Os Casulos Liberdade do Vento · Capítulo 8 de 49
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Os Casulos

Meus pés tocaram o chão, mas os dedos continuaram suspensos dentro dos sapatos. O formigamento começou nas pontas, subiu pelas mãos e alcançou os antebraços antes que eu recuperasse o equilíbrio. Henri pousou a poucos passos e tentou abrir e fechar os punhos. Os dedos dele também deixaram de responder.

— Nazer, alguma coisa está acontecendo. Não consigo mexer as mãos. — Henri levantou os braços até a altura do peito, porém os cotovelos cederam e os deixaram cair.

— Os meus braços também estão parando. — Tentei caminhar até ele. A perna direita dobrou no primeiro passo, e só não bati no chão porque uma corrente me segurou pela cintura. — Agora chegou às pernas.

Nazer abriu as mãos e manteve nós dois erguidos a poucos centímetros do terreno. Procurou movimento entre as árvores, percorreu o céu e examinou o solo, sem encontrar agressor ou instrumento que explicasse a paralisia. O vento dele sustentava meu corpo, mas já não conseguia me fazer sentir os membros.

— Está acontecendo comigo também — disse Henri. A voz saiu mais baixa. Ele levou a mão até o peito com esforço e deixou os dedos imóveis sobre a roupa. — Meu coração está diminuindo. Nazer, acho que vai parar.

Tentei responder que sentia o mesmo. A primeira palavra não atravessou a garganta. O intervalo entre os batimentos cresceu, cada pulsação isolada da seguinte por um silêncio maior. Procurei ar e contraí apenas uma parte do peito. O rosto de Nazer perdeu nitidez. Depois do último movimento do coração, minha respiração também cessou.

Conhecia aquela interrupção. O tiro no bar produzira dor, frio e vozes sobre meu corpo; dessa vez, a morte veio sem ferimento e sem ruído. Quando recuperei a visão, continuava no mesmo campo, preso dentro de uma estrutura translúcida. Uma película espessa acompanhava o contorno do meu corpo, fechada acima da cabeça e sob os pés. Eu podia ver através dela, mas não mover braços, boca ou olhos.

Henri estava dentro de outro casulo, suspenso ao meu lado. Nazer alternava entre as duas estruturas, golpeando-as com rajadas curtas e procurando uma abertura com as mãos. O ar desviava da superfície. Os dedos dele deslizavam sem encontrar emenda. Quando tentou puxar meu casulo para longe do outro, os dois permaneceram ligados por uma faixa de luz quase invisível.

Nazer colocou uma mão sobre cada casulo. O calor começou no centro do meu peito e se espalhou até a película ao redor. A faixa entre as estruturas ganhou brilho, engrossou e aproximou Henri de mim. A luz cobriu o campo. Durante alguns segundos, vi o rosto dele através da parede translúcida; depois, a claridade atravessou os dois e apagou todas as formas.

Caí de joelhos sobre a grama. O casulo tinha desaparecido. Minhas mãos voltaram a obedecer, maiores do que eu recordava e cobertas por uma roupa sem costuras, diferente daquela que usara durante a fuga. Toquei o peito, os braços e o rosto. O corpo possuía força, altura e proporções novas. Procurei Henri ao lado, atrás de Nazer e entre as árvores. O segundo casulo também sumira.

— Henri? Onde ele está? — Duas vozes saíram da minha garganta. Reconheci a minha e a dele ocupando as mesmas palavras, com pequenas diferenças de altura e ritmo.

Nazer caiu de joelhos diante de mim. Os olhos percorreram meu rosto, a roupa e as mãos, voltando sempre para o espaço vazio onde Henri estivera.

— Pelas profecias dos Ventos. Isso não deveria ser possível.

Antes de perguntar, percebi uma reação dentro do corpo. O susto de Henri acompanhava o meu, mas chegava de outro lugar. Ele sentia meus dedos contra a pele e, ao mesmo tempo, tentava mover a mão sem saber se o comando lhe pertencia. Uma lembrança de Falcão atravessou minha cabeça, rápida e nítida, embora eu nunca tivesse vivido aquela manhã no palácio. Henri estava comigo. Eu conseguia distingui-lo porque o medo dele tinha direção própria.

— O que aconteceu conosco, Nazer? — A voz dupla tornou a pergunta mais alta do que pretendia. — Isto é outra passagem?

— É uma simbiose. — Nazer se levantou sem afastar os olhos. — Uma evolução rara em que dois seres se completam. O mais comum é unir um humanoide, capaz de comunicar conhecimento, desenvolver técnicas e manipular elementos, a um animal com ligação direta à natureza. Existem registros antigos de humanos unidos a homens primitivos, embora ninguém tenha provado se esses seres existiram neste planeta ou pertencem aos mitos. Uma simbiose completa entre duas pessoas da mesma espécie não aparece em nenhum registro que conheço.

Nazer aproximou a mão do meu ombro e parou antes de tocar. Henri acompanhou o movimento por dentro, pronto para afastá-lo; eu permaneci imóvel. O corpo obedecia aos dois, e nenhum de nós sabia qual comando prevaleceria. Quando Nazer finalmente encostou os dedos na roupa, senti o toque e também a desconfiança de Henri.

Uma vibração atravessou o terreno. Não veio pelos pés. Percebi o ar sendo deslocado entre as árvores, dezenas de corpos descendo ao mesmo tempo e uma concentração de calor escondida dentro das correntes. Henri reconheceu antes de mim a formação usada pelos soldados do Vento.

— Há muita gente se aproximando — avisei. — Estão quase sobre nós.

Os primeiros guerreiros pousaram em círculo. Outros ocuparam o espaço acima das árvores e fecharam qualquer saída pelo ar. No centro do pelotão, o General César mantinha uma figura amarrada pelos braços e pela cabeça. O rosto era o de Nazerith. O brilho que eu enxergara na praça ainda contornava César, embora menos intenso, confirmando a ligação de sangue que Nazerith revelara.

— Parfo! — Nazer avançou um passo. O vento se reuniu acima dos soldados e formou um funil que arrancou folhas das copas. — Solte meu irmão agora.

— Ainda não compreendeu a situação, Mestre do Ar. — César segurou a amarra junto ao pescoço da figura. — Tenho o exército do Vento e um guerreiro do Fogo de nível 4. Ele pode consumir seu ar e secar os poderes de seu irmão antes que seu tufão alcance o chão.

Nazer examinou os soldados. Nenhum deles carregava chama, calor ou marca do Povo do Fogo. A figura de Parfo permanecia imóvel, sem lutar contra as amarras ou procurar os olhos do irmão.

— Não existe guerreiro do Fogo neste pelotão, e Parfo não seria trazido até aqui dessa maneira. Você está usando uma imagem para me conter.

Nazer baixou o braço. O funil desceu sobre César e os soldados. O general abriu a mão, e a base do tufão ganhou uma faixa vermelha. O fogo percorreu o vento de baixo para cima, transformando a corrente numa coluna de chamas. Com a outra mão, César puxou o ar ao redor de Nazer, arrancou o Mestre do chão e o lançou contra o centro da coluna.

Nosso corpo se moveu antes que eu escolhesse qualquer coisa. Henri assumiu pernas e braços, saltou através da distância e alcançou César pelo pescoço. O general desfez a coluna para não ser atingido junto com Nazer, que caiu sobre a grama. Apertamos a garganta de César com as duas mãos e o erguemos até as pontas dos pés perderem contato com o chão.

César pressionou as palmas contra nosso peito. O fogo atravessou a roupa e cobriu a pele, mas o corpo reagiu sem recuar. A região atingida endureceu, formou uma camada lisa e devolveu o calor às mãos do general. Ele tentou afastá-las e não conseguiu; Henri aumentou a pressão sobre seu pescoço.

— Henri, pare! Não o mate! — Nazer se levantava atrás de nós, com parte da barba e da roupa queimadas. — Seu pai não entregou o reino a você para que começasse outra execução.

Eu queria soltar César. Henri queria sentir o último movimento da garganta do homem que assassinara Falcão. Os dois impulsos atravessaram os mesmos braços e os mantiveram rígidos. Procurei a corrente junto às mãos, encontrei o ar comprimido entre nossos pulsos e o pescoço do general e empurrei contra o próprio corpo. O vento abriu nossos cotovelos. Henri resistiu, mas a pressão aumentou até os dedos perderem força e César cair de joelhos, tossindo.

A disputa continuou dentro de nós. Henri tentou retomar os braços; afastei seus comandos das mãos e das pernas, sem expulsar sua presença. Assumi o corpo inteiro por alguns segundos. A raiva dele permaneceu no peito, misturada ao meu medo de descobrir o que aconteceria se um de nós dominasse o outro por tempo demais.

— Nazer, quem está controlando o corpo agora sou eu, Magno. Henri continua aqui. Precisei afastá-lo dos movimentos antes que matasse César.

Nazer prendeu o general ao chão com uma corrente concentrada sobre os ombros. Em seguida, aproximou-se da imagem de Parfo e atravessou uma rajada por ela. O corpo amarrado perdeu a cor, fragmentou-se e desapareceu entre os soldados. O verdadeiro Nazerith continuava em algum lugar sob controle de César.

— Primeiro precisamos descobrir onde está meu irmão. Depois teremos de prender um general que manipula fogo e vento em nível 4. — Nazer observou nosso rosto por mais tempo. — Sua aparência se aproxima da de Henri, apenas alguns anos mais velha. Os soldados precisam saber a quem obedecer. Enquanto ele não recuperar o controle, você poderia falar como o filho do rei.

A proposta alcançou Henri junto comigo. Eu sentia a vontade dele de voltar e o receio de tocar novamente César. Poderia usar seu rosto, repetir as lembranças que começavam a atravessar nossa união e aceitar a reverência dos soldados. Nenhuma dessas coisas me daria o direito de ocupar seu lugar.

Concentrei a atenção nele. Não precisei formar palavras completas; mostrei o campo pelos nossos olhos, César vivo sob o vento de Nazer e os soldados esperando uma ordem. Henri reconheceu a diferença entre impedir a morte do general e retirar dele a própria voz. Cedi primeiro os braços, depois as pernas e por fim a boca. A troca ocupou um intervalo mínimo fora de nós, embora a conversa interna carregasse pensamentos suficientes para preencher vários minutos.

Henri ergueu o corpo. Os soldados viram a mudança na postura antes de ouvirem a voz, que ainda conservava os dois timbres, mas agora seguia a decisão dele.

— Eu sou Henri, filho de Falcão. Fugi porque meu pai foi assassinado e tentaram me matar no mesmo dia. Enquanto estive escondido, vocês receberam ordens em nome do medo. Estou aqui agora. Não vou iniciar outra guerra para vingar a morte dele. Quem ainda serve ao Reino do Vento deve abaixar as armas. Vamos encontrar os responsáveis, recuperar nosso povo e preservar a paz que meu pai construiu.

Os soldados mais próximos soltaram as armas. Um deles se ajoelhou, seguido pelos guerreiros dos dois lados. O movimento atravessou o círculo e alcançou os que permaneciam no ar, que desceram antes de curvar a cabeça. Dentro do corpo, acompanhei o alívio de Henri sem confundi-lo com o meu.

César continuava de joelhos, respirando com dificuldade sob a corrente de Nazer. Tínhamos impedido uma execução e recuperado o comando do exército, mas ainda não sabíamos onde estava Nazerith nem que tipo de prisão conseguiria conter um general capaz de transformar vento em fogo.

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