam distribuídos entre as viagens para que uma falha não destruísse tudo de uma vez.

— Não consigo manter o portal aberto durante a organização — avisou Athos. — Cada minuto de abertura consome energia mesmo sem passagem. Reúnam os grupos, e eu abrirei pelo tempo necessário.

— Quanto tempo entre um grupo e outro? — perguntou Arc.

— Em Vésper, o tempo suficiente para eu me recuperar. Aqui, se o comportamento se repetir, vocês verão uma passagem fechar e a próxima abrir logo depois. Ainda assim, deixem distância da luz e esperem minha autorização.

Arc enviou os técnicos para os postos e chamou os comandantes pelo comunicador. A notícia correu primeiro como ordem de preparação, sem a promessa de um novo lar. Quando as equipes confirmaram que os caminhos estavam livres, Henri pediu que acionassem o chamado de emergência.

A sirene começou no Palácio e se espalhou pelas plataformas. O som atravessou as paredes, desceu pelas raízes e voltou de pontos distantes, repetido pelos transmissores que ainda funcionavam. Deixamos a adega e seguimos até a área pública onde César anunciara a tomada do governo. Pessoas saíam das casas levando crianças, ferramentas, armas e sacos improvisados, embora ninguém tivesse mandado preparar bagagem. O medo já conhecia aquele chamado.

Subimos ao mesmo lugar de onde o golpe fora apresentado como proteção. Henri e eu ainda ocupávamos um só corpo. A população se apertava nas pontes e plataformas adjacentes, e os soldados de Arc mantinham livre a área onde Athos precisaria abrir a passagem. Esperei a sirene cessar. Henri encontrou em nossa memória a voz usada diante das tropas; eu procurei a maneira mais simples de começar.

— Finiti continua se afastando do segundo Sol — dissemos. — Tarkar diminuiu o movimento, mas não o interrompeu. Se permanecermos aqui, o planeta deixará de sustentar nossa vida.

O ruído da multidão cresceu, atravessado por perguntas que não podíamos responder ao mesmo tempo. Erguemos a mão e esperamos até que as vozes mais próximas baixassem.

— Encontramos outro planeta e estivemos nele. Há água, alimento e uma região preparada para receber povos do Vento, mas as casas ainda não estão prontas e existem perigos que estamos começando a conhecer. O homem ao nosso lado pode abrir passagens até lá. Ele não consegue levar todos de uma vez.

Uma mulher perto da primeira ponte perguntou se aquilo era uma ordem do rei. Henri recebeu a pergunta no corpo antes que eu escolhesse a resposta. Separar nossas vozes naquele momento permitiria que ele se escondesse atrás de mim ou que eu me escondesse atrás dele; continuamos unidos.

— O chamado reuniu vocês para uma escolha — respondemos. — Quem decidir atravessar terá lugar. Quem precisar de explicações poderá falar com as equipes. Famílias permanecerão juntas, e ninguém será empurrado para a passagem. Também não esconderemos que ficar significa aceitar o risco de Finiti morrer.

Arc chamou os nomes da equipe inicial. Os técnicos avançaram carregando instrumentos, cordas e recipientes vazios; dois construtores trouxeram ferramentas presas ao corpo, e uma curandeira segurava a mão do filho. Quando Athos abriu o portal, a floresta de Vésper apareceu além da luz. Nerfate aguardava do outro lado, acompanhada por Dafa e Krakor.

Ninguém atravessou de imediato. A curandeira ajoelhou-se, disse alguma coisa ao menino e tornou a verificar as tiras que prendiam a mochila dele. Um dos técnicos tocou o piso iluminado com a ponta da bota e recuou. Athos manteve a passagem aberta, respirando cada vez mais fundo.

Henri desceu comigo da plataforma. Paramos diante do portal e estendemos a mão para a curandeira, sem ordenar que ela a aceitasse. O menino foi o primeiro a tocar nossos dedos. A mãe se levantou, segurou a outra mão dele e atravessou conosco. Atrás de nós, as ferramentas dos construtores bateram umas contra as outras, e os primeiros habitantes de Finiti começaram a deixar o planeta.

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