O Alfa
O círculo permaneceu aberto depois que o Alfa se afastou. Dois lobos soltaram Hagar e recuaram, mas conservaram as garras erguidas. Dafa examinou o corte nas costas de Bel, Nerfate recompôs a proteção do próprio braço e Krakor recolheu a lança sem retirar os olhos de mim. Henri continuava unido ao meu corpo, acompanhando as posições ao redor.
— De qual lembrança terrestre você retirou a ideia de desafiar um Alfa?
— Das mesmas histórias que sugeriram a prata, mas observei a formação antes de gritar. Eles protegiam um comandante, substituíam os feridos sob ordem e interromperam ataques quando ele rosnou.
— A primeira hipótese abriu a pele deles, e a segunda interrompeu uma batalha — respondeu Krakor. — Isso ainda não prova que a terceira parte, na qual você sobrevive ao duelo, também esteja correta.
Hagar levantou-se com ajuda de Bel. A armadura dele fechou as partes arrancadas, embora o braço esquerdo permanecesse baixo. O ataque fora suspenso pela lei local, e qualquer interferência poderia devolver milhares de combatentes à ofensiva.
— Ninguém entra no círculo enquanto eles respeitarem o acordo — determinou Hagar. — Se quebrarem a própria regra, atacamos juntos e usamos a prata para abrir uma saída.
Henri organizou nossas pernas e testou os ombros enquanto eu mantinha atenção sobre os lobos. A união permitia que qualquer um conduzisse o corpo, mas tentar mover a mesma articulação em sentidos diferentes produzia atraso. Decidimos que ele assumiria os gestos do combate; eu observaria o campo e avisaria sobre mudanças fora do alcance imediato.
— Se eu perder contato com o que está acontecendo, não tome tudo sozinho — pedi dentro de nós. — Chame-me de volta.
— Vou conduzir os movimentos, não afastar você deles. Precisamos dos dois presentes.
O Alfa retornou acompanhado por quatro lobos em forma humana. Eles carregavam uma estrutura de madeira com quinze armas presas em encaixes: espadas, lanças, machados, sabres, clavas e duas peças que eu não soube nomear. Uma faixa clara percorria as lâminas e refletia a luz da lua.
— Cada combatente escolherá duas armas — anunciou o Alfa. — Por ter feito o desafio em desvantagem, você escolhe primeiro as suas e ainda retira uma opção das minhas mãos.
Krakor examinou a estrutura e apontou discretamente para o machado de cabo comprido. Depois indicou um sabre curvo, mais leve que as espadas. O Alfa percebeu os gestos e abriu os braços.
— A ajuda deles na escolha está permitida. Quero que chegue ao combate sem desculpa para uma decisão ruim.
— Pegue o machado e o sabre — orientou Krakor. — O machado é a única arma capaz de receber o tacape sem devolver todo o impacto aos seus braços. O sabre tem prata na borda, permite movimento rápido e combina melhor com o treinamento de Henri.
Escolhemos as duas armas. Para retirar uma opção do Alfa, indiquei outro machado, ainda mais pesado, com lâmina dupla. Ele respondeu escolhendo uma espada longa e um tacape de metal escuro. A arma contundente exigiria dois braços de um homem comum, mas o Alfa a levantou com uma das mãos.
Os demais lobos retiraram a estrutura. Hagar, Dafa, Nerfate, Krakor e Bel recuaram até a linha formada pela alcateia. O Alfa girou a espada, testou o tacape e avançou sem outro aviso.
Henri desviou o corpo para a esquerda. A espada passou diante do nosso rosto, e o tacape veio por baixo na mesma sequência. Erguemos o machado com as duas mãos, aparando o cabo em vez da cabeça metálica, e sentimos o impacto atravessar os pulsos até os ombros.
O Alfa não dependia apenas da força. Recolheu o tacape durante o bloqueio, mudou a direção da espada e atacou nossas pernas. Saltamos, giramos o sabre durante a queda e atingimos a lateral do braço dele. A faixa de prata cortou a pele, mas o ferimento fechou depois que nos afastamos.
— A lua continua fechando o ferimento assim que o sabre se afasta — pensei.
— Então precisamos acumular ferimentos mais rápido do que ele consegue fechar — respondeu Henri. — Observe o ombro da espada e avise quando preparar outro golpe.
Passamos a lutar dividindo tarefas. Henri controlava pés, quadril e mãos; eu acompanhava os olhos do Alfa, a mudança de apoio e a abertura dos lobos ao redor. Quando o ombro direito recuava, avisava sobre a espada. Quando ele transferia força para a perna traseira, preparávamos o machado para o tacape.
Mesmo assim, mal conseguíamos atacar. O Alfa alternava golpes laterais, investidas frontais e interrupções que nos obrigavam a reagir antes de completar o movimento. A cada bloqueio, o cabo do machado abria mais a pele de nossas mãos. Um golpe da espada atravessou a roupa na altura das costelas e deixou um corte que queimava ao respirar.
Durante uma pausa curta, o Alfa olhou para o sangue no nosso corpo e sorriu. A mão de Ilana voltou à minha memória no momento em que se soltou da minha diante do portal. Eu acabara de recuperar vinte anos ao lado dela e podia morrer naquele campo sem descobrir o que sua vida se tornara depois de 1969.
A lembrança seguinte trouxe o quarto onde eu escrevia, a xícara ao lado das páginas e a voz dela corrigindo uma frase. O corpo demorou a responder. Henri desviou da espada, mas o tacape já vinha em direção ao peito.
— Magno, permaneça aqui comigo. Eu preciso que veja o segundo golpe.
Voltei ao campo quando a cabeça metálica ocupava quase toda a nossa visão. Erguemos o machado, girando a lâmina para atingir o cabo do tacape. O metal pesado quebrou parte do corte do machado e ficou preso na abertura. O Alfa puxou a arma; nós a empurramos no sentido contrário.
— Agora, solte o machado e use o sabre — pediu Henri dentro de nós.
Abandonamos a disputa pela arma presa. O Alfa perdeu o equilíbrio ao puxar o tacape para trás, e conduzimos o sabre até a lateral do abdômen. A prata atravessou a proteção e entrou fundo. Ele nos atingiu com o punho antes que retirássemos a lâmina, mas precisou deixar o tacape no chão.
Caímos de costas e rolamos para evitar a espada. O Alfa já se movia mais devagar; o ferimento tentava fechar ao redor do sangue e da borda de prata que o abrira. Levantamos com o sabre, enquanto ele conservava apenas a espada.
— Ilana continua dentro de nós, mas não precisamos resolver essa vida durante esta luta — disse Henri. — Você não a perde por olhar para o homem à nossa frente.
Assumi parte do braço do sabre e senti Henri ceder o movimento sem abandonar as pernas. O equilíbrio entre nós deixou de ser uma divisão rígida. Ele aparava os ataques e eu conduzia os contragolpes; quando um errava o tempo, o outro corrigia antes que o corpo parasse.
O Alfa tentou repetir a investida inicial, mas o corte no abdômen limitou a rotação. Bloqueamos a espada, atingimos o punho dele com a guarda do sabre e abrimos outro ferimento sobre o peito. A regeneração começou, porém já não conseguia fechar os dois pontos ao mesmo tempo.
Krakor fez um comentário baixo sobre ter escolhido corretamente o sabre. Dafa segurou o braço dele antes que acrescentasse qualquer coisa. Nenhum dos dois atravessou a linha, e o silêncio voltou a proteger o combate.
O Alfa atacou nossa cabeça. Henri inclinou o corpo, eu segurei o pulso dele e usamos o próprio avanço para tirá-lo do eixo. A espada escapou da mão do adversário. Ele caiu de lado, tentou levantar e voltou ao chão quando a perna perdeu força.
A alcateia não se moveu. O sabre estava diante do peito do Alfa, e a lei do desafio exigia uma conclusão que ninguém precisou explicar. Hesitei. O homem caído ainda respirava e continuava consciente; matar alguém desarmado repetia a violência que eu tentara interromper ao lançar o desafio.
— Se recuarmos, ele pode ordenar que recomecem — advertiu Henri. — Peça rendição, mas mantenha a lâmina pronta.
— Reconheça a derrota e encerre o ataque aos estrangeiros — determinei. — Não preciso matá-lo para sair deste campo.
O Alfa apoiou uma mão no chão e baixou a cabeça. Quando dei um passo para aproximar a lâmina do coração e impedir outra investida, ele usou a perna ferida para saltar. A mandíbula fechou-se sobre nosso pescoço.
A dor atravessou o corpo inteiro. O sabre caiu, Henri tentou deslocar o pescoço para escapar e eu segurei a cabeça do Alfa com as duas mãos. Os dentes permaneceram presos. O sangue desceu pelo peito, quente durante poucos segundos antes que o vento do campo o esfriasse.
Recuperei o sabre e perfurei a lateral do adversário. Ele não soltou. Golpeei outra vez, depois outra, enquanto Henri mantinha nossos joelhos firmes e tentava comprimir o ferimento do pescoço por dentro. A visão começou a fechar nas bordas.
Krakor avançou meio passo. Dafa o conteve junto com Hagar; interferir naquele instante devolveria a alcateia ao combate e poderia fazer o Alfa arrancar nossa garganta durante a reação.
O corpo preso ao nosso pescoço começou a perder matéria. Primeiro desapareceram os dedos apoiados em nosso ombro, depois os braços e o torso. A mandíbula permaneceu até o fim. Quando os dentes se desfizeram, alguma coisa atravessou as perfurações e entrou junto com o sangue.
Não houve espaço para separar dor, som e memória. O campo chegou pelo cheiro de cada lobo, pela vibração das patas no solo e pela luz da lua tocando a pele. Ao mesmo tempo, recebemos caminhos sob a terra, gerações de hospedeiros, disputas pelo comando e uma voz sem palavras humanas que reconhecia a si própria como Fenrir.
Henri e eu continuávamos presentes. A terceira consciência ocupou nossos músculos, ampliou a audição e tentou erguer o corpo antes que decidíssemos fazê-lo. Seguramos o impulso juntos. Fenrir não encontrou um hospedeiro sozinho nem uma mente vazia; encontrou duas pessoas acostumadas a negociar cada movimento.
Levantamos devagar. Pelos surgiram nos braços e recuaram, a mandíbula doeu ao mudar de forma e as unhas pressionaram a ponta dos dedos. O ferimento no pescoço fechou sob a mesma reação que protegera os lobos durante a luta.
Todos os integrantes da alcateia se curvaram. A submissão veio acompanhada por lembranças de Fenrir: o vencedor recebia o lobo e o comando, e os demais obedeciam ao novo Alfa até outro desafio. A lei entregava pessoas inteiras a quem permanecesse de pé.
Um uivo saiu de nossa garganta sem que eu ou Henri o preparasse. A voz de Fenrir tomou o campo, e milhares responderam. O som atingiu meu peito por dentro e fez a lua vibrar na visão.
— Viemos buscar Bel e encontramos um Alfa novo com uma alcateia inteira — comentou Krakor. — Admito que o resultado superou até as minhas previsões.
— Eles não são resultado de uma aposta nem propriedade do vencedor — respondi. — Recebi o comando pela lei deles, mas ninguém deixará Inc apenas porque minha garganta produziu um uivo.
Fenrir reagiu dentro de nós. A obrigação de seguir o Alfa fazia parte de suas memórias, junto com a certeza de que abandonar o comando provocaria outra disputa. Henri reconheceu o problema antes que eu tentasse resolver tudo por impulso.
— Pergunte o que eles querem enquanto ainda conseguem responder por si — sugeriu ele. — Depois decidimos o que significa liderar sem obrigar.
Pedi que os lobos retomassem a forma humana. A transformação percorreu o círculo, devolvendo rostos, roupas abertas e armas abaixadas. O homem que ocupara o centro durante o primeiro ataque aproximou-se e falou em nome dos demais.
— A alcateia reconhece você, mas nossa sobrevivência não depende deste campo. Se existe um lugar onde a lua não nos obrigue a caçar estrangeiros, queremos conhecê-lo antes de escolher ficar ou partir.
Eu não sabia se Vésper poderia reproduzir a luz necessária à transformação nem o que a ausência das luas faria a Fenrir e aos outros. Podíamos oferecer uma possibilidade, não uma promessa. Expliquei apenas que Athos havia criado um refúgio para populações ameaçadas e que precisaríamos perguntar a ele quais condições conseguiria manter.
Bel descansou até reunir energia suficiente. Dafa, Hagar e Nerfate ajudaram a separar o ar, enquanto Krakor sustentou o calor necessário. A coluna de localização atravessou as nuvens e permaneceu visível mesmo sob a luz da lua.
Athos surgiu pouco depois. Olhou o campo, o sangue em nossas roupas e os milhares de habitantes reunidos. Bel contou sobre o ataque e o duelo; Hagar explicou a transferência de Fenrir; nós informamos que os lobos queriam conhecer a alternativa antes de decidir.
— Posso abrir passagem para Vésper e conversar com eles do outro lado — respondeu Athos. — Não conheço ainda o efeito da ausência desta lua, então ninguém deve atravessar sem saber que teremos de reproduzir parte das condições de Inc.
Ele começou a preparar o portal. Fenrir acompanhou o movimento dentro de nós, mas outra direção puxou sua atenção para o solo, profunda e distante. A passagem para Vésper ainda nem estava aberta, e a terceira consciência já sabia que não poderíamos partir imediatamente.