Uma Outra Vida Liberdade do Vento · Capítulo 17 de 49
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Uma Outra Vida

Alice despertou com a garganta seca e uma dor que começava atrás dos olhos e descia pelo pescoço. O teto de madeira não pertencia ao abrigo junto à cachoeira. Havia uma janela aberta, uma bacia com água sobre uma mesa e roupas dobradas aos pés da cama. Drevuz estava sentado numa cadeira perto da porta, inclinado para a frente, com as mãos presas uma à outra. Ele se levantou quando ela abriu os olhos, mas parou antes de chegar à cama.

— Eu trouxe você até este vilarejo e uma mulher nos deixou usar a casa. Preciso pedir desculpas antes de qualquer coisa. Quando você gritou, eu parei. Depois seu corpo começou a tremer, você me abraçou e eu decidi que aquilo significava que queria continuar. Eu deveria ter perguntado e, sem resposta, deveria ter parado.

Alice tentou apoiar os braços no colchão. A dor no quadril e nas costas fez com que permanecesse deitada. O corpo ainda carregava a exaustão da cachoeira, porém a confusão dentro da cabeça havia mudado. As imagens já não chegavam em pedaços desconexos. Cada uma possuía lugar, época e pessoas.

— Eu queria você quando o beijei — respondeu Alice. — Queria quando pedi que entrasse na água e durante tudo que veio antes. Depois alguma coisa aconteceu no meu cérebro. Eu perdi a capacidade de falar, de escolher um gesto e até de entender onde estava. Quando o abracei, tentava me segurar porque ia desmaiar. Você não tinha como saber o que eu pensava, mas escolheu uma resposta quando eu já não conseguia dar nenhuma.

— Eu sei. Não vou procurar uma desculpa nisso.

— Não faça outra vez. Se eu não puder responder, pare.

— Eu vou parar sempre que você não puder responder — confirmou Drevuz, sem tentar diminuir o que havia acontecido.

Drevuz voltou a se sentar. Alice alcançou a bacia, molhou os dedos e passou água nos lábios. O movimento trouxe a lembrança da cachoeira quente sob seus pés, do impacto gelado da queda e da boca de Drevuz. Em seguida vieram outras águas, o copo servido dentro de um avião, a chuva vista por uma janela oval e o gosto metálico do medo quando a cabine começou a perder altura.

— Eu me lembro de tudo — disse ela. — Minha primeira morte aconteceu dentro de uma máquina chamada avião. Era minha primeira viagem, e eu estava tão feliz por finalmente conhecer outro lugar que passei metade do trajeto olhando pela janela. Depois vieram o fogo, a queda e pessoas gritando sem ter para onde correr.

Drevuz conhecia histórias sobre máquinas voadoras, mas não interrompeu para perguntar. Alice fechou os olhos e encontrou a vida seguinte inteira. O conhecimento sustentava Finiti, o vento entrava pelas construções e um homem que ela amara governava sem conseguir abandonar por completo o hábito de proteger os outros por meio de segredos.

— Depois eu renasci em Finiti. Fui rainha durante séculos ao lado de Falcão. Nosso povo tinha encerrado guerras antigas e transformado conhecimento em alimento, trabalho e riqueza. Eu queria um filho, embora pessoas renascidas em planetas daquele nível não pudessem gerar crianças. Conhecemos um ser capaz de alterar isso.

Ela se lembrou da conversa em que o risco fora apresentado. Falcão segurara sua mão sob a mesa; nenhum dos dois conseguira abandonar a possibilidade depois de saber que ela existia.

— Ele nos avisou que a gravidez poderia me matar. Aceitei porque queria aquela criança e porque acreditei que uma vida seguinte ainda poderia me levar até ela. Dei ao meu filho o nome de Henri, o nome que eu escolhera na Terra muitos anos antes de saber que teria outra vida. Eu o segurei por alguns segundos. Morri durante o parto.

A dor atrás dos olhos aumentou, mas Alice manteve as pálpebras abertas. Henri tinha o rosto pequeno, os olhos apertados e uma mão que não alcançava fechar ao redor do dedo dela. Depois daquela imagem não existia nada de Finiti. Ela desconhecia a infância do filho, a permanência de Falcão e tudo o que acontecera ao reino.

— Em seu planeta, pessoas de outras vidas conseguem ter filhos? — perguntou Drevuz.

— Não sem uma intervenção que eu ainda não sei explicar. Para você isso é uma lenda?

— É algo contado em histórias sobre mundos distantes. Nunca conheci alguém que tivesse nascido depois do renascimento dos pais. Também nunca conheci uma mulher que se lembrasse de morrer ao dar à luz.

Alice bebeu a água da bacia em goles pequenos. O corpo reagiu à lembrança de Finiti com uma fome diferente, concentrada atrás da testa. Desde que acordara naquele planeta, recebera nomes, perigos, criaturas e lugares novos; ainda assim, agora que compreendia a origem daquela fome, o desejo de ler surgiu com urgência.

— Existem livros aqui? — perguntou Alice, pressionando os dedos contra a testa enquanto a fome aumentava.

— Poucos. O reino preserva registros e algumas histórias, mas o conhecimento costuma ser transmitido por pessoas. Kaled conseguiria reunir o que existe ou pedir que escrevessem para você.

O nome do rei deixou Drevuz rígido na cadeira. Ele servia Kaled, recebera dele a missão de acompanhar Alice e atravessara uma confiança que valorizava. A palavra Prometida circulava pelo reino desde que os Golfens desapareceram ao tocá-la, e Kaled também a escolhera como possível taith.

— Você acha que o traiu — disse Alice. — Mas Kaled me chamou de Prometida e pediu a oportunidade de me conquistar. Eu não prometi meu corpo a ele.

— Ele confiou em mim para proteger você. Eu aceitei sabendo o que sentia e, na primeira vez em que ficamos sozinhos, perdi qualquer distância.

— Eu mandei Saturne procurar folhas e convidei você para a água. Não vou fingir que foi enganado sobre o meu desejo inicial. Isso também não elimina o que aconteceu depois. São duas coisas verdadeiras ao mesmo tempo.

Drevuz passou as mãos pelas pernas e assentiu. Não pediu que ela o perdoasse nem tentou aproximar-se. A cadeira permanecia longe o bastante para que Alice pudesse levantar sem passar por ele.

— A lembrança voltou por causa do que fizemos? — perguntou ele.

— Groguerar tentou recuperar minhas memórias com estímulos no cérebro e conseguiu apenas algumas imagens. Disse que outros estímulos poderiam abrir o restante. Na cachoeira, o desejo trouxe os primeiros fragmentos. Quando alcancei o prazer, senti ao mesmo tempo sensações de outras partes das minhas vidas. Meu corpo recebeu tudo junto e apagou. Você não criou essas lembranças, mas tornou o final pior quando continuou.

— Entendi — respondeu Drevuz, sem procurar absolvição naquela palavra ou avançar para perto da cama.

Alice observou o rosto dele depois da resposta. A atração continuava presente, contrariando a expectativa de que recuperar Falcão, Henri e duas mortes organizaria também o desejo. As lembranças lhe devolviam compromissos e afetos, mas pertenciam a uma mulher que ainda precisava decidir o que faria naquela vida.

— Você está tentando descobrir se ainda quero ficar perto de você — disse ela.

— Estou tentando não transformar cada silêncio seu numa resposta conveniente para mim.

— É um começo melhor. Eu ainda desejo você, mas não sei o que esse desejo significa, não sei onde está minha família e não aceitarei ser tratada como propriedade de Kaled, sua ou de qualquer memória. Vamos esperar.

Drevuz soltou o ar que prendia e apoiou as costas na cadeira. A resposta não oferecia a certeza que ele buscava, mas Alice não precisava produzir uma decisão para aliviar a ansiedade dele.

— Onde está Saturne? — perguntou ela. — Ele saiu para colher folhas e não voltou à cachoeira antes de eu perder a consciência.

— Saturne nos encontrou logo depois que cheguei aqui. Eu disse que você dormia e que permaneceria até acordar. Ele escolheu a casa ao lado porque, segundo ele, se eu não pretendia usar a outra cama, alguém precisava aproveitar todo aquele espaço.

Alice riu e sentiu a dor na cabeça diminuir por alguns segundos. Conseguia imaginar Saturne ocupando uma cama inteira com trinta centímetros de corpo e reclamando da falta de espaço. A presença dele tão perto também retirava do quarto a sensação de isolamento.

— Houve um ataque antes de chegarmos — continuou Drevuz. — A mulher que nos recebeu foi a única pessoa que encontramos no vilarejo. Ela atribuiu o desaparecimento dos outros a alguma força sobrenatural. Quando Saturne acordar, precisamos entender o que aconteceu e decidir se é seguro ficar.

— Depois de eu comer alguma coisa e encontrar um livro. Nesta ordem, se a leitura não resolver também a primeira fome.

— Vou procurar comida e perguntar à mulher sobre os registros do vilarejo. — Drevuz sorriu, levantou-se e apontou para a porta.

— Obrigada. Antes de sair, pode me dar a mão?

Ele permaneceu no lugar até que Alice estendesse o braço. Só então se aproximou e colocou a mão aberta sob a dela. Alice apertou os dedos dele, testando o contato sem sentir que precisava transformá-lo em perdão, promessa ou convite. Quando Drevuz se preparou para soltar, o cansaço voltou a pesar sobre os ombros dela.

— Acho que a comida pode esperar alguns minutos. Quero dormir, mas não quero acordar sozinha outra vez. Se prometer apenas deitar ao meu lado, pode ficar.

— Apenas deitar. Se você dormir, eu não toco em você.

Drevuz contornou a cama e deitou por cima da coberta, deixando espaço entre os dois e virando-se de costas. Alice acompanhou a respiração dele até o corpo relaxar. Depois se aproximou e apoiou o braço sobre sua cintura. Ele não se moveu nem tomou o gesto como autorização para outra coisa.

Alice fechou os olhos. A memória de Falcão continuava inteira, Henri existia em algum ponto do Universo e Drevuz respirava sob seu braço naquela casa desconhecida. Nenhuma dessas presenças decidiu por ela. O sono veio antes que precisasse escolher qual caminho seguir ao despertar.

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