Vampiros e Dragões Liberdade do Vento · Capítulo 41 de 49
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Vampiros e Dragões

A travessia pela adaga terminou sobre um terreno úmido, escuro, atravessado por raízes grossas e marcas de unhas profundas. A noite azulada que eu vira pela fenda se abriu inteira, cheia de asas, gritos e movimentos rápidos demais para serem contados. Durante um instante, o ar respirou com dificuldade, pressionado por um campo invisível que puxava corpos para baixo e mantinha uma massa de lobos presos num círculo de terra rompida.

Centenas deles lutavam contra a contenção. Alguns ainda carregavam o mesmo tipo de roupa que usavam na cidade dos lobos; outros tinham perdido quase tudo menos a fome, a força e o rosto deformado pela transformação. Do lado de fora do círculo, vampiros em forma humana e criaturas aladas de escamas escuras mantinham distância, esperando uma ordem que podia virar execução em poucos segundos.

— Esperem! — gritei, erguendo as duas mãos antes que os Guardiões de Paole avançassem por reflexo.

Uma mulher desceu de uma estrutura de pedra partida, acompanhada por homens e mulheres que abriram espaço sem tirar os olhos da nossa comitiva. Ela tinha sangue no braço, postura de rainha e uma calma fabricada no meio da exaustão. Lúcifer estava perto dela, com o corpo ainda marcado por combate recente e um olhar que passou por mim sem me reconhecer de imediato.

— Quem está aí? — a mulher perguntou. — Apresente-se antes que eu trate essa chegada como reforço da ameaça.

— Meu nome é Magno. Sou rei de um povo transferido para este sistema e divido o corpo com Henri, que alguns aqui conhecem. Esses lobos vieram da nossa cidade, morreram numa tentativa errada de contenção e renasceram aqui sem consciência. Trouxe pessoas capazes de ajudar a estabilizá-los e levá-los de volta.

— Aprisioná-los foi a única forma de nos salvarmos — ela respondeu, apontando para o círculo. — Eles renasciam no mesmo quadrante depois de mortos, atacavam de novo e puxavam mais vampiros para dentro do campo. Se soltarmos um grupo desses por boa vontade e estivermos errados, meu povo paga com sangue.

Henri segurou a minha vontade de responder depressa. A mulher não falava de teoria, e o chão em volta dela provava isso. Havia marcas de fogo, buracos abertos, lâminas quebradas e vampiros feridos recebendo bolsas de sangue de outros que mal se mantinham em pé. Nós tínhamos vindo buscar os nossos, mas eles tinham sobrevivido a eles antes da nossa chegada.

— Acredito no risco — respondi. — A infecção nasceu do contato entre o sangue dos Guardiões e os corpos das lobas transformadas. Elaryan nos informou que, se eles retirarem sangue suficiente de vampiros, recuperam a sanidade. Eu sei que isso é uma proposta absurda para se fazer a quem acabou de ser atacado, mas é a única forma de não transformarmos a morte deles em repetição.

— E o que garante que você não quer apenas soltá-los contra nós? — ela perguntou, olhando para Paole, os Guardiões e os lobos estabilizados da nossa comitiva. — Você chega com vampiros, lobisomens controlados, curandeiros e uma arma de passagem. De onde estou, isso não tem a aparência de uma equipe médica.

Eu olhei para Brinshen, Salia, Nazerith e a representante das gatas que aceitara atravessar para reconhecer nomes. Nenhum deles carregava a tranquilidade de uma delegação diplomática. Também não carregavam culpa pequena o bastante para ser invisível.

— Se eu quisesse dominar vocês, teria usado a confusão antes de falar — respondi, e percebi pela expressão de Henri dentro de mim que a frase tinha saído perto demais de ameaça. — Isso não ajuda. Vou tentar de outro jeito. Tenho gente demais para proteger do outro lado do portal, anjos no horizonte e uma cidade dos lobos em pânico. Não vim ganhar território. Vim impedir que um erro nosso continue mordendo o seu povo.

A mulher me estudou por tempo suficiente para que os lobos presos voltassem a se bater contra o campo. Lúcifer deu um passo para o lado dela e falou baixo, mas ouvi o bastante para entender a pergunta dele: por que impedir, se a cura podia encerrar aquilo? Ela não respondeu de imediato.

— Não sei se você sabe — ela disse, voltando a voz para mim —, mas nossos vampiros se transformam em dragões.

O corpo dela cresceu num movimento brutal. Ossos, escamas, asas e uma cauda longa ocuparam o espaço onde antes havia uma mulher coberta de sangue. O dragão azul abriu as asas, com marcas esverdeadas no rosto, no peito e nas membranas, e o campo inteiro se calou por um segundo, inclusive parte dos lobos que ainda tinham consciência suficiente para reconhecer perigo.

— Então os nossos lobos não deveriam ser um problema definitivo para vocês — respondi, mantendo as mãos erguidas, porque qualquer gesto errado naquele momento podia virar guerra.

Ela voltou à forma humana com menos teatralidade do que usara para se transformar. O cansaço apareceu de novo quando os pés tocaram o chão.

— Tornaram-se problema quando morreram e continuaram renascendo aqui, atacando sem parar. O que vocês chamam de seus voltou para nós como cerco. Eu não posso entregar esse cerco porque alguém atravessou um portal dizendo que tem resposta.

Paole se inclinou ao meu lado, com as presas recolhidas e a voz baixa o bastante para não transformar conselho em afronta diante de Carmilla.

— Majestade, ela tem razão em desconfiar. Se a situação fosse invertida, eu também não abriria a contenção.

— Eu sei — respondi a ele, sem tirar os olhos dela. — Por isso estamos pedindo avaliação, não rendição.

A mulher conversou de lado com Lúcifer. Ele franzia a testa, olhando para mim de um jeito que buscava outro rosto por baixo do meu. Henri se moveu dentro do corpo compartilhado, tomou a garganta por alguns segundos e deixou a voz sair com uma camada mais antiga do que a minha.

— Lúcifer, sou eu — disse Henri, e minha boca sentiu a diferença da voz dele tomando lugar na frase.

Ele ergueu a cabeça de uma vez, enquanto a lembrança de outro campo de batalha atravessava o rosto dele antes de alcançar o nome certo.

— Henri? — A palavra veio alta o bastante para alguns vampiros levantarem armas. — É você?

— Sou. Magno e eu dividimos este corpo. Eu explicaria melhor se estivéssemos num lugar menos empenhado em nos matar.

Lúcifer riu sem humor e limpou sangue do canto da boca, sem tirar os olhos do corpo que reconhecia pela voz e estranhava pela forma.

— Bem, isso combina com a sua vida melhor do que deveria. Você aparece depois de morrer, com outro rei dentro do peito e uma praga de lobos atrás. Fico feliz de ver você, de verdade, mas a entrada foi péssima.

— A saída também pode ser — respondeu Henri. — Por isso precisamos de alguém que entenda portais, mortes e acordos impossíveis.

A mulher acompanhou o reconhecimento sem relaxar. Aquela prova emocional servia para Lúcifer, não para ela. Depois de mais um impacto dos lobos contra o campo, ela decidiu.

— Prefiro chamar uma pessoa para avaliar essa história antes de soltar qualquer um deles. O nome dele é Athos. Posso enviar um sinal para que venha por teletransporte.

O nome atravessou a nossa comitiva com uma reação física. Nazerith registrou o pedido, Paole levantou o rosto, e Henri sentiu uma esperança tão rápida que quase doeu. Athos carregava planos que eu nem sempre entendia, mas também tinha o hábito irritante de chegar quando os caminhos ruins já estavam escolhidos.

— Vocês conhecem Athos? — perguntei. — E você é Carmilla?

— Sou — ela respondeu. — Se sabe meu nome, sabe por que não gosto de surpresas.

— Sei o suficiente para aceitar o sinal. Chame Athos, então. Quanto menos tempo esses lobos ficarem presos desse jeito, maior a chance de ainda reconhecermos alguém ali dentro.

Carmilla ergueu as duas mãos e enviou uma concentração de energia para o céu. O sinal subiu numa coluna estreita, atravessou nuvens baixas e desapareceu em silêncio. A espera durou pouco, mas coube nela um mundo inteiro de ruídos: lobos rosnando, vampiros reorganizando armas, Lúcifer respirando com dor, Henri repetindo mentalmente nomes antigos e eu tentando não olhar para cada pessoa presa no campo como alguém que eu deveria ter salvado antes.

Athos surgiu com outro homem ao lado. A chegada dele cortou a tensão por um segundo, porque até os que não o conheciam reconheceram no ar a diferença de alguém que não atravessava distâncias com a mesma regra dos demais. O homem ao lado usava uma autoridade triste, antiga, e Paole soltou o ar num espanto que não conseguiu conter.

— Majestade, aquele é nosso rei. É Drácula.

Drácula olhou para Paole, depois para os Guardiões, e a dor no rosto dele durou menos que a decisão que viera cumprir. Carmilla deu um passo à frente antes de qualquer saudação.

— Onde está André, Athos? E quem é esse que você trouxe?

— Carmilla, André está preso e precisa ser salvo — Athos respondeu, rápido demais para a alegria do reencontro encontrar lugar. — Ao que tudo indica, vocês ajudarão esse resgate, mas não antes de passarem por uma luta sangrenta. Este é Drácula, rei do povo de vampiros que veio com Magno, e ele estará junto dos seus. Sinto muito, mas a batalha aqui é inevitável para que vocês cumpram o que precisam cumprir. Estarei esperando por vocês. Bom te rever também, Lúcifer. Eu sabia que você estaria muito bem.

— Bem é modo de dizer — Lúcifer respondeu. — E você precisa parar de chegar despejando sentença no meio da casa dos outros.

Athos abriu o portal de saída sem responder. Henri tentou chamá-lo, mas ele já desaparecia. O espaço ainda se fechava quando Drácula caminhou para Carmilla.

— Me perdoe de verdade — ele disse.

A mão dele atravessou o corpo dela com uma velocidade limpa e terrível. Drácula subiu o braço por dentro, destruiu o coração, e Carmilla desapareceu diante de nós antes que Lúcifer terminasse de gritar o nome dela.

Por um segundo ninguém lutou. O campo segurando os lobos continuou vibrando, os vampiros encararam Drácula, Paole ficou imóvel ao lado do rei que reconhecia e Henri travou dentro de mim com a mesma pergunta que eu não tinha coragem de formular. Nós tínhamos atravessado o portal para impedir outra matança dos nossos e, na primeira decisão tomada diante de nós, uma rainha havia sido executada em nome de um destino que ninguém ali aceitara votar.

As transformações começaram ao redor. Asas abriram, ossos estalaram, armas subiram e o círculo dos lobos recebeu o primeiro impacto novo da guerra. Agora ninguém tinha tempo para perguntar se Athos salvara alguma coisa ou apenas acendera a parte que ainda não queimava.

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