O Reino Vermilion Liberdade do Vento · Capítulo 34 de 49
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O Reino Vermilion

Saímos do conselho com uma lista capaz de ocupar várias semanas. K1 enviara mapas da feira, das rotas de abastecimento e das galerias inferiores, mas pediu que outras pessoas conduzissem cada visita. Ela permaneceria com Kaconforma para conversar com as kinnaras sobre o relato de Indra e a origem das asas.

Na manhã seguinte, encontramos K3 perto da porta principal do palácio. Ela usava roupa curta de voo, trazia duas bolsas presas à cintura e ajoelhou quando nos viu. Dessa vez, o gesto não recebeu nenhuma força externa.

— Bom dia, majestade. K1 explicou que podemos escolher a forma pela qual desejamos receber o rei. Eu escolhi esta.

— Também pode levantar durante a conversa, recusar o trabalho e escolher outra forma amanhã — respondi. — Quero saber se essa decisão continua sua quando ninguém promete recompensa.

K3 ergueu o rosto, mas permaneceu com um joelho no chão. As asas se abriram atrás dela, equilibrando o corpo.

— Minha primeira vida terminou protegendo a terceira geração de uma família real. Na segunda, fui braço direito de outro rei e morri durante a defesa da cidade. Passei a vida seguinte sem função, mudando de lugar cada vez que alguém tentava decidir o que eu deveria desejar. Quando cheguei a Vermilion, escolhi servir ao trono porque conhecia esse trabalho e sentia falta dele.

— O trono também incluía cama, obediência íntima e entrada em quartos sem autorização. Você escolhe essas partes?

— Não. Quero organizar viagens, transmitir pedidos, proteger pessoas e acompanhar decisões. Quero horário de descanso, um aposento que ninguém use sem pedir e o direito de deixar uma tarefa. Posso continuar ajoelhando quando eu desejar?

— Pode. O gesto só não decide o restante por você.

K3 se levantou sem que pedíssemos e entregou uma das bolsas. Dentro estavam placas para anotações, recipientes de água, uma pequena porção de comida e fichas de energia usadas na feira. Ela preparara uma visita de trabalho, não uma exibição da corte.

— Antes de sairmos, quero escolher um nome — disse ela. — Kaconforma contou que posso trocar de novo se este deixar de servir.

— Qual nome você quer usar quando falarmos com você?

— Amor. Nas minhas outras vidas, essa palavra foi usada mais vezes para me chamar com ternura do que qualquer nome que consigo lembrar. Quero ouvi-la sem que signifique posse.

Henri repetiu o nome dentro de nossa consciência. Fenrir acompanhou o cheiro de expectativa, sem encontrar medo. Suzaku reagiu à abertura das asas.

— Então vou chamá-la de Amor enquanto essa continuar sendo sua escolha.

Ela sorriu, aproximou-se um passo e manteve as mãos junto ao próprio corpo, deixando visível que ainda esperava nossa resposta antes de qualquer contato.

— Existe outra escolha que quero separar do serviço. Desejo beijar vocês. Posso?

O pedido chegou a mim e a Henri ao mesmo tempo. Ele queria aceitar. Eu também sentia desejo, mas precisava saber que um beijo não criaria promessa de cama, exclusividade ou vantagem diante das outras kinnaras. Henri concordou com os mesmos limites.

— Nós dois queremos beijá-la — respondi. — Somente um beijo agora. Isso não muda sua função, não promete intimidade futura e será contado a Ilana por mim.

— É exatamente o que pedi. Não quero transformar isso em outra coisa.

Amor tocou nossa nuca depois que assentimos. O beijo começou com cuidado, ganhou firmeza quando a resposta do corpo se tornou clara e terminou por iniciativa dela. Henri acompanhou o movimento sem tomar nossa boca sozinho; eu permaneci presente durante todo o contato. Quando nos afastamos, Amor respirou fundo e ajeitou uma das bolsas.

— Ainda temos uma feira inteira antes que eu pense em pedir outra coisa.

Partimos pela porta principal. Amor saltou do parapeito, abriu as asas e esperou que a alcançássemos. O percurso descia entre torres cobertas por passarelas, jardins presos às paredes e plataformas onde veículos recebiam cargas. Pela primeira vez, evitamos voar acima de tudo. Seguimos as vias usadas por trabalhadores e entregadores.

O céu de Vermilion mudava de cor em faixas lentas. O azul recebia manchas verdes, depois linhas vermelhas que se desfaziam perto do horizonte. Amor explicou que a estrutura criada depois da transferência tentava reproduzir fenômenos do planeta anterior. Os artistas reconheciam falhas na duração, na intensidade e na ordem das cores.

— A corte considera a diferença pequena — disse ela. — Para quem recupera energia criando, a luz muda pigmentos, ritmos e lembranças. Alguns perderam referências que usavam durante séculos.

Pousamos numa estação de abastecimento antes da feira. Blocos minerais chegavam das galerias inferiores em plataformas magnéticas; tecidos, tintas e alimentos seguiam para bairros suspensos. Trabalhadores registravam cada carga em painéis públicos, mas uma das rotas permanecia interrompida desde a chegada das duas cidades transferidas.

Uma mulher responsável pela estação mostrou depósitos cheios de pigmento escuro e prateleiras vazias onde deveriam estar minerais luminosos. A integração com Finiti deslocara veículos para o transporte de alimento, reduzindo materiais de arte nos bairros mais distantes.

— Quem decidiu a prioridade? Quero conhecer o registro dessa escolha.

— A administração do palácio enviou a ordem quando as cidades chegaram. Evitamos falta de comida, mas ninguém marcou uma data para restaurar as outras rotas.

Henri pediu o registro original e encontrou a assinatura de um conselho antigo, mantida automaticamente depois do desaparecimento dos reis. A ordem sequer passara por uma pessoa viva nos últimos meses.

— A comida continua prioritária — falei. — Quero que trabalhadores das rotas, agricultores e artistas proponham juntos a retomada. Não vou definir daqui quantos veículos cada bairro recebe.

Amor anotou os nomes indicados pela responsável. A primeira tarefa do dia já mostrava que conhecer o reino exigiria mais do que admirar sua aparência.

A feira ocupava uma praça suspensa que mudava de forma. Corredores giravam em três eixos, subiam, desciam e reposicionavam visitantes diante de novas seções. Quem permanecia conversando com um artista continuava apoiado na mesma plataforma; sensores percebiam o fim do interesse e ofereciam outro caminho.

Rampas fixas contornavam a estrutura móvel para pessoas que recusavam o deslocamento automático. Amor explicou que elas foram acrescentadas depois que moradores de um distrito subterrâneo denunciaram náusea e perda de equilíbrio. A mudança levara décadas porque a administração considerava a feira acessível a quem conseguia voar.

Entramos pela rampa. A primeira seção exibia uma pintura construída em camadas transparentes. De frente, mostrava um casal caminhando sob a chuva, protegido por uma cobertura quadrada. Ao mudar o ângulo, a rua adquiria profundidade, fachadas surgiam atrás dos corpos e gotas atravessavam planos diferentes.

As bordas das camadas ultrapassavam a moldura em alturas calculadas. Vistas por um dos lados, formavam um losango e revelavam uma segunda organização da cena. Um gato passava pelo vão de um telhado. Uma pessoa escondia algo atrás de um poste. Entre dezenas de janelas intactas, uma única permanecia quebrada.

O casal sorria quando observado pela frente. Por trás, a distância entre os ombros, a posição dos braços e a inclinação da cobertura revelavam uma discussão. A água atravessava os planos em velocidades diferentes, dando movimento à chuva quando o visitante andava.

— Quanto tempo exigiu este trabalho? — perguntei a Amor.

— Uma semana — respondeu o artista atrás de nós. — E três meses procurando material suficiente para todas as camadas.

Ele trabalhava numa peça menor e só reconheceu nosso rosto quando a plataforma girou. Largou o pincel, levantou-se depressa e derrubou um recipiente de tinta.

— Majestade? Eu não sabia que o rei viria à feira. Pode levar a obra para o castelo. Seria uma honra.

— Quero saber seu nome, o preço e o que faltou durante esses três meses. A obra não muda de dono apenas porque eu cheguei.

O artista se chamava Orlin. Parte do material vinha da rota interrompida que acabávamos de visitar. Ele sobrevivera vendendo desenhos rápidos enquanto esperava pelas placas transparentes, mas artistas sem reserva haviam abandonado projetos ou se mudado para perto dos depósitos.

Orlin indicou um preço. Amor conferiu as fichas da bolsa e explicou que a verba destinada à visita podia cobrir a compra sem interferir na alimentação do palácio. Adquirimos a obra para exposição pública no salão principal, com o nome do artista, o valor pago e a história das rotas registrada ao lado.

— Posso terminar o quadro menor diante do rei? A atividade recupera minha energia, e estou perto do limite.

Orlin retomou o pincel. Um medidor preso ao pulso subiu enquanto ele misturava cores e acrescentava uma figura no fundo da cena. A atividade cerebral ligada à criação convertia-se em energia que o corpo armazenava. O processo dependia de envolvimento real; repetir mecanicamente uma imagem produzia quase nada.

— Pessoas sem acesso a material conseguem recuperar energia de outra forma? — perguntou Henri por nossa voz.

— Conseguem por música, dança, narrativa, invenção ou contemplação ativa. O problema começa quando o trabalho diário consome o tempo e a pessoa precisa comprar energia produzida por outra.

Orlin apontou para fichas semelhantes às que Amor carregava. Oficinas e artistas vendiam excedentes; bairros com jornadas mais longas compravam mais e criavam menos. A economia transformara criatividade em sustento e, em alguns lugares, em dívida.

Registramos o nome de duas cooperativas e seguimos pela feira. Encontramos instrumentos que mudavam o som conforme a pressão dos dedos, tecidos que conservavam movimentos do corpo e relógios capazes de comparar a passagem do tempo em cinco lugares do universo. Para relacionar os ritmos, o visitante girava um aro grande e via os ponteiros se reorganizarem.

Cada obra trazia uma história, mas também material, jornada e rota. Henri perguntava quem produzia as peças; eu perguntava quem podia comprá-las; Amor perguntava quem deixara de frequentar a feira. As respostas conduziram aos mesmos bairros inferiores e às interrupções antigas que o palácio mantinha por repetição.

A notícia de nossa presença atravessou as seções. Plataformas começaram a deslocar visitantes em nossa direção, congestionando o mecanismo. Pedimos que os organizadores interrompessem a aproximação automática e anunciamos uma roda aberta na parte fixa da praça.

Sentamos no chão durante duas horas. Artistas falaram do céu alterado, trabalhadores das galerias reclamaram que seus nomes raramente acompanhavam os materiais expostos, comerciantes defenderam as fichas de energia e moradores pediram formas de troca que não criassem dívida durante doença ou exaustão. Nenhuma resposta cabia numa ordem entregue por um rei ao fim da tarde.

Criamos um calendário de reuniões conduzidas por representantes escolhidos ali. A primeira trataria das rotas, a segunda das fichas de energia e a terceira do acesso às seções móveis. Dash receberia as atas sem presidir. Ilana participaria das visitas às galerias se os trabalhadores concordassem.

Saímos quando as faixas vermelhas do céu já alcançavam as torres. Amor carregava as anotações; eu levava o relógio de cinco tempos, comprado de uma cooperativa; Henri conservava os relatos das pessoas que passaram a vida sob regras que nenhum governante revisava.

— Meu dia foi diferente de tudo que imaginei — disse Amor durante o voo de volta. — Servi ao rei sem desaparecer dentro da tarefa.

— Você também contrariou duas ideias minhas e escolheu metade do percurso. É um começo melhor do que obediência.

Pousamos no palácio. Antes de procurar Ilana, pedi que Amor nos acompanhasse até a sala do jardim e esperei que ela aceitasse.

— Vou contar sobre o beijo. Você não precisa explicar minha escolha nem pedir aprovação por mim. Quero apenas que participe se desejar.

— Quero estar presente. Também quero conhecer Ilana fora das histórias do palácio.

Ilana não estava no quarto nem na sala do jardim. Kaconforma informou que ela e K1 tinham seguido para uma câmara de rosas depois da conversa com as kinnaras. Amor conhecia o lugar, mas parou diante do corredor que levava até lá.

— A câmara possui flores que estimulam circulação e sensibilidade. Antigamente diziam que ninguém resistia ao perfume. Hoje existe um aviso, ventilação e um vestíbulo que neutraliza o efeito antes da entrada. Podemos chamá-las daqui.

Uma placa na parede descrevia a intensidade da fragrância e proibia conduzir qualquer pessoa inconsciente, coagida ou incapaz de sair. Acionamos a ventilação máxima e esperamos no vestíbulo até que o indicador mostrasse ar neutro.

Chamei Ilana pela porta. Ela respondeu de dentro e perguntou quem nos acompanhava. Informei que Amor estava conosco e que precisávamos conversar antes de entrar.

Ilana surgiu vestida com uma túnica leve, seguida por K1. As duas traziam os cabelos úmidos e mantinham as mãos unidas. K1 olhou para Amor, depois para nosso corpo, sem assumir postura de serviço.

— Amor foi nossa guia hoje — comecei. — Ela escolheu esse nome e pediu para nos beijar. Henri e eu concordamos com um beijo, sem promessa de outra intimidade. Eu quis contar pessoalmente.

Ilana voltou-se para Amor e esperou que ela sustentasse o olhar antes de formular a pergunta que realmente importava naquela conversa.

— Você queria o beijo ou achou que deveria oferecê-lo ao rei?

— Eu queria. Também fui a pessoa que encerrou. Servir continua separado disso.

— Ótimo. Magno, nunca combinamos exclusividade. Combinamos que ninguém usaria silêncio para esconder risco, limite ou mudança. Obrigada por contar.

Henri pediu para falar por nossa boca e explicou que participara do beijo com a mesma clareza que Magno. Ilana tocou nosso rosto, reconhecendo os dois na resposta.

K1 informou que ela e Ilana tinham entrado na câmara depois de ler o aviso, reduzir a fragrância e conversar sobre desejo fora do serviço. A ventilação estava desligada apenas durante uma experiência curta e fora reativada antes que chamássemos.

— Eu quero continuar com Ilana — disse K1. — Também sinto desejo por vocês e por Amor, mas não entrarei em nada que me trate como K1 a serviço do rei.

— Quero continuar com K1 e quero vocês — respondeu Ilana. — Amor precisa escolher sem transformar a visita em obrigação.

Amor abriu as asas, fechou-as novamente e permaneceu no vestíbulo neutro, mantendo distância da porta até concluir a própria resposta.

— Quero entrar, beijar Ilana e K1 se elas aceitarem e continuar com vocês. Se eu mudar de ideia, saio por esta porta. Quero a fragrância desligada.

— Eu aceito — disse K1. — E quero que você use meu nome atual.

— Eu também aceito — respondeu Ilana. — Sem perfume e sem pressa.

Henri e eu concordamos separadamente. Mantivemos a ventilação máxima, conferimos o indicador e entramos apenas quando todos repetiram que o ar estava neutro.

A câmara tinha um deque baixo coberto por material macio e flores isoladas atrás de paredes transparentes. Ilana tomou a iniciativa do primeiro beijo com Amor. K1 esperou ser chamada e perguntou antes de tocar suas asas. Nós nos aproximamos depois que as três abriram espaço.

Roupas foram retiradas pelas próprias mãos. Cada mudança recebeu pergunta, resposta ou gesto já combinado; qualquer hesitação interrompia o movimento. A intimidade cresceu entre beijos, mãos e corpos próximos, sem que a coroa, o serviço ou o perfume decidissem por alguém.

Mais tarde, deitados no deque, Amor confirmou que continuava querendo ser guia na visita seguinte. K1 pediu uma manhã livre depois da conversa e da câmara. Ilana abriu a lista de regiões mesmo sem levantar e marcou Finiti, a cidade dos lobos e os quartéis.

O primeiro dia fora do palácio nos dera uma obra, um relógio, três reuniões públicas e problemas que o castelo conservara por inércia. Também nos dera uma intimidade que precisou ser escolhida várias vezes para continuar existindo. No dia seguinte, a investigação alcançaria outras partes do reino.

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