Mudança
Elaryan girava uma taça entre os dedos quando entramos na sala de jantar. Ilana ocupava a cadeira diante dela; Alice e Falcão estavam junto à janela, ainda com as placas da apuração subterrânea. Ninguém tocara a comida distribuída sobre a mesa.
— Chegaram bem na parte em que eu contaria a Ilana sobre Lavigne — disse Elaryan. — Essa vampira entrará na vida de vocês com bastante intensidade.
— Essa conversa pertence primeiro a nós três — interrompeu Henri por nossa boca. — Lavigne pediu permissão para enviar um convite. Magno e eu aceitamos receber, sem responder por Ilana.
Ilana afastou a taça colocada diante dela e pediu que contássemos o encontro. Relatamos o interesse manifestado depois da estabilização, a ausência de beijo ou toque e a decisão de esperar. Ela ouviu sem olhar para Elaryan.
— Quero ler o convite quando chegar. Depois decido se respondo, se vocês respondem sozinhos ou se ninguém marca nada.
— Em outras circunstâncias, eu diria que o futuro confirmará minha frase — respondeu Elaryan. — Hoje posso dizer apenas que conheço uma sequência na qual Lavigne se torna importante para vocês.
— Conhecer uma sequência não autoriza anunciá-la como escolha concluída — retruquei. — Ainda menos diante de Ilana, antes que falássemos.
Elaryan bebeu um gole e apoiou a taça. A correção não a constrangeu, mas impediu que a conversa sobre Lavigne continuasse sem nossa participação. Ilana segurou nossa mão e manteve para si o direito de responder depois.
Dash entrou com Nazer e Nazerith, trazendo a caixa isolada da Vajra e os registros dos quatro exércitos. Ele nos lançou um olhar breve. Eu conhecia aquele sinal: pretendia testar a cópia de poder que praticara com pessoas capazes de consentir.
Dash avançou um passo e levantou a mão. Elaryan desapareceu da cadeira e surgiu junto à janela, fora do alcance dele. A taça permaneceu sobre a mesa sem derramar uma gota.
— Eu conheço sua técnica — disse ela. — Você copia a essência de alguém pelo contato e conserva o poder até escolher outro. Sua falta de ambição permite que continue livre.
— Você saiu porque eu tentaria copiar sem sua autorização — respondeu Dash. — Isso foi uma escolha minha, e assumo que ultrapassei o limite.
— Meu filhote, se começar a colecionar os poderes de todas as pessoas que encontra, eu o manterei longe delas. Você perderia exatamente a vida que deseja preservar.
Dash baixou a mão, mas não recuou. Nazerith abriu uma placa e registrou a ameaça antes que Elaryan pudesse transformá-la em advertência afetuosa.
— Não sou seu filhote nem seu animal de estimação — disse Dash. — Não tentarei tocar você outra vez hoje. A decisão vem do risco que avaliei, não da posição que reservou para mim.
— E qualquer tentativa de prendê-lo receberá oposição — acrescentou Henri. — Dash responde pela invasão que tentou. Você responde pela ameaça que acabou de fazer.
Elaryan voltou à cadeira. Disse que nossa reação também impediria Dash de acumular poderes sem critério, apresentando o resultado como prova de que conhecia o futuro. Nazer moveu essa afirmação para a coluna das previsões recebidas, sem convertê-la em fato.
— Agora precisamos discutir a mudança — declarou Elaryan. — A região onde Extern se encontra entrou numa fase de retorno que reduz o tempo disponível para manter estas comunidades aqui.
Ela abriu a mão sobre a mesa. Quatro linhas luminosas saíram de um ponto central, curvaram-se em direções diferentes e formaram trajetórias que voltavam a se aproximar. Marcadores indicavam galáxias, sistemas e intervalos temporais ao longo de cada arco.
— Este é o modelo que uso para acompanhar a matéria desde a expansão inicial. O centro continua ejetando matéria e exercendo atração sobre o que lançou. As quatro vias cresceram em curvas; depois do ponto máximo, passaram a retornar.
Falcão se aproximou da projeção e apontou para duas galáxias quase sobrepostas. Os marcadores atribuíam bilhões de anos à parte externa das curvas e intervalos cada vez menores perto do reencontro.
— Está dizendo que o deslocamento no espaço altera também o tempo disponível para esses sistemas?
— A posição na curva e a concentração de matéria produzem diferenças. Em algumas regiões, o percurso que consumiu bilhões de anos durante a expansão termina em décadas, meses ou dias no retorno.
Henri pediu medições ligadas a Extern. Elaryan ampliou três mapas: variações na órbita das estrelas próximas, aumento de chegadas de renascidos e diferenças entre relógios que haviam permanecido em sistemas distintos. Os dados sustentavam deslocamento e compressão, mas a interpretação das quatro vias continuava pertencendo ao modelo dela.
— Extern já recebe mais pessoas do que consegue distribuir com segurança — explicou Elaryan. — A atração também traz renascimentos precoces. Quanto mais as vias se fecharem, maior será a concentração.
— Para onde pretende levar as comunidades? — perguntou Alice.
Elaryan projetou um sistema de planetas ao redor de duas estrelas estáveis. Equipes ligadas a Athos construíam atmosferas, oceanos, barreiras e corredores de passagem. Cada mundo tinha áreas reservadas, capacidade estimada e problemas ainda sem solução.
— Quero manter o maior número possível de pessoas protegido até o final. O grupo de Athos trabalha dentro desses planetas. Também precisarei de uma força especial para recuperar alguém importante, e participarei dessa batalha.
— Quem precisa ser recuperado, onde está e por que exige uma batalha? — perguntei.
— Ainda não entregarei o nome. A informação mudaria decisões antes do momento em que a pessoa poderá ser retirada.
A recusa entrou nas placas. Falcão exigiu ao menos critérios para escolher combatentes, risco esperado e direito de recusa. Elaryan respondeu que apresentaria a missão quando o destino estivesse acessível. Nenhuma dessas palavras nos obrigava a aceitar.
— O povo do Vento será transferido agora — continuou ela. — A porção inclui Finiti, Vermilion, a cidade dos lobos, quartéis, áreas de produção e rotas de abastecimento.
— Quantas pessoas sabem disso? — perguntou Ilana.
— As que estão nesta sala e as equipes que preparam o destino.
Henri levantou nosso corpo. Recusou permitir que milhares de pessoas experimentassem outro deslocamento sem aviso, principalmente depois das duas mortes impostas por Elaryan durante a chegada a Extern.
— Você tem poder para mover o território, mas nós temos obrigação de reduzir o dano. Dê tempo para suspender voos, desligar máquinas, estabilizar hospitais e avisar a população.
Elaryan concedeu quarenta minutos. Nazer e Nazerith transmitiram o alerta pelos canais dos quartéis; Ilana acionou os conselhos; Alice e Falcão seguiram para Finiti. Dash levou a informação às estruturas flutuantes, enquanto Amor abriu as rotas de retorno da feira.
As mensagens não prometeram segurança absoluta. Informaram o horário, pediram que todos permanecessem longe de bordas e veículos, indicaram pontos médicos e explicaram que edifícios e solo seriam transportados juntos. Conselhos locais mantiveram canais abertos para perguntas e pessoas desaparecidas.
Elaryan retirou uma arma do espaço ao lado da cadeira. Duas lâminas simétricas partiam de um cabo escuro, com inscrições que mudavam quando girávamos o objeto.
— Esta adaga pertence ao conjunto das quinze armas místicas. Você será o detentor por um período. Em outro momento, deverá entregá-la a alguém que já a possuiu.
— Isso é uma ordem, uma previsão ou uma lembrança sua? — perguntou Henri.
— É a orientação necessária para conservar a arma em circulação.
Recebi a adaga sem aceitar a conclusão inteira. O metal ajustou o peso ao nosso braço e produziu uma linha clara entre as duas pontas. Elaryan explicou que a arma abriria passagens para lugares que conseguíssemos identificar por imagem, nome e posição.
Nazer marcou a entrada da cidade dos lobos como destino de teste e manteve um comunicador em cada lado. Henri e eu formamos juntos a imagem dos canais frios, da muralha baixa e da faixa de terra onde Fenrir correra.
Movemos a lâmina diante do corpo. A linha clara se abriu num círculo, revelando a entrada da cidade dos lobos do outro lado. Atravessamos, confirmamos o horário com Brinshen e voltamos por uma segunda passagem criada a partir da sala de jantar.
— A arma responde ao destino compartilhado — observou Nazer. — Ainda precisamos testar alcance, erro, gasto e interferência antes de usá-la numa retirada.
Elaryan informou que o teste já bastava para a transferência daquele dia. Guardamos a adaga numa faixa presa ao corpo, separada da Vajra e registrada por Nazerith entre as armas sob posse temporária.
Os quarenta minutos terminaram com sinais das regiões incluídas. Hospitais tinham fixado leitos; plataformas pousaram; fornos, turbinas e veículos foram desligados; equipes de água fecharam válvulas vulneráveis. Algumas comunidades pediram mais tempo, mas Elaryan recusou adiar.
Ela se levantou no centro da sala e avisou que moveria aproximadamente um oitavo da superfície habitada de Extern. Uma luz violeta percorreu o piso, atravessou paredes e continuou para além da cidade.
O primeiro impacto dobrou nossos joelhos. A mesa deslizou, pratos se partiram e uma das janelas abriu sozinha. Segurei Ilana; Dash sustentou Alice e Falcão com uma barreira copiada de outro treinamento. O movimento terminou depois de duas oscilações fortes.
O céu do lado de fora tinha faixas amarelas e verde-água. As torres, vias e campos continuavam na mesma posição relativa, mas o horizonte terminava em montanhas que ninguém reconhecia. Duas luas pequenas ocupavam a parte clara do céu.
Saímos pela abertura da torre e dividimos a verificação. Os primeiros relatos registraram quedas, cortes e uma cobertura de mercado rompida. Nenhuma morte fora confirmada. Equipes conferiam hospitais, depósitos, muralhas, sistemas de água e os nomes enviados pelos conselhos.
Henri assumiu nossa voz para informar que o deslocamento terminara, mas a inspeção continuava. Pediu que ninguém abandonasse os pontos seguros até a confirmação das rotas e que pessoas sem contato com familiares usassem os canais de busca, sem atravessar áreas danificadas.
Enquanto os registros chegavam, três figuras surgiram acima do novo horizonte. Voavam sem veículo e observavam as cidades transferidas, apontando para edifícios e para a porção de solo que acabara de aparecer diante delas.