Exilado Salvador
Os Reis se uniram novamente e subiram aos céus para tentar salvar o mundo. A frase começou entre os técnicos do Centro de Ciência e chegou à praça antes de Henri e eu deixarmos a sala de preparação.
Ficamos frente a frente, cercados por mapas e instrumentos que indicavam os pontos calculados. Henri segurou minhas mãos. Desejamos a união ao mesmo tempo, e o formigamento percorreu nossos braços até alcançar o peito. Duas respirações ocuparam o mesmo corpo; a visão encontrou uma única perspectiva, e a voz de Henri voltou a existir dentro da minha cabeça sem afastar a minha.
Dessa vez não houve morte, casulo ou disputa. Henri cuidava do equilíbrio e da direção, enquanto eu concentrava o ar ao redor da pele. Dash aguardava no solo, ligado aos cientistas por sinais luminosos e placas de medição. Quando tocamos o limite da atmosfera, ele lançou a primeira coluna de vento para marcar o ponto móvel.
Nossa audição alcançava sons que deveriam ter ficado muito abaixo. Ao concentrar a atenção, eu distinguia técnicos conferindo números, soldados afastando pessoas da área de trabalho e vozes repetindo a frase sobre os Reis. A distância não diminuía o esforço exigido para mover matéria suficiente.
Dash corrigia a coluna de acordo com a rotação do planeta e as instruções recebidas. Seguimos o sinal e reunimos gases mais pesados naquela faixa da atmosfera, retirando-os de regiões indicadas pelos cientistas. Formamos uma concentração acima do primeiro ponto, avançamos para o seguinte e repetimos a operação.
O trabalho consumia força sem produzir qualquer mudança que pudéssemos sentir. As colunas precisavam acompanhar o movimento de Finiti, e uma diferença pequena no tempo alterava a posição inteira. Quando terminamos o último ponto, descemos até a estação elevada e esperamos a leitura dos instrumentos.
Os cálculos continuaram mostrando o deslocamento. A distribuição dos gases modificara medidas locais, mas não reduzira a atração que desviava o planeta. Os cientistas apresentaram a alternativa restante: perfurar a crosta, retirar parte do núcleo e lançar a matéria para fora da órbita. Nenhum deles podia garantir que a operação compensaria a força ou que Finiti sobreviveria à retirada.
Henri e eu permanecemos unidos. O corpo compartilhado suportava mais pressão e temperatura do que cada um de nós em separado, porém nem as memórias dele continham experiência de aproximação ao núcleo. Os técnicos marcavam o primeiro ponto de perfuração quando uma abertura surgiu no céu.
Duas pessoas caíram através dela. O portal fechou antes que pudéssemos alcançar a borda, e os corpos atingiram o solo com força suficiente para abrir uma depressão perto da estação. Voamos até o local. Um homem e uma mulher estavam caídos entre pedras quebradas, vestidos por materiais que lembravam peles de animais.
O homem moveu o braço e se levantou antes da mulher. A queda rasgara parte da roupa, mas não deixara ferimento visível. Ele examinou as torres, os dois sóis e o grupo que o cercava.
— Que planeta é este, e sob qual estrela estamos?
— Estamos em Finiti, sob a luz do segundo Sol — respondi. — Diga quem são vocês antes de tentar qualquer movimento.
— Finiti? Então me diga onde está o Rei Falcão.
O nome atravessou Henri e trouxe uma sequência de lembranças do palácio. O homem diante de nós conhecia o reino e falava de Falcão sem o tratamento reservado aos súditos.
— Falcão foi assassinado pelo próprio general — disse Henri pela nossa voz. — Se você veio a pedido de César, chegou ao lugar errado.
— Entramos numa época de traidores em toda parte. — O homem observou nosso rosto e se aproximou um passo. — Você pode ser Henri, mas o menino que conheci cabia nos braços do pai. Essa aparência pertence a uma simbiose?
— Sou Henri, unido a Magno. Formamos uma simbiose entre duas pessoas e continuamos conscientes ao mesmo tempo. Agora responda à pergunta.
— Meu nome é Hagar. Fui rei de Finiti antes do antecessor de seu pai. Conheci você ainda bebê e participei da tentativa que permitiu a Falcão gerar um filho.
As memórias de Henri deram ao nome uma dimensão que eu não possuía. Ajoelhamos junto dos cientistas e soldados. Hagar atravessou o espaço entre nós e gesticulou para que todos se levantassem.
— Guardem a reverência para as leis que protegem seu povo. Poder não transforma ninguém em objeto de adoração. Se alguém consegue defender os demais, respeito e confiança já exigem responsabilidade suficiente.
— Um discurso conveniente para dois antigos deuses que acabaram de ser derrubados num planeta inferior — disse a mulher, enquanto se levantava e retirava pedras da roupa.
— Esta é Nerfate — apresentou Hagar. — Nós dois pertencíamos aos doze do Éden, habitantes de um planeta de nível seis.
Os comentários começaram entre os cientistas. Alguns ajustaram os instrumentos na direção dos recém-chegados; outros repetiram a classificação em voz baixa, conferindo se tinham ouvido corretamente. Nerfate observou os equipamentos sem oferecer explicação.
— A profecia do Prometido se cumpriu diante de nós — continuou Hagar. — O garoto surgiu entre os anciãos, exatamente no lugar descrito pelas escrituras, e acreditamos que traria as respostas procuradas durante tantas vidas. Zeon e uma cúmplice nos traíram. Ficaram com ele e exilaram os outros dez em planetas inferiores.
Hagar falava com convicção, mas eu só conhecia a profecia pelo relato dele. Henri reconhecia fragmentos das antigas escrituras de Finiti, cópias que citavam um salvador sem explicar quem deveria ser salvo.
O solo interrompeu a conversa. Uma vibração profunda atravessou a estação, quebrou duas placas de medição e abriu uma rachadura entre o ponto de impacto e a torre mais próxima. Hagar segurou Nerfate antes que ela perdesse o equilíbrio.
— Essa foi a menor alteração registrada desde que o eixo começou a mudar — expliquei. — Uma força externa está desviando Finiti em relação ao segundo Sol. Tentamos redistribuir gases na atmosfera e fracassamos. A alternativa seguinte seria retirar parte do núcleo.
Hagar pegou uma das folhas de cálculo e acompanhou os números com o dedo. Nerfate recolheu outra página, leu as marcações do Centro e olhou para a rachadura no chão.
— O núcleo contém material radioativo em concentração suficiente para contaminar a atmosfera durante a perfuração — disse Hagar. — Mesmo que consigam retirar a massa calculada, o caminho até a superfície pode destruir aquilo que pretendem salvar.
Ele devolveu a folha aos cientistas e se voltou para Nerfate. A rachadura continuava avançando pelo piso enquanto os instrumentos recalculavam o deslocamento.
— Envie o sinal de localização antes de qualquer outra tentativa. Zeon ficou com o cajado e conhece os exílios que provocou. Se um dos outros oito encontrou meio de se teletransportar ou recuperou o instrumento, poderá localizar nossa marca.
Nerfate apoiou as duas mãos no chão. Linhas claras subiram por seus braços e se reuniram acima da estação, formando um feixe que atravessou a atmosfera. O sinal permaneceu visível durante alguns segundos e se desfez no céu.
Hagar fechou os olhos. Eu observava a tranquilidade com que ele assumia a sala, dava ordens e descartava a única alternativa dos cientistas. Perguntei dentro de nossa cabeça de que forma alguém com aquele poder acabara exilado.
— Fui vencido por alguém que acredita possuir mais força do que realmente tem — respondeu Hagar.
Abri a boca sem saber se ele ouvira a pergunta ou recebera o pensamento. Hagar pediu desculpas pela intromissão e explicou que algumas ondas mentais chegavam até ele mesmo quando tentava bloqueá-las. Nerfate não demonstrou surpresa; os cientistas recuaram um passo.
Ele voltou a fechar os olhos e abriu os braços. O ar da estação diminuiu ao redor de seu corpo, e os instrumentos magnéticos mudaram de direção. Durante alguns minutos, ninguém interrompeu sua concentração. Quando Hagar respirou novamente, precisou apoiar uma mão no ombro de Nerfate.
— A força que desloca Finiti alcança outros corpos desta galáxia e continua além do que consigo monitorar daqui. Destruir Tarkar pode compensar parte da atração por algum tempo. O planeta é pequeno, desabitado e incapaz de sustentar vida. A explosão espalhará matéria na direção oposta ao desvio.
— Esses fragmentos poderão atingir Finiti depois — advertiu a cientista que coordenava os cálculos.
— Poderão. Também posso errar a distribuição e agravar o deslocamento. A alternativa que vocês preparavam oferece risco imediato maior, e o próximo abalo pode encerrar nossa oportunidade de escolher.
Nerfate se posicionou atrás de Hagar e segurou os ombros dele. Ele pediu que ela controlasse a perda de energia durante o ataque. Os dois trocaram um olhar demorado, carregado por uma prática anterior que nenhum de nós conhecia.
Hagar subiu até o limite da atmosfera. Nerfate permaneceu no solo, com os braços erguidos e o feixe de luz preso ao corpo dele. No céu, um ponto escuro começou a se fragmentar. Partes de Tarkar se acenderam, separaram-se e formaram núcleos menores, distribuídos em torno do planeta.
O esforço apareceu primeiro em Nerfate. Os joelhos dela dobraram, o feixe oscilou e a pele perdeu cor. Hagar também baixou os braços por um instante. Nerfate recuperou a posição e transferiu outra descarga. Ele fechou as mãos.
Tarkar explodiu. A luz ocupou uma parte inteira do céu e demorou a diminuir. Os instrumentos do Centro mudaram de leitura em sequência; algumas linhas de cálculo estabilizaram, outras continuaram avançando com velocidade menor. Nenhum resultado garantia que Finiti estivesse salvo.
Hagar desceu sem conseguir controlar o pouso. Nós o sustentamos com o vento, enquanto Nerfate caiu sentada e manteve os olhos fechados. A cientista conferiu as medições mais uma vez e confirmou que o deslocamento diminuíra.
— Missão cumprida por enquanto — disse Hagar, apoiado em nosso ombro. — Agora aproveitaremos o tempo comprado para você me oferecer Anteom. A única bebida deste planeta ainda existe, não existe?