O Resgate
Voltamos ao Palácio enquanto os técnicos ainda mediam o efeito da explosão de Tarkar. Hagar ouviu o primeiro relatório no corredor, pediu uma cópia dos cálculos e continuou andando sem largar o ombro de Nerfate. Ele conhecia passagens que Henri nunca visitara. Atrás de um painel de madeira na antiga sala do conselho, encontrou uma fechadura coberta por tinta e abriu uma escada estreita.
— Falcão manteve a adega e escondeu a entrada — disse Hagar. — Posso perdoar o golpe, a guerra e até a destruição do meu quarto, mas ninguém ter procurado estas garrafas durante todos esses anos é uma ofensa difícil de aceitar.
As prateleiras ocupavam as quatro paredes do cômodo subterrâneo. A maior parte das garrafas estava coberta por uma camada espessa de poeira, mas Hagar encontrou as garrafas de Anteom pelo formato do gargalo. Henri reconheceu o selo do Palácio no vidro e procurou nas próprias lembranças alguma menção àquele lugar. Não encontrou.
Ainda ocupávamos um corpo só. Hagar já puxava cadeiras para uma mesa pequena quando Henri tocou nossa mão direita com a esquerda. O desejo de separação passou de um para o outro sem precisar de palavra. A visão se dividiu, o formigamento abriu caminho pelo peito e, quando recuperei o equilíbrio, Henri estava diante de mim em seu próprio corpo.
Ele manteve os dedos presos aos meus durante alguns segundos. A separação devolvia distância à voz, ao movimento e ao calor da pele, mas nenhuma lembrança compartilhada tinha desaparecido. Henri soltou minha mão apenas quando Hagar colocou uma garrafa entre nós.
Sentaram-se Hagar, Nerfate e Henri. Permaneci em pé ao lado da mesa, ainda desconfiado da capacidade do meu corpo de receber qualquer bebida. Dash se encostou perto da porta, quieto desde que voltara do portal, e os integrantes mais próximos do governo e do Centro de Ciência ocuparam o pouco espaço restante.
Henri começou pela morte de Falcão. Colocou sobre a mesa os relatórios da tomada do Palácio, a prisão de César, o ataque à fortaleza, a fuga do general pela parede posterior e o sequestro de Nazer e Nazerith. Hagar bebia enquanto ouvia. A cada interrupção, fazia uma pergunta curta sobre datas, armas ou pessoas e voltava à garrafa.
— Passei séculos procurando esta bebida em outros planetas e nunca encontrei nada semelhante — declarou Hagar, erguendo o copo diante da luz. — Saí de Finiti pela última vez levando uma única garrafa. Agora descubro que deixei uma adega inteira nas mãos de gente incapaz de encontrá-la.
— Sua prioridade continua sendo a bebida depois de tudo o que ouviu? — perguntou Henri, mantendo uma das mãos sobre o relatório da fuga.
— Minha prioridade é pensar sem desperdiçar uma bebida que ajuda justamente nisso. Prove antes de condenar um hábito muito anterior ao seu nascimento.
Hagar empurrou outro copo na minha direção. O líquido tinha a consistência de um mel aquecido e descia devagar pelo vidro. Bebi um gole pequeno. A doçura cobriu minha língua primeiro; depois veio um gosto de ovos apodrecidos, preso no fundo da garganta. Segurei a borda da mesa e fechei a boca até o estômago desistir de devolver tudo.
Os pensamentos começaram a surgir em quantidade maior do que eu conseguia ordenar. Lembrei a posição das rachaduras na estação, o número de soldados que cercaram César, a mulher entrando no mar, o cheiro do bar, a respiração de Henri dentro do nosso corpo e uma palavra que eu havia riscado de um texto na Terra. Algumas lembranças se ligavam por detalhes que nunca tinham me chamado atenção; nenhuma oferecia uma saída para Finiti.
Henri afastou o copo quando Hagar tentou servi-lo. Pela expressão dele, minhas reações já haviam fornecido informação suficiente. Nerfate bebia em goles espaçados e acompanhava Dash, os cientistas e a porta, alternando o olhar entre eles.
— Quando vocês se separaram, conservaram todas as lembranças da união? — perguntou Hagar, deixando a garrafa no centro da mesa.
— Eu continuo sabendo o que Magno viveu, e ele continua sabendo o que vivi — respondeu Henri. — A diferença é que agora escolhemos quando dividir um corpo.
— Conheci uma simbiose entre duas pessoas num planeta de nível quatro. Os corpos mudavam a cada união, e uma consciência dominava enquanto a outra recebia apenas fragmentos. Vocês permanecem ativos, aumentam a força um do outro e recuperam os dois corpos sem perder a memória. Nunca vi afinidade semelhante.
Hagar observou primeiro Henri e depois a distância curta que havíamos mantido entre nós. Procurei nele alguma resposta sobre o que aconteceria se um dos dois morresse longe do outro, mas o efeito do Anteom enchia minha cabeça com perguntas simultâneas. Dash continuava calado. Nem a referência a uma simbiose parecida conseguiu fazê-lo abandonar a parede.
— E sobre o planeta? — perguntei. — Você ouviu o que aconteceu, leu os cálculos e comprou algum tempo com Tarkar. O que fazemos agora?
Hagar esvaziou o copo, reuniu os relatórios e os alinhou sobre a mesa. A explosão tinha reduzido a velocidade do deslocamento, mas as medições já registravam nova aceleração. Ele indicou os números com a ponta do dedo.
— Não conheço uma força capaz de interromper isto sem destruir Finiti no processo. Podemos procurar ajuda enquanto Tarkar ainda produz efeito, mas vocês precisam preparar o povo para a possibilidade de morrer. Reúnam professores, escribas, construtores, curandeiros e todos que saibam fazer alguma coisa que possa ser ensinada. Quanto mais conhecimento levarem, maior será a chance de utilizá-lo em outra vida.
Henri baixou os olhos para os relatórios. A mão dele permanecia aberta sobre a mesa, próxima da minha. Eu me lembrei do corredor branco depois do tiro, da demora para recuperar meu nome e de acordar sem escolher o planeta, o corpo ou a época.
— Se a morte leva a outra vida, por que lutar tanto para evitar esta? — perguntei. — Seria mais simples deixar o planeta seguir o caminho dele e esperar o próximo lugar.
— Porque ninguém escolhe esse próximo lugar — respondeu Hagar. — Já encontrei mundos onde um corpo suporta dor durante séculos e a morte não chega. Em outros, a pessoa morre e renasce no mesmo domínio, sob o mesmo governante, sem guardar memória suficiente para escapar. Também existem lugares melhores do que Finiti. O problema é apostar todos os habitantes do planeta numa possibilidade que não sabemos calcular.
— E as pessoas que morrem juntas? Elas podem se encontrar de novo?
— Podem, mas não há garantia. A distância entre dois renascimentos pode envolver planetas, séculos e corpos incapazes de se reconhecer. Algumas relações resistem por acaso, procura ou intervenção. A maioria termina sem despedida.
Henri fechou a mão sobre a minha. Eu havia conhecido uma mulher por poucos minutos na praia e não sabia onde a morte a levara. Com Henri, eu dividira corpo, memória e desejo; ainda assim, uma alteração no lugar ou no tempo poderia tornar impossível qualquer reencontro.
— Então vamos preparar Finiti — disse Henri. — Começaremos pelos arquivos e pelo chamado público. Não anunciarei uma salvação que ainda não temos, mas também não entregarei o povo à morte sem procurar outra saída.
— E você não fará isso sozinho — respondi, apertando os dedos dele. — Se tivermos que falar sobre o fim, falaremos juntos.
Uma luz cortou o centro da adega. Os copos vibraram sobre a mesa, e o ar se abriu numa passagem alta demais para o teto baixo. Parte das pedras desapareceu dentro do clarão. Henri e eu nos levantamos ao mesmo tempo, unimos as mãos e desejamos o mesmo movimento. O formigamento atravessou os braços; nossas respirações voltaram a ocupar um corpo antes que três figuras cruzassem o portal.
O primeiro era um homem alado. A mulher ao lado dele usava sobre a pele um material escuro que acompanhava cada movimento do corpo. O terceiro, menor e de cabelos longos, manteve a mão perto da arma enquanto examinava o aposento lotado. Nenhum deles atacou.
— Dafa! — exclamou Hagar, afastando a cadeira com as pernas. — Diga que é você e que esta bebida ainda não começou a fabricar visitas.
A mulher abriu os braços e recebeu o abraço dele. Nerfate levantou-se logo depois, sem a reserva que mantivera durante toda a conversa. Dash saiu da parede e se colocou ao nosso lado.
— Sou eu, Hagar. Recebi o sinal de Nerfate e trouxe quem podia abrir o caminho. Este é Athos, e o homem com ele é Móretar.
— Você recebeu minha localização depois da explosão? — perguntou Nerfate, segurando os braços de Dafa.
— Recebi em Key. Athos nos levou primeiro a Vésper e, de lá, conseguiu alcançar Finiti.
Hagar procurou o cajado nas mãos e nas costas de Athos. O homem alado percebeu a inspeção e abriu as asas o suficiente para não deixá-las pressionadas contra a pedra.
— Onde está o instrumento usado para criar o portal? — perguntou Hagar. — Zeon ficou com o cajado quando nos exilou.
— Athos não precisa dele — respondeu Dafa. — Ele também veio de um planeta de nível seis, mas nasceu numa região do Universo que nosso grupo nunca alcançou. As explicações podem esperar. Viemos porque Nerfate pediu ajuda.
— Então já sabe que Finiti está sendo arrastado para longe do segundo Sol. Não abandonarei este planeta para seguir um desconhecido por uma passagem.
— Durante o tempo em que estivermos em Vésper, nenhum instante passará aqui — explicou Dafa. — Athos testou a diferença em outros mundos. Podemos atravessar, avaliar o lugar e voltar a esta adega no mesmo momento.
Henri recebeu a afirmação dentro da nossa cabeça e procurou as falhas antes de aceitar a promessa. Um portal sem cajado, um planeta desconhecido e três pessoas que apareciam no instante em que Hagar declarava Finiti condenado ofereciam motivos suficientes para recuar. Também eram a primeira possibilidade de retirar o povo dali.
— Vamos conhecer o lugar e voltaremos antes do chamado público — disse Henri pela nossa voz. — Se existe estrutura capaz de receber Finiti, precisamos vê-la.
— Eu vou com você — pensei para ele, embora já dividíssemos o mesmo corpo e a decisão.
— Eu sei que você vai — respondeu Henri dentro de nós.
Athos abriu outra passagem. Hagar fez sinal para que Nerfate seguisse primeiro, mas ela segurou o pulso de nosso corpo com uma mão e o braço dele com a outra. Dafa atravessou ao lado de Móretar. Entramos logo atrás, deixando Dash com os relatórios e as garrafas abertas.
A pressão do portal fechou nossos ouvidos e retirou o chão. Quando a luz diminuiu, pisamos numa plataforma cercada por árvores de troncos largos. Construções suspensas ocupavam diferentes alturas e se ligavam por caminhos estreitos, atravessados por folhas e raízes. Mais adiante, outras torres surgiam acima de uma floresta que continuava além do alcance da visão.
O lugar lembrava Finiti pela presença do vento, pelas casas erguidas do solo e pelo modo como a vegetação participava das construções. A escala, porém, eliminava qualquer medida conhecida. Pensei que as árvores tinham sido plantadas ao redor das plataformas para completar um projeto iniciado antes delas.
— E foi exatamente isso — disse uma voz atrás de nós.
Nerfate soltou nosso pulso e se virou. Hagar ficou imóvel por um segundo, ainda segurando a garrafa de Anteom que trouxera da adega.
— Krakor! — chamou Nerfate. — Há quanto tempo você está aqui?
O homem que respondera ao meu pensamento se aproximou do grupo, mas foi Athos quem apontou para as construções espalhadas além das árvores.
— Bem-vindos a Vésper. Há espaço para todos os que precisarem sair de Finiti.
Procurei atrás de nós a abertura pela qual havíamos chegado. A luz tinha desaparecido por completo, e o portal já estava fechado.