O Pequeno Rei do Vento
Henri corria entre as árvores sem deixar os pés perderem o contato com a terra. Acima dele, correntes de ar atravessavam as copas em direções alternadas, dobravam galhos, abriam a folhagem e voltavam pelo mesmo caminho. Os guerreiros do Vento procuravam por qualquer alteração que denunciasse uma fuga. Ele podia ir mais rápido, flutuar sobre as raízes ou abrir um túnel que o lançaria para longe em poucos segundos, mas cada uma dessas técnicas moveria o ar ao redor de seu corpo. Continuou no escuro, desviando dos troncos e contendo até a respiração quando uma rajada passava perto.
O vento de busca trouxe a voz do pai de volta. Poucos dias antes, os dois estavam na sacada do palácio, diante dos desertos do vento e das Florestas de Ar. O Rei Falcão apoiara as mãos no parapeito e chamara Henri para perto.
— Filho, você sabe qual é a nossa maior fraqueza? Qual é o único ponto em que podem nos ferir? — O pequeno príncipe olhara o céu aberto, as construções suspensas e as correntes que circulavam entre elas. Crescera vendo os guerreiros atravessarem distâncias num piscar de olhos e nunca precisara imaginar nenhum deles acuado.
— Não consigo pensar em uma fraqueza do nosso povo, meu pai — respondeu, seguro demais para perceber o cuidado com que Falcão escolhera a pergunta.
— Essa confiança já é uma delas. Toda habilidade cobra alguma coisa de quem a usa, Henri. Nenhuma força existe sem deixar um ponto exposto, e nada no Universo permanece invencível para sempre. — Falcão passou uma das mãos diante da sacada. O ar se deslocou sem violência, limpou a névoa e ampliou a visão até as faixas claras do deserto e as copas densas da floresta. — Construímos esta paz porque aprendemos a não responder a todo movimento com uma tempestade. Há momentos em que podemos ir longe, mas precisamos diminuir o ritmo e avançar com a suavidade de uma brisa. Poder sem planejamento só nos torna mais fáceis de conduzir.
Henri acompanhara o desenho das correntes no horizonte. O pai não falava de um adversário específico, mas mantinha os olhos na floresta por tempo demais. Quando voltou a encará-lo, a voz perdeu a calma da primeira pergunta.
— Nossas técnicas exigem velocidade, e a velocidade deixa marcas. Os guerreiros mais fortes anunciam a própria chegada pelo movimento que causam no ar. Se um dia você precisar se esconder, se a nossa paz terminar e eu não puder protegê-lo, não tente vencer o vento. Deixe que ele passe. Quem estiver procurando uma rajada não saberá encontrar o rapaz parado.
Agora o pai estava morto. Henri vira César, o General-Maior, assassiná-lo dentro do palácio. Ainda custava aceitar a traição, mas não havia tempo para procurar outra explicação. A ama o arrastara por corredores laterais, empurrara-o para uma câmara de lançamento e acionara a rajada que o arremessara além das muralhas. Pessoas que ainda serviam ao Rei tinham distraído os perseguidores durante a fuga. Algumas deviam estar presas no palácio; Henri não sabia quantas continuavam vivas.
Pensar na ama produziu uma vontade imediata de voltar. Henri diminuiu o passo, apoiou a mão num tronco e tentou ouvir alguma coisa além das correntes que varriam as árvores. Se retornasse usando o vento, seria capturado antes de alcançar a muralha. Se permanecesse escondido, não saberia o que acontecera com quem o ajudou. Sua mãe continuava nos círculos estelares das águas, distante demais para receber a notícia naquela noite. O único adulto em quem ainda conseguia pensar era o velho ancião da floresta.
Henri retomou a marcha entre as raízes. A cabana devia estar perto, embora ele nunca a tivesse visitado e ninguém no palácio soubesse explicar sua localização. Evitou os trechos abertos, passou por baixo de galhos baixos e manteve os braços junto ao corpo para não tocar na folhagem. A equipe de busca continuava acima e ao redor dele; as rajadas chegavam em intervalos menores.
Uma corrente desceu entre as árvores e o atingiu de lado. Folhas, poeira e ramos secos foram arrancados do chão, expondo o caminho que Henri percorrera. A força o empurrou contra um tronco e começou a levantar seus pés. Se fosse carregado, os soldados veriam seu corpo no corredor aberto pela rajada. Ele fincou os calcanhares na terra, dobrou os joelhos e iniciou os movimentos de oclusão que treinara com o pai: uma mão criou pressão contrária no centro da corrente; a outra acompanhou o sentido do vento com força equivalente, impedindo que o choque abrisse um novo túnel ao redor dele.
Os braços começaram a tremer. Henri sentiu a sola dos pés deslizar, recuperou apoio entre duas raízes e sustentou a técnica enquanto a corrente remexia a mata. Não tentou afastá-la nem devolvê-la ao guerreiro. Permaneceu no centro, deixando o vento seguir pelas laterais de seu corpo, até a pressão diminuir. No alto, uma sombra cruzou o espaço aberto e continuou adiante. Nenhum soldado esperava encontrar no chão um jovem capaz de suportar aquela rajada sem ser lançado contra as árvores.
Uma ave desceu entre as copas no instante em que a corrente cessou. Era maior que um falcão, com penas claras que devolviam a pouca luz da floresta. Voou rente ao chão, levantou folhas longe de Henri e tornou a subir. As patrulhas mudaram de direção atrás dela.
Quando o ar enfim cessou, Henri caiu de joelhos. A oclusão consumira quase toda a sua energia, e as mãos demoraram a obedecer quando ele tentou se levantar. As correntes de busca se afastaram, mas passos surgiram entre as folhas, lentos e próximos. Henri pensou que um dos guerreiros tivesse decidido procurar no solo depois de perder o rastro. Encostou-se ao tronco, esperou a sombra passar por um galho baixo e reuniu o pouco de força que ainda tinha. Assim que o vulto entrou ao alcance, disparou um soco.
O golpe acertou o nariz de um velho. Ele recuou, subiu num galho com a agilidade de um macaco e passou a saltar entre os ramos enquanto apertava o rosto para conter o gemido. Não gritava porque as patrulhas ainda estavam perto, mas cada movimento de sua boca compunha uma maldição diferente.
— Moleque! Você quase quebrou meu nariz, seu fedelho! E eu aqui tentando ajudar! — O velho desceu do galho ainda curvado, esfregando o nariz com força suficiente para prolongar o efeito do soco.
— Senhor Ancião, me desculpe. Eu não podia imaginar que fosse o senhor. Pensei que um dos soldados tivesse descido para me procurar — respondeu Henri, baixando os punhos, embora ainda precisasse se apoiar na árvore para permanecer de pé.
— Tudo bem, tudo bem. Minha cabana está perto. Vamos sair daqui antes que você resolva quebrar outra parte de mim. — O ancião segurou Henri pelo braço e o conduziu entre árvores que o jovem não distinguia das anteriores. Caminharam apenas alguns metros até o velho parar diante de um buraco estreito aberto junto às raízes.
— É ali! — anunciou, apontando para a abertura. Henri esperou que alguma parede, porta ou construção se revelasse, mas continuou vendo terra úmida e escuridão.
— Só estou vendo um buraco. Não há cabana nenhuma aqui — disse Henri, examinando a borda, as raízes e a escuridão sem se aproximar.
— Os jovens nunca aprendem que as coisas nem sempre mostram de imediato o que são. — O ancião lamentou a falta de imaginação de Henri e, antes que ele recuasse, empurrou-o pelas costas.
O buraco puxou Henri para baixo. Ele tentou agarrar as laterais, mas os dedos encontraram apenas ar e a queda continuou por um poço estreito, sem luz ou indicação de fundo. Não possuía energia para voar. Quando já esperava o impacto, uma rajada surgiu de baixo, reduziu sua velocidade e o colocou em pé sobre uma superfície firme. O ancião desceu logo depois, equilibrado pela mesma corrente, sem demonstrar qualquer esforço.
— Acenda! — ordenou o velho. A escuridão cedeu de uma vez e o fundo do poço se abriu numa casa muito maior do que o espaço entre as árvores permitiria. Paredes semelhantes a madeira cercavam uma sala ampla; uma lareira já ardia, poltronas flutuavam diante dela e uma escada subia para cômodos que Henri não conseguia ver.
— Que lugar incrível! — Henri ergueu a cabeça, procurando o teto e tentando descobrir onde terminava a estrutura escondida sob a floresta.
— Bem-vindo à minha cabana, Pequeno Rei do Vento. — O ancião recebeu-o com meio sorriso, ainda mantendo uma das mãos sobre o nariz. Henri apertou os dedos ao ouvir a palavra rei. Até aquele momento, ainda conseguira pensar em si apenas como filho.