O Mais Forte
Dash atravessava a floresta com o braço ferido preso contra o peito. O sangue já endurecera entre os dedos, mas voltava a escorrer sempre que um galho tocava o corte. Atrás dele, a trilha conduzia ao lago, aos corpos congelados e ao lugar onde os Salvitares haviam erguido as espadas. À frente, depois de mais algumas árvores, começaria o território Corace.
Ele sobrevivera porque abandonou a linha de combate para procurar uma posição de ataque. Quando Hantake e os demais perseguiram o guerreiro das fadas, Dash contornou a mata sozinho, convencido de que encontraria o inimigo pelas costas. A decisão que deveria garantir a vitória o deixara fora do alcance do feitiço e das lâminas que vieram depois. Nenhuma marca no corpo distinguia estratégia de fuga.
Após recuperar a consciência, ele voltou ao lago. Encontrou as cabeças separadas dos corpos, o gelo quebrado pelas botas dos vencedores e um sulco estreito que seguia para dentro da floresta. Perseguiu o rastro até uma cabana. A porta estava aberta, não existia saída nos fundos e o chão de terra conservava as últimas pegadas. O guerreiro entrara ali e desaparecera.
Dash chegou a apoiar a espada sob o próprio queixo. Morrer escondido entre árvores pouparia seu povo de ouvir a derrota, porém a lâmina em suas mãos pertencia ao exército e aquela morte não cumpriria a lei. Guardou a arma. Caberia à comunidade ouvir sua confissão e decidir o ritual de penitência.
O caminho de volta alimentou tudo que ele tentara conter durante a guerra. Pensou nos gigantes que expulsaram sua família, nas fadas que chamavam os Coraces de bandidos e nos elfos que erguiam templos para um criador incapaz de impedir qualquer massacre. Se tivesse força suficiente, mataria reis, rainhas e o próprio Deus dos elfos. Já enterrara os pais, os irmãos e a mulher que amava enquanto outros povos discutiam a culpa dos Coraces.
Sua fé pertencia a uma divindade que deixava pegadas. A Deusa Corace surgia nas aldeias quando podia, tratava feridos, trazia mantimentos e partia antes que alguém pudesse retê-la. Dash sabia que ela possuía carne, voz e limites; ainda assim, nenhuma entidade invisível fizera por seu povo metade do que aquela mulher realizava durante uma visita. Pensar nela não lhe trouxe consolo. O ritual continuava à espera.
Os guardas o reconheceram entre as últimas árvores. Um deles abriu o portão; o outro levou a mão ao sinal de emergência e hesitou ao perceber que nenhum batalhão vinha atrás dele. Dash confirmou com a cabeça. O toque metálico atravessou a comunidade, e portas começaram a se abrir antes que ele alcançasse a Praça Central.
As famílias ocuparam o contorno da praça. A esposa de Pec trouxe a filha pela mão; o pai de Borc ficou próximo ao caminho que levava ao portão e insistiu em olhar para a passagem vazia. Dash permaneceu no centro, com a arma depositada no chão e o ferimento exposto. Ninguém perguntou pelos soldados. Todos continuaram olhando para o portão aberto.
Quadric avançou entre a multidão. Os cabelos grisalhos caíam sobre os ombros largos, e a idade aparecia nas marcas do rosto sem reduzir o tamanho do chefe Corace. Ele parou diante de Dash, examinou a espada no chão e depois o sangue seco em seu braço.
— Dash, é você mesmo que voltou sozinho pelo portão?
— Sou eu, chefe. Peço autorização para contar o que aconteceu e me apresentar à penitência prevista por nossa lei.
O choro começou entre as pessoas antes da resposta de Quadric. A filha de Pec se agarrou à cintura da mãe; o pai de Borc baixou os olhos pela primeira vez desde que o alarme soara. Quadric aguardou até que a praça conseguisse ouvir novamente.
— Você tem permissão. Conte tudo o que viu e não esconda a razão de estar vivo.
— Lutávamos contra os Salvitares e avançávamos sobre eles quando o General Hantake encontrou um guerreiro de nível três. O homem era pequeno perto de qualquer Corace, mas sustentou o confronto sozinho. Hantake o reconheceu e disse que já havia matado pessoas da família dele. Continuou atacando mesmo depois que os golpes dos dois obrigaram os outros guerreiros a recuar.
Dash olhou para a família de Pec e precisou limpar a boca antes de prosseguir. O gosto de ferro vinha do lábio mordido durante o caminho, embora ele só o percebesse agora.
— O guerreiro fugiu. Hantake entendeu que ele estava vencido e ordenou a perseguição. Chamei Pec e Borc para contornarmos a floresta, mas eles seguiram o general. Todos queriam assistir ao fim da luta. Eu fui sozinho porque acreditava que poderia alcançar o outro lado do lago antes deles.
— A tropa inteira abandonou a formação para acompanhar Hantake? — perguntou Quadric.
— Todos que ainda podiam lutar. Quando o guerreiro chegou ao riacho, parou sobre uma passagem de pedra e esperou. Hantake terminou o feitiço de congelamento. O homem levantou a água diante do corpo, dividida em placas, e o feitiço voltou por elas. Cada reflexo atingiu uma parte da tropa. Quando contornei a margem, nossos guerreiros já estavam presos dentro do próprio ataque.
O pai de Borc levantou o rosto. Dash sustentou o olhar dele e continuou, mesmo depois de ouvir alguém pedir que parasse.
— Os Salvitares que ainda lutavam chegaram ao lago. O guerreiro chamou todos para perto e ordenou a execução. Eles cortaram as cabeças dos nossos soldados enquanto o gelo mantinha os corpos em pé. Eu saltei da mata para atacar, mas uma onça branca atingiu meu braço antes que eu alcançasse o primeiro deles.
Vozes explodiram ao redor da praça. Alguns o chamaram de mentiroso; outros exigiram que mostrasse a mordida. Dash afastou a mão do peito e deixou o sangue correr pelo antebraço. As perfurações se distribuíam acima do cotovelo, largas demais para uma arma e fundas demais para uma queda.
— Silêncio — ordenou Quadric. — Ele voltou para receber a morte. Deixem que termine antes de julgarem a história.
— A onça me arrastou para a parte fechada da floresta. Perdi sangue e desmaiei. Quando acordei, ela tinha desaparecido. Voltei ao lago, encontrei o rastro do guerreiro e o segui até uma cabana vazia. As pegadas terminavam dentro dela. Procurei até o anoitecer e não encontrei passagem, corpo ou sinal de magia. Retornei para entregar minha vida porque sobrevivi sem vingar os mortos e sem trazer nenhum deles para casa.
Quadric caminhou até a espada que Dash deixara no chão. Pegou-a pela bainha e a entregou ao guarda mais próximo, encerrando qualquer possibilidade de o sobrevivente voltar a carregá-la.
— Acredito no seu relato. Um covarde teria fugido para além das nossas fronteiras, e você entrou desarmado na praça sabendo qual seria a decisão. A lei não permite que um guerreiro retorne sozinho depois de abandonar a formação, mesmo quando sua escolha o preserva de uma derrota inevitável. Você morrerá pela penitência, mas ninguém pronunciará seu nome como o de um covarde. Sua volta deu às famílias a verdade que lhes devíamos.
Dash inclinou a cabeça. Esperara desprezo, pedras ou a ordem imediata de execução; receber respeito tornou mais difícil manter os joelhos firmes. Quadric não ofereceu última refeição nem despedida. O ritual proibia os dois, e já não restava familiar que pudesse abraçá-lo. Seus pais, irmãos e a mulher com quem planejara viver ocupavam sepulturas abertas em guerras diferentes.
Os guardas vendaram seus olhos e conduziram-no até o centro marcado da praça. A imobilização de Quadric começou pelos tornozelos, subiu pelas pernas e prendeu seus braços junto ao corpo. Em seguida veio a anestesia. O ferimento parou de arder, os pés perderam contato com o chão e o ruído da multidão se afastou, embora Dash continuasse consciente.
Ele reconheceu a Century quando a espada deixou a bainha. O metal produzia um som agudo que toda criança Corace aprendia antes de conhecer as palavras da lei. Quadric se posicionou do outro lado da praça, pronunciou o nome do condenado e arremessou a lâmina contra seu coração.
Algo se moveu sob a pele de Dash. Pelos brancos atravessaram seu peito e se expandiram até formarem a cabeça e as patas dianteiras da onça. O animal saiu do corpo no caminho da Century. A ponta rompeu o peito dela, continuou avançando e entrou no coração de Dash. Um relâmpago atingiu a espada no instante do impacto.
A praça desapareceu dentro da explosão. A energia lançou Quadric contra a multidão, derrubou guardas e abriu uma depressão no solo. Dash morreu sem sentir a queda. A onça permaneceu atravessada junto dele até que a luz consumisse os dois corpos.
Quando abriu os olhos, o vento arrancava lágrimas de suas pálpebras. Dash caía de costas, distante de qualquer chão conhecido, com nuvens acima e abaixo do corpo. Tentou mover as pernas e encontrou músculos que obedeciam com outra amplitude. Uma camada branca cobria seus braços, o peito e parte do rosto, formada pela pele viva da onça que saíra de seu corpo na praça.
Uma lembrança atravessou sua cabeça: patas afundando na lama, o cheiro de sangue perto do lago e o próprio corpo Corace visto entre folhas. O nome veio junto da imagem. Terna. Dash conhecia a onça sem nunca ter ouvido alguém chamá-la. Sentiu nela a mesma queda, o coração perfurado e um impulso para abrir as pernas e procurar equilíbrio. A lembrança pertencia a Terna; o movimento passou a pertencer aos dois.
O solo crescia depressa. Dash virou o peito para baixo e espalmou as mãos contra o vazio. O ar se comprimiu sob seus braços, atingiu as copas das árvores e voltou em uma corrente que reduziu a queda. Ele não sabia manipular vento antes da execução. Terna também não carregava lembrança daquela técnica.
Uma fortaleza surgiu além da floresta. Torres brancas recebiam ataques de centenas de guerreiros distribuídos no céu, e bolas de fogo cruzavam a distância entre eles. Uma das chamas mudou de direção e veio contra Dash. Ele ergueu os braços para proteger o rosto. A corrente ao redor de suas mãos atravessou a bola, separou o fogo do ar que o sustentava e extinguiu o ataque.
Dash caiu sobre a plataforma de uma torre. As pernas dobraram até quase encostarem no piso, mas o vento conteve o impacto antes que seus joelhos se partissem. Soldados próximos vestiam o uniforme de um povo desconhecido e tentavam repelir as chamas com rajadas fracas. Eles recuaram diante da pele branca que cobria o recém-chegado; nenhum teve tempo de perguntar quem ele era.
Dezenas de projéteis se reuniram acima da fortaleza. Dash levantou as mãos, acompanhou o deslocamento do ar em torno das chamas e fechou os dedos. A formação se rompeu antes de alcançar as torres. Fragmentos incandescentes caíram sobre os atacantes, obrigando as primeiras fileiras a abandonar posição.
Do outro lado da floresta, um guerreiro pousou na árvore mais alta e lançou fogo sobre a copa. As chamas correram de galho em galho na direção das muralhas. Dash puxou o ar, tentou separá-lo do incêndio e sentiu a corrente escapar pelas laterais. O fogo continuou avançando. Quanto mais força aplicava, mais as brasas se espalhavam pelo chão.
Outro combatente pousou na torre. Tinha um corpo humano, roupa que Dash não reconhecia e duas vozes misturadas na respiração. O desconhecido ergueu uma das mãos, concentrou-se no incêndio e estalou os dedos. Todas as chamas se apagaram juntas, deixando apenas fumaça sobre a mata.
O desconhecido apagara o incêndio com um estalar de dedos. Dash fechou as mãos, irritado por ter falhado depois de morrer, voltar unido a Terna e destruir sozinho o ataque sobre a fortaleza. Antes que o outro combatente se afastasse, ele cruzou a torre e tocou seu ombro.
Uma descarga atravessou sua mão e percorreu a pele branca até o peito. As correntes ao redor da torre ganharam direções que ele nunca havia percebido, e o calor dos ataques passou a responder dentro do mesmo espaço. Dash retirou a mão, abriu e fechou os dedos e testou a corrente. O poder continuava nele. Não sabia o nome daquele homem nem o que o toque fizera. Sabia somente que, mais uma vez, ainda existia alguém mais forte.