Tempos de Guerra, Povo de Paz Liberdade do Vento · Capítulo 4 de 49
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Tempos de Guerra, Povo de Paz

Eu já havia perdido a conta de quantas vezes levei a mão à cabeça desde que chegara à Zona Livre. Coçar os cabelos tinha se tornado uma resposta para tudo o que eu ainda não sabia nomear, e naquele dia meus dedos mal saíram de lá. Nazerith me conduziu por ruas cheias, entre pessoas que cediam passagem sem disputar o primeiro espaço, ouviam umas às outras até o fim e aguardavam a própria vez sem lançar olhares impacientes. A ordem convivia com discussões diante das oficinas, crianças correndo entre as bancas e grupos reunidos em torno de projetos abertos sobre mesas, mas ninguém precisava vencer o outro para ser atendido.

Numa dessas mesas, uma mulher apresentou o desenho de um canal de ar que levaria água até uma área afastada da cidade. Os moradores fizeram perguntas, alteraram medidas e escolheram duas pessoas para verificar o terreno. A proposta seguiria adiante se a comunidade concordasse com o trabalho e com os livros necessários para pagá-lo. Nazerith explicou que não existia um governo encarregado de decidir por todos. Cada comunidade examinava suas necessidades, recebia ideias e entregava a execução àquela que julgasse mais adequada.

O pagamento me fez parar diante de outra banca. Um rapaz colocou na palma da mão um cartão pequeno, fino demais para conter qualquer coisa além de um nome. Apertou uma das bordas e dezenas de páginas surgiram no ar, organizadas em camadas translúcidas. Ele afastou duas com os dedos, ampliou um desenho e entregou o cartão a uma senhora, que lhe deu outro em troca. As palavras ainda cumpriam a função que eu conhecia: guardavam histórias, instruções, descobertas e maneiras de passar o tempo. Ali, no entanto, também compravam comida, trabalho e objetos.

Minha antiga noção de riqueza não sobreviveria muito naquele lugar. Um livro valia pelo que ainda podia oferecer a quem o recebia. Nazerith não teria interesse em negociar com Eviah se já conhecesse todos os títulos de sua coleção, enquanto eu, incapaz de ler até o alfabeto daquele mundo, podia olhar para os mesmos cartões e enxergar uma fortuna inacessível. Quem acumulava conhecimento adquiria influência, mas continuava obrigado a expor suas ideias diante dos outros. Nenhuma estante garantia o direito de dar ordens.

— E o rei? — Afastei a mão da cabeça e apontei para o movimento ao redor. — Se as pessoas decidem o que precisam e ninguém depende de um governo para controlar a cidade, por que ainda existe um rei?

— Nem sempre vivemos assim. Falcão conhece mais do que qualquer um de nós, porém foi ele quem abriu mão do controle que poderia exercer. — Nazerith diminuiu o passo e cumprimentou uma mulher que organizava cartões numa caixa pública. — O rei orienta, apresenta caminhos e nos convence quando acredita que estamos errados. Nunca precisou nos obrigar a segui-lo. A paz começou quando ele ensinou este povo a tomar decisões sem esperar uma ordem.

O nome de Falcão modificava o rosto de Nazerith. A testa perdia as dobras, a voz se acomodava e até seus passos ganhavam firmeza. Eu me preparava para perguntar quanto tempo um rei podia governar num mundo em que a morte seguia regras diferentes quando um som grave atravessou a cidade. A primeira nota foi longa; a segunda veio mais alta e fez vibrar os cartões sobre as bancas. Conversas cessaram, páginas tridimensionais recolheram-se e portas começaram a fechar.

— O que é essa sirene? — perguntei. Nazerith já se movia em direção à avenida, acompanhando pessoas que abandonavam oficinas e casas.

— O chamado de emergência do rei. Todos devem ir para a praça central e aguardar instruções. — Ele segurou meu braço para que eu não fosse separado pela corrente que tomava a rua.

— Se todos sabem o que fazer, por que estão com essa cara? — Um homem passou por nós carregando a filha no colo; a menina apertava contra o peito um cartão ainda aberto, e as páginas tremiam a cada passo.

— Porque só os mais antigos ouviram esse sinal. Tocou quando Falcão assumiu o reinado e pôs fim às guerras. Isso aconteceu há alguns séculos.

A sirene continuou enquanto avançávamos para o centro. Ninguém corria, mas a calma que eu observara nas ruas dependia agora de esforço. Pessoas se tocavam nos ombros, chamavam familiares e olhavam para o céu entre uma nota e outra. Eu acabara de chegar a um povo que afirmava ter vencido a guerra havia séculos; bastaram algumas horas da minha presença para que seu alarme mais antigo voltasse a funcionar. O pensamento era presunçoso, eu sabia, mas não consegui afastá-lo.

A praça da capital recebeu milhares de habitantes. Outros tantos se reuniam nos centros das demais cidades, onde a imagem do rei seria projetada em tamanho real. Nazerith me levou até uma faixa elevada de pedra de onde podíamos ver o círculo reservado aos anúncios. Todos mantinham os olhos naquele espaço vazio, esperando Falcão. O som cessou, e o silêncio seguinte durou até que um grupo de soldados descesse do céu.

As botas tocaram o círculo quase ao mesmo tempo. Os soldados abriram duas fileiras, deixando no centro um homem alto, de ombros largos, vestido com o uniforme mais escuro do grupo. O tecido preso às suas costas continuou agitado por uma corrente própria depois que todos já estavam imóveis.

— Aquele é o General César — disse Nazerith, aproximando a boca do meu ouvido. — Ele manteve o exército treinando técnicas de vento durante toda a paz. Dizia que um povo sem defesa convidava antigos inimigos a voltar. Falcão não gostava da presença dos soldados, mas aceitou porque muitos se sentiam mais seguros com eles.

Olhei para o general e perdi a praça. Um contorno claro percorria seus braços, o rosto e as bordas do uniforme. A luz não vinha do céu nem dos soldados ao redor; acompanhava o corpo dele e tornava as outras pessoas difíceis de enxergar. Pisquei, esfreguei os olhos e voltei a coçar a cabeça, mas o brilho permaneceu.

— César fica iluminado desse jeito sempre que aparece em público?

— Iluminado? — Nazerith se voltou para mim. — Você vê um contorno ao redor dele?

— Vejo o homem inteiro brilhando. Mal consigo distinguir quem está ao lado.

— Magno, neste mundo o olhar reconhece a continuidade do sangue. Não importa quantas vidas ou distâncias existam entre duas pessoas; descendentes da mesma linhagem se destacam uns para os outros. — Nazerith examinou o general e depois meu rosto. Sua mão apertou meu braço. — Se você enxerga César dessa forma, é descendente direto dele. E existe outra coisa: ele afirmou que nunca viveu na Terra.

— Então ele mentiu sobre a própria origem e...

— Povo do Vento sob o Segundo Sol, meus irmãos. — A voz de César atravessou a praça sem que ele precisasse gritar. Nazerith soltou meu braço, e a pergunta morreu antes de alcançar minha boca. — Trago duas notícias que mudarão a vida de todos nós. A primeira é a mais dolorosa: nosso rei foi assassinado.

O silêncio partiu no centro da multidão. Uma mulher deixou cair a caixa de cartões que carregava; as lâminas se espalharam pela pedra e abriram livros ao serem pisadas. Pessoas que minutos antes aguardavam em ordem empurraram-se para procurar parentes. Um homem caiu de joelhos, outro ergueu os braços para os soldados, exigindo um nome, e o choro atravessou a praça em ondas. Eu ainda tentava entender por que uma morte provocava tamanho desespero entre pessoas que haviam me ensinado a continuidade da alma.

— Não há assassinatos aqui — explicou Nazerith, sem tirar os olhos de César. — Quem já matou outra pessoa não pode renascer no Universo do Segundo Sol. Também não temos mortes neste planeta, e por isso recebemos tão poucos recém-chegados. Falcão não fez apenas a passagem para outro mundo. Alguém capaz de matar entrou onde nenhum assassino deveria conseguir entrar.

— Então eles não estão chorando somente pelo rei.

— Estão vendo a guerra atravessar uma porta que julgávamos fechada. — Nazerith olhou os soldados posicionados ao redor do círculo. — E César trouxe um exército para recebê-la.

— Nosso rei permitiu que esses homens continuassem treinando para que nunca ficássemos desamparados — prosseguiu o general. — A confiança de Falcão nos preparou para este dia. Somos mais fortes do que éramos no fim das guerras e já conhecemos o inimigo: recebemos um intruso do Povo do Fogo, vindo do Quarto Sol do Universo 4.

A menção ao fogo provocou uma reação mais violenta que a notícia da morte. Pessoas tentaram deixar a praça, mas encontraram todas as saídas tomadas pela multidão. Nazerith negou com a cabeça enquanto contava nos dedos alguma ordem que só ele conhecia.

— Um povo do quarto nível não pode atacar um planeta inferior sem sofrer intervenção — disse ele. — Os Mestres do Vento teriam permissão para entrar na guerra, e o conflito alcançaria outros universos. O Povo do Fogo conhece essa regra. Mesmo que destruísse este planeta, não venceria o que viria depois.

— Eles podem se teletransportar? — A pergunta surgiu de um homem próximo ao círculo. Os gritos diminuíram, e César esperou até obter a atenção que procurava.

— O assassinato de Falcão foi, segundo nossas investigações, o primeiro teste de uma técnica capaz de transportar alguém do quarto nível para um planeta inferior. Capturamos o assassino, mas ele se recusa a falar. Não possuímos força para subjugá-lo e tampouco conseguimos matá-lo. — César caminhou entre as duas fileiras de soldados, oferecendo o rosto a cada lado da praça. — O antigo cárcere de água conquistado pelo rei ainda existe. O prisioneiro foi levado para lá e não poderá escapar, porém ignoramos quantos dominam a mesma técnica e quando tentarão atravessar.

Nazerith mantinha os olhos no general. A prisão podia ser real, assim como o homem capturado, mas nada na explicação resolvia a mentira que o brilho revelara. Ao nosso redor, a população começou a pedir notícias da família real. César ergueu uma das mãos, e os soldados bateram os pés no chão. O ruído devolveu silêncio à praça.

— O pequeno príncipe fugiu para as Florestas do Vento. Nossas equipes procuram por ele desde o ataque, sem resultado. O garoto não utiliza nenhuma técnica e deve acreditar que o assassino do pai ainda o persegue. — César deixou a mão cair e esperou alguns segundos. — Enquanto Falcão estiver ausente e seu herdeiro não for encontrado, o povo precisa de comando. Por isso, assumo a partir deste momento a regência do Vento do Segundo Sol do Universo 2.

Os soldados se ajoelharam juntos. A primeira fileira da multidão repetiu o gesto; quem estava atrás acompanhou sem saber o que havia acontecido à frente. A rendição avançou pela praça em faixas, aproximando-se de nós. Nazerith não dobrou os joelhos. Eu permaneci de pé porque ele permanecera, embora ainda não soubesse se aquilo bastava para me tornar inimigo do novo regente.

— Se César mentiu sobre nunca ter vivido na Terra, sobre o que mais está mentindo agora? — Nazerith falou baixo, mas a multidão ajoelhada abriu uma linha entre nós e o círculo central.

César virou o rosto naquela direção. Seus olhos encontraram o velho primeiro e pararam em mim logo depois. O brilho ao redor dele se intensificou para minha visão; pela maneira como recuou um dos ombros, percebi que eu também acabara de me destacar no meio da praça. O general chamou um soldado, indicou nosso ponto com dois dedos e disse alguma coisa que não consegui ouvir. O homem se levantou e começou a avançar.

— Magno, corra. Não pare para olhar para trás. — Nazerith me empurrou para a lateral da faixa de pedra e apontou uma torre estreita acima dos telhados. — Siga para o leste. Depois daquela torre começa a floresta.

— E o que eu faço quando chegar lá? — Desci da elevação, mas ainda segurava a manga de Nazerith. O soldado abria passagem entre as pessoas ajoelhadas, acompanhado agora por mais dois.

— Confie em mim e continue correndo. Se encontrar alguém parecido comigo, confie nele também. — Nazerith soltou a própria manga e entrou no fluxo de pessoas que tentava se levantar, obrigando os soldados a contorná-las.

— Traidor! Prendam o traidor! — César apontou diretamente para mim. A palavra atravessou a praça, e rostos que não sabiam meu nome se ergueram para procurar o homem condenado pelo regente.

Corri para a torre. Não possuía nenhuma técnica capaz de me lançar sobre os telhados, e cada passagem que tentava usar se fechava com habitantes assustados. Atrás de mim, os soldados avançavam pelo alto, mas o tumulto criava correntes irregulares e os obrigava a reduzir a velocidade perto da multidão. Alcancei a base da torre sem ver entrada para a floresta. Havia apenas uma placa circular presa ao chão, marcada com o mesmo símbolo dos uniformes militares.

Enfiei os dedos na borda e puxei. A tampa se abriu, e uma corrente fria subiu do buraco, forte o bastante para jogar meus cabelos sobre o rosto. Não vi degraus, paredes ou fundo. Um dos soldados pousou atrás de mim; suas botas rasparam a pedra, e o ar começou a girar ao redor de minhas pernas. Soltei a placa, dobrei o corpo e pulei.

O vento me arrancou da abertura. A tampa bateu acima da minha cabeça, apagando a praça, e a escuridão me recebeu em queda. A última voz que alcancei vinha do outro lado da placa, abafada pela corrente que me arrastava.

— Ele entrou na saída de escape dos guerreiros. Nós o perdemos.

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