O Novo Rei Liberdade do Vento · Capítulo 9 de 49
Obra Menu

O Novo Rei

Os soldados continuavam ajoelhados quando Nazer aumentou a pressão do vento sobre César. O general respirava com dificuldade e mantinha as mãos abertas sobre a grama, longe do próprio peito. Conhecíamos seu controle sobre fogo e ar, mas isso dizia pouco sobre o que conseguiria fazer quando recuperasse as forças.

Se César pudesse se teletransportar, nenhuma cela bastaria. A dúvida atravessou Henri e chegou até mim acompanhada por lembranças de corredores subterrâneos, portas sem fechadura e histórias que Falcão proibira no palácio. Henri ainda conduzia nosso corpo. Eu observava por seus olhos e conseguia reconhecer quais imagens pertenciam à infância dele.

— Nazer, César consegue se teletransportar? — perguntou Henri. A voz preservava nossos dois timbres, mas a postura e a escolha eram dele.

— Acredito que tenha recebido ajuda para chegar até aqui. — Nazer manteve uma das mãos voltada para o general. — Teletransportar-se para um planeta inferior exige poder e precisão que ele ainda não demonstrou. Não podemos depender dessa conclusão, mas ela nos dá tempo para procurar uma prisão.

A lembrança dos corredores voltou. Henri permitiu que ela se abrisse por inteiro e reconheceu a entrada sob o antigo quartel.

— Nazer, os calabouços subterrâneos do antigo quartel ainda existem?

— Falcão ordenou que fossem destruídos. — Nazer olhou para os soldados ao redor. — Seu pai não aceitou preservar estruturas criadas para repressão depois do fim da guerra.

— As celas continuam lá, Vossa Alteza. — Um soldado se levantou devagar e deixou a arma no chão antes de avançar. — Capitão Verne. Servi diretamente sob as ordens do general.

Henri esperou que ele prosseguisse. Verne manteve as mãos visíveis e parou fora do alcance da corrente que prendia César.

— O general contrariou a ordem do rei, reforçou as celas e passou a usá-las contra soldados que questionavam suas decisões. Eu mesmo fiquei preso durante três ciclos de treinamento. Depois disso, bastava César mencionar o corredor para encerrar qualquer discussão.

César tentou erguer o rosto. Nazer fechou os dedos, e o vento o pressionou novamente contra o terreno. Em seguida, retirou do bolso um frasco estreito.

— Duas gotas manterão o general desacordado até chegarmos ao quartel. — Nazer inclinou a cabeça de César, abriu-lhe a boca com uma corrente fina e deixou o líquido cair sobre a língua. O corpo resistiu por alguns segundos antes de perder a força. — A poção não resolve o problema da cela. Apenas impede que ele nos ataque durante o transporte.

Henri voltou a atenção para Verne. Se o exército deixara de obedecer ao general, alguém precisaria responder por ele enquanto o herdeiro entendia o que restara do governo.

— Quem ocupa a posição seguinte na hierarquia do exército?

— Temos dois majores. Canion era o oficial mais próximo de César e saiu numa missão omitida do restante do comando. O outro é o Major Arc.

— Major Arc, apresentando-se a Vossa Majestade. — Um homem atravessou a primeira fileira antes de ser chamado. Ajoelhou-se diante de nós e manteve a cabeça baixa. — Peço perdão por não ter agido quando o general tomou o poder.

— Henri ainda aguarda a coroação — advertiu Nazer. Os olhos dele permaneceram sobre Arc enquanto o vento continuava prendendo César.

— Nosso povo ficou tempo demais sem rei para exigir cerimônia agora — respondeu Arc. — Precisa de uma voz reconhecida e de um exército capaz de obedecê-la.

A prontidão do major agradou uma parte de Henri e incomodou outra. Arc oferecia exatamente a estrutura necessária no momento em que o antigo comandante caía. Verne observava o superior sem demonstrar surpresa; quando Henri procurou sua reação, o capitão fez um movimento breve com a cabeça, suficiente para confirmar que Arc possuía autoridade entre os soldados, mas não para garantir suas intenções.

— Major Arc, assumirá temporariamente o comando do exército em meu nome — decidiu Henri. — Capitão Verne será seu primeiro intendente. Ordens que contrariem as leis de Falcão ou ampliem a autoridade militar deverão ser comunicadas a mim e ao Mestre Nazer antes de executadas. Canion será recebido e mantido na sala de reuniões assim que retornar, com força se oferecer resistência. Agora levaremos César ao quartel.

Os soldados se levantaram. Arc reorganizou as fileiras, designou quatro homens para a guarda e entregou o corpo desacordado do general a Verne. O pelotão marchou até o limite do campo e ergueu voo em grupos. Nazer seguiu à frente; nós partimos ao lado dele.

Henri conhecia a posição das mãos e o modo de distribuir o ar sob as pernas. Eu reconhecia as pequenas correções aprendidas durante a queda e a tentativa frustrada no deserto. Quando os dois movimentos se encontraram, o corpo subiu sem o desequilíbrio que cada um teria sozinho. Ainda dependíamos de concentração, mas a corrente respondia com uma precisão nova.

O quartel apareceu acima das árvores, formado por torres brancas ligadas por passagens estreitas e plataformas suspensas. Uma lembrança de Henri atravessou minha visão: ele menor, segurando a mão de Falcão enquanto soldados abriam caminho no pátio. A imagem ocupou o lugar da fortaleza atual durante um instante e desapareceu quando pousamos.

Arc distribuiu a troca da guarda. Os soldados receberam ordem para conduzir Canion à sala de reuniões caso ele retornasse e impedir sua saída até a presença de Henri ou Nazer. Verne manteve César nos braços enquanto descíamos por uma porta lateral até o subsolo.

A escadaria obrigava nossos ombros a quase tocar as paredes. O teto diminuía a cada lance, e o ar ficava mais frio perto do corredor inferior. Pequenos pontos luminosos percorriam canais dentro da pedra, acendendo e apagando em sequência.

— São formigas-vaga-lume — explicou Arc. — Elas vivem nos canais da diametita e mantêm ativa a liga das paredes. A pedra repele energia. Quem tentar manipular um elemento contra ela recebe parte do próprio ataque de volta.

As celas ocupavam os dois lados do corredor. Algumas portas tinham marcas de queimadura, cortes e pontos escurecidos pela pressão do vento. Verne não precisou indicar onde ficara preso; diminuiu o passo diante de uma das marcas e retomou a caminhada sem olhar para dentro.

Escolhemos a cela mais distante da escada. Nazer examinou o interior, retirou qualquer objeto solto e manteve a poção junto ao corpo de César. Verne colocou o general no chão. Henri fechou a porta com a palma apoiada sobre a diametita, e linhas claras percorreram a superfície antes de desaparecer.

— A cela registrou a energia de quem a fechou — disse Arc. — Somente a mesma assinatura poderá abri-la sem receber a descarga da parede.

Henri e eu observamos a própria mão. A estrutura reconhecera o corpo unido. Nenhum dos dois sabia se, separados, conservaríamos a assinatura necessária ou deixaríamos César preso atrás de uma porta que já não obedeceria a ninguém. Nazer decidiu manter guardas no corredor e renovar a poção antes de qualquer tentativa de interrogatório.

Henri queria aparecer imediatamente diante da população e contar que estava vivo. O desejo chegou acompanhado pelo salão do palácio, pela praça e pelo rosto de Falcão durante cerimônias. Eu devolvi a imagem de César desacordado e da projeção usada para esconder Nazerith. Uma aparição pública entregaria nossa posição antes de sabermos quem ainda seguia o general.

Expusemos a dúvida a Nazer. Ele concordou em esperar o despertar de César e o retorno de Canion. O povo receberia a verdade depois que tivéssemos alguma chance de responder onde estava Nazerith e quem participara do assassinato.

Longe do combate, a simbiose perdeu a divisão simples entre um de nós no corpo e o outro observando. Em certos instantes, meus pensamentos alcançavam o fim antes que Henri percebesse o começo; em outros, uma memória dele ocupava meus olhos e mudava o ritmo da respiração. Eu ainda reconhecia o que vinha de mim, porém já não conseguia decidir o que atravessaria até ele.

Henri encontrou uma página que eu escrevera na Terra. A cena carregava quarto, respiração e mãos que pertenciam a personagens inventados, porém ele a recebeu com a força de uma lembrança corporal. A reação dele devolveu tudo para mim. Durante alguns segundos, recordei o rosto de uma mulher que nunca conhecera e senti a perda de um amor que nunca vivera. As lágrimas chegaram antes que eu conseguisse distinguir ficção, desejo e memória.

Henri não tentou interpretar o que viu. Apenas reconheceu que eu escrevera muitas vezes ao redor de alguma coisa escondida e que a mulher ocupava um espaço antigo demais para ter nascido na página. A observação permaneceu entre nós quando passos apressados desceram a escada.

— Majestade, o Major Canion retornou e está aguardando na sala de reuniões — informou um soldado. — Chegou ferido e sem a equipe que levou na missão.

Nazer avançou para a escada com uma rajada reunida em torno dos braços. A corrente raspou as paredes e fez as formigas-vaga-lume recuarem para os canais.

— Ele vai dizer onde colocou meu irmão, mesmo que eu precise arrancar a resposta.

Seguramos Nazer pela cintura e o tiramos do primeiro degrau. A força veio de Henri; a decisão de não permitir outro ataque veio dos dois.

— Ainda não sabemos o que aconteceu — disse Henri. — Se Canion voltou sozinho e ferido, precisamos ouvi-lo antes de escolher um inimigo.

Nazer soltou o ar que concentrava nas mãos. Pediu que o colocássemos no chão e seguiu para a sala sem esperar o restante do grupo. Arc veio conosco, enquanto Verne permaneceu responsável pela guarda de César.

Canion estava sentado diante da mesa de reuniões. Queimaduras cobriam parte do rosto, dos braços e do peito; a roupa militar tinha cortes e áreas consumidas pelo fogo. Quando nos viu entrar, tentou levantar, mas apoiou novamente as mãos no assento.

Nazer e Arc se posicionaram dos dois lados da porta. Henri manteve o corpo entre eles e o major ferido.

— Apoiei o general porque acreditava que o reino precisava de comando — começou Canion. — Nunca concordei com o assassinato de Falcão e não participei dele.

— Onde está Nazerith, Major Canion? — Nazer mal deixou a última palavra terminar.

— César me ordenou que o levasse ao Castelo das Montanhas do Norte. Ele estava preso por um dispositivo nos braços e atrás da cabeça que bloqueava a manipulação do ar. Eu não conhecia a finalidade da missão nem quem nos receberia.

Nazer apertou a borda da mesa até os dedos perderem a cor. Canion viu a pressão crescer ao redor dele e continuou antes que fosse interrompido.

— Conversamos durante o percurso. Nazerith me contou sobre a morte do rei, a fuga de Henri e o plano de César. Decidi soltá-lo, mas já estávamos perto do castelo. Um grupo nos interceptou. Manipulavam fogo, e eu tentei retirar o oxigênio das chamas. Eles reconstruíram o ar ao redor do ataque e mantiveram o fogo aceso. Usavam os dois elementos com mais força do que eu.

Canion ergueu o braço queimado para mostrar o que restara do confronto. As marcas se fechavam em torno do pulso e avançavam sob o tecido rasgado.

— Se eram superiores, por que deixaram você vivo? — perguntou Henri.

— Alguma coisa os convocou. Pegaram Nazerith e partiram em alta velocidade antes de terminar comigo. Fiquei desacordado e voltei assim que consegui controlar uma corrente.

— Para onde eles levaram meu irmão? — Nazer soltou a mesa e se inclinou sobre Canion.

O alarme do quartel respondeu antes do major. Um toque grave atravessou as paredes, seguido por duas explosões acima do teto. O soldado que nos avisara sobre Canion retornou à porta sem conseguir recuperar o fôlego.

— Guerreiros de fogo cercaram a fortaleza. Já atacam as torres superiores.

— Então não precisaremos procurar muito — disse Henri. O comentário carregava o humor fora de hora que eu reconhecia como meu, e ele percebeu isso junto comigo.

Nazer passou por Canion e alcançou o corredor antes que alguém tentasse detê-lo. O vento das escadas já agitava sua roupa na direção do combate.

— Se você trouxe o inimigo até aqui, voltarei para terminar esta conversa depois de acabar com eles.

— Que energia — murmurou Arc, acompanhando o Mestre. Em seguida, ergueu a voz para os soldados do corredor. — Protejam o rei. Todos os demais, comigo.

Corremos atrás deles. As explosões se repetiam acima das escadas, e o ar quente já descia pelos corredores subterrâneos. Henri preparou nossas mãos para o vento enquanto eu acompanhava as correntes em busca do próximo ataque. Arc queria proteger o rei; nós esperávamos chegar à superfície a tempo de proteger o quartel inteiro.

1/1
Menu

Fazer anotação