A Tentativa de Fuga Liberdade do Vento · Capítulo 24 de 49
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A Tentativa de Fuga

Hagar voltou pelo corredor à esquerda quase ao mesmo tempo que Nerfate surgiu na passagem principal. Bel e Dafa chegaram por uma galeria lateral, trazendo poeira nas roupas e o desconforto de quem havia respirado aquela atmosfera por tempo demais. Krakor permaneceu perto de Freya, atento ao acordo que fizéramos, enquanto Perséfone acompanhava o movimento de todos sem abandonar o ponto de onde podia ver a entrada do Submundo.

— Alguém encontrou uma forma de fechar a passagem caso Hades consiga atravessá-la? — perguntou Hagar, apoiando uma das mãos na parede. — Eu percorri a galeria até onde a rocha se estreita, mas não encontrei mecanismo, porta ou ponto de ruptura que possamos controlar.

— Todos decidiram investigar sem anunciar para onde iam e voltaram por lados diferentes — observou Nerfate, ainda junto à entrada. — Já que sobrevivemos à coincidência, espero que ao menos tenhamos trazido informações que possam ser reunidas.

Bel bateu os nós dos dedos na parede e escutou a resposta da pedra antes de falar. A estrutura devolveu um som curto, sem vibração prolongada, e nem mesmo a força do golpe soltou poeira.

— A atmosfera fica mais densa a cada trecho que avança para o interior. Tentei mover terra, água e os metais que encontrei na rocha, mas tudo oferece resistência. Destruir uma parte da estrutura levaria tempo e energia, enquanto Hades conhece o lugar e teria condições de nos atacar.

Dafa dirigiu-se a Perséfone diante do grupo reunido, mantendo a voz baixa para não transformar a pergunta em acusação.

— Você conhece o modo como ele luta aqui. Até onde chegam o controle dos elementos e as ilusões? Existe alguma limitação que possamos explorar antes que ele atravesse?

Perséfone passou os dedos pela borda da mesa. A pergunta exigia que examinasse o poder do homem que a mantivera presa durante tantos anos, e sua resposta veio sem esperança.

— Dentro de Inc, Hades controla os elementos, entra na mente das pessoas e altera o que elas veem. Eu nunca encontrei um ponto fraco. Ele acredita que nem Elaryan teria poder para enfrentá-lo aqui embaixo.

A frase não comprovava o que Hades dizia a respeito de Elaryan; comprovava apenas quanto tempo Perséfone vivera sob o alcance dele. Eu a observei e pensei em Freya, sentada a poucos passos, depois no jardim impossível escondido dentro de um prédio e na voz de Loki planejando ocupar o lugar de Hades. Contar naquele momento podia lançar Perséfone contra Freya quando ainda dependíamos das duas para defender a entrada. Continuar calado também a mantinha dentro de uma decisão tomada por nós.

Freya percebeu meu olhar e inclinou a cabeça, sem afastar o braço do encosto da cadeira de Perséfone ao seu lado.

— Perdeu alguma coisa nela ou está tentando decidir o que dizer?

Henri conteve a resposta que me veio primeiro. Fenrir sentiu no tom de Freya uma ameaça disfarçada de brincadeira e quis mostrar os dentes, mas o gesto revelaria que havíamos descoberto mais do que ela imaginava.

— Estou tentando entender quanto tempo ainda temos — respondi, virando-me para Hagar. — A passagem não vai permanecer vazia porque estamos discutindo.

Krakor acompanhou minha mudança de posição e se colocou entre Freya e o corredor, sem tornar a vigilância ostensiva. Hagar olhou para Dafa, depois para o ar imóvel que ocupava o salão.

— Você consegue transformar os gases daqui em oxigênio? Se a atmosfera impede o controle dos elementos, mudar sua composição pode retirar a vantagem de Hades.

Dafa abriu as mãos e girou os pulsos devagar. O ar ao redor dos dedos ondulou, embora nenhum vento alcançasse meu rosto.

— Transmutar este volume inteiro exigiria mais energia do que posso sustentar. Separar os gases é possível, desde que encontremos onde armazená-los e alguém mantenha o fluxo durante a troca.

Ela caminhou até um suporte de pedra escavado no chão, largo e profundo, que podia ser fechado com a placa caída ao lado. Eu me aproximei quando pequenas correntes começaram a circular entre os dedos dela. Ao concentrar minha atenção, diferenças antes invisíveis ganharam contornos e cores: faixas amarelas muito densas, manchas azuladas, fios claros e conjuntos escuros que se atravessavam sem se misturar aos meus olhos.

— Você está colorindo o ar? — perguntei, acompanhando uma faixa amarela que Dafa atraía para o suporte.

— A cor é a forma encontrada pela sua percepção para distinguir o que está manipulando — explicou ela. — Os gases não ganharam pigmento. Se você já consegue separar as diferenças, pode aprender a deslocá-las.

Henri examinou os intervalos entre as faixas e começou a classificá-las por repetição, densidade e reação ao movimento de Dafa. Fenrir não via fórmulas, mas reconhecia o que fazia nossos pulmões trabalharem melhor. Ele associou o conjunto claro ao cheiro que conhecera em ambientes abertos e ao alívio que nosso corpo recebia quando o fluxo se aproximava.

— Eu consigo mover o ar, mas nunca trabalhei molécula por molécula — admiti. — Se tentar puxar tudo ao mesmo tempo, vou misturar o que você já separou.

— Não pense em cada molécula — orientou Dafa, conduzindo outra porção amarela para o recipiente. — Encontre um padrão, delimite um volume pequeno e mova o conjunto. Depois repita sem perder a fronteira.

Henri assumiu a classificação. Ele reuniu as cores em grupos, identificou quais respondiam juntas e calculou o espaço necessário para que uma camada não invadisse a outra. Eu mantive as correntes em movimento e corrigi o percurso quando encontravam paredes, pessoas ou desníveis do chão. Fenrir acompanhou nosso pulso e a expansão dos pulmões, reduzindo a força sempre que a pressão dentro do peito subia depressa demais.

— O conjunto que respiramos melhor está se dispersando perto da parede — avisou Henri por nossa voz. — Dafa, mantenha o gás amarelo no recipiente. Magno, feche o fluxo claro numa faixa entre a coluna e a mesa.

Obedeci sem disputar o comando. A faixa clara se comprimiu no espaço indicado, enquanto as outras cores contornavam seus limites. Pela primeira vez desde nossa união, cada um dos três executava uma parte diferente da mesma tarefa sem tentar dominar o corpo inteiro.

Hagar observou a separação e apontou para o recipiente junto ao chão do salão, onde Dafa concentrava o gás mais denso.

— A transmutação continua inviável mesmo depois que ele estiver isolado?

— Posso transformar pequenas quantidades — respondeu Dafa, vedando o suporte com uma camada de ar comprimido antes que Bel deslizasse a placa de pedra. — Fazer isso em toda a caverna me deixaria inconsciente antes de completar uma galeria. Separar e substituir consome menos.

— Então precisamos de uma área de teste, não do salão inteiro — decidiu Hagar. — Isolem oxigênio suficiente para eu verificar se os elementos voltam a responder.

Dafa manteve o gás amarelo preso, enquanto Henri ampliava a classificação para os conjuntos que ainda ocupavam o salão. Eu havia começado com a intenção de limpar apenas a faixa entre a coluna e a mesa, porém a corrente encontrava continuidade em todas as direções. Cada grupo revelava outro limite, depois outro, e a lógica de Henri transformava o emaranhado em regiões que eu conseguia conduzir. Fenrir passou a marcar o ritmo pela respiração: puxar, conter, deslocar, soltar.

As vozes ao redor perderam importância durante alguns minutos. Meus braços acompanhavam os fluxos para que o corpo ajudasse a sustentar a direção, e Dafa corrigia uma fronteira sempre que duas camadas ameaçavam se misturar. Quando Henri pediu que eu interrompesse o movimento, obedeci e recuperei a percepção do salão.

O ar estava dividido em grandes faixas transparentes para todos os outros, mas coloridas para nós. Dafa permanecia junto ao recipiente vedado, olhando para o resultado com um espanto que não escondia.

— Eu separei um dos gases e vocês organizaram todo o volume disponível — disse ela. — Henri encontrou as proporções, Magno sustentou as correntes e Fenrir impediu que o corpo desmaiasse. Não tentem repetir nessa escala sem controlar a respiração.

— Espantoso, e pela primeira vez não preciso fingir que entendi — comentou Krakor, afastando-se de uma das faixas quando Dafa indicou que aquele gás era impróprio para respirar.

Dafa guiou Hagar até a região clara que havíamos isolado. Ele ergueu a mão e produziu uma chama pequena na ponta dos dedos. Em seguida, soltou uma descarga elétrica entre as palmas e reuniu um volume de água que caiu no chão. Perséfone se levantou; Freya perdeu por um instante a segurança com que acompanhava a reunião.

— Aqui os elementos respondem — confirmou Hagar, apagando a chama. — Se substituirmos a atmosfera de Inc por oxigênio vindo de fora, retiramos a limitação que protege Hades.

Henri refez os cálculos a partir do volume separado. Introduzir oxigênio sem retirar a mesma quantidade aumentaria a pressão e poderia empurrar os gases densos para corredores ocupados. Dafa concordou com a proporção e marcou duas correntes opostas: uma entrando pela passagem, outra saindo para a superfície.

— Magno e Henri trazem o oxigênio — determinou Hagar. — Dafa remove os gases daqui no mesmo ritmo. Nerfate fica na entrada e transmite qualquer mudança entre os dois lados. Bel, preserve os recipientes e impeça que alguém atravesse as faixas erradas.

Saímos com Nerfate. No caminho, toquei as marcas que havíamos deixado nas paredes durante a investigação anterior e pedi a Henri que contasse as curvas. O cheiro da pedra, a distância dos passos e a posição das ranhuras coincidiam; até ali, nenhuma alteração de Loki alcançara a passagem.

Do lado de fora, o ar abriu nossos pulmões sem esforço. Henri identificou o conjunto que Dafa isolara e calculou o volume inicial, enquanto eu reuni uma corrente larga diante da entrada. Fenrir sentiu a quantidade excessiva antes que a pressão se tornasse perigosa e nos fez reduzir o fluxo.

— Agora — avisou Nerfate, levando a voz para o interior por uma corrente estreita.

Empurrei o oxigênio pela passagem. A resistência diminuiu à medida que Dafa retirava outro volume no sentido contrário, e Henri corrigia as proporções sempre que uma das correntes acelerava. O processo ganhou regularidade: Nerfate sinalizava, Fenrir controlava nosso corpo, Henri media e eu conduzia. O ar de Inc começou a perder o cheiro metálico e a pressão que comprimia o peito.

Uma vibração percorreu o chão. Fenrir a sentiu antes que o ruído alcançasse a entrada, um impacto seguido por descargas que fizeram a rocha iluminar-se em intervalos. A corrente de oxigênio encontrou uma força contrária e se desfez.

— Dafa interrompeu a retirada — informou Nerfate. — Há combate no salão.

Corremos para dentro. Raios cortavam os corredores e atingiam as paredes sem abrir rachaduras, mas os clarões revelavam marcas recentes no chão. O ar alterado permitia que forças antes contidas se chocassem por toda a estrutura. Quando alcançamos o salão principal, a batalha já terminara.

Hades estava de joelhos, ferido e imobilizado por faixas de matéria escura junto aos braços. Hagar, Krakor, Dafa e Bel mantinham o círculo mais próximo; Perséfone e Freya permaneciam atrás deles. Um segundo grupo ocupava a região diante da passagem aberta: Athos protegia Silency e Sussurro, enquanto Trovar, Drácula e Athena observavam Hades. Lúcifer mantinha uma chama concentrada na mão. Mais afastado, um homem de corpo imenso e cabelos longos segurava uma arma manchada pela luta.

Fenrir reconheceu Odin antes que eu concluísse a identificação. A alegria dele atravessou nossos músculos com violência, seguida pelo impulso de romper nossa união e correr para o primeiro Alfa. Nossos pés avançaram um passo sem minha ordem.

— Ele voltou — disse Fenrir por nossa boca. — Odin voltou, e eu ainda pertenço à alcateia que ele conduziu.

Henri não tentou aprisioná-lo. Abriu espaço dentro de nós para que a decisão não fosse confundida com qualquer forma de obediência.

— Você pode ir até ele — respondeu Henri. — Mas escolha entre a vida que recorda e a vida que construiu conosco. Não permaneça por dívida, poder ou elogio.

Odin virou o rosto em nossa direção. A lembrança que Fenrir guardava dele tinha cheiro, voz e autoridade; o homem diante de nós carregava tudo isso, além de marcas que aquela memória não conhecia. Fenrir observou nossas mãos, sentiu a respiração ainda descompassada pela troca do ar e revisitou as escolhas feitas desde que dividira o corpo conosco.

— Quero falar com ele — declarou Fenrir. — Não quero voltar a ser apenas o que fui.

O impulso de separação cedeu, e ele permaneceu. Aproximamo-nos do círculo sem esconder a presença de Odin nem transformar sua escolha numa vitória minha.

Hagar avançou até encobrir Perséfone do campo de visão de Hades, apontou para ela e exigiu que o prisioneiro a libertasse.

— Retire o vínculo que a prende a este lugar. Você perdeu a passagem, perdeu a vantagem do ar e não possui mais condição de mantê-la aqui.

Mesmo ferido e preso pelas faixas escuras, Hades ergueu o rosto e examinou as pessoas ao redor com um desprezo ainda intacto.

— Ainda que eu quisesse ajudar, vovô, não conseguiria. Outra pessoa criou o vínculo de Perséfone. Tenho tanto poder para rompê-lo quanto qualquer um de vocês.

Athena avançou um passo para dentro do círculo, e Perséfone levou a mão à boca quando finalmente a reconheceu entre os recém-chegados.

— Quem criou o vínculo? — perguntou Athena. — Diga quem pode desfazê-lo.

— Athena, me desculpe por tudo — pediu Perséfone, com lágrimas descendo pelo rosto. — Eu deveria ter compreendido o que ele fazia conosco.

Athena atravessou o círculo e a abraçou imediatamente. Perséfone se agarrou a ela, enquanto Hades começou a bater palmas devagar.

— Que reencontro comovente. Ninguém diria que a ideia de chantagear Athena partiu de você, Perséfone.

Athena se afastou apenas o necessário para encará-lo, mantendo uma das mãos firme no braço de Perséfone durante toda a resposta.

— Eu conheci a influência que você exerce sobre alguém até essa pessoa deixar de reconhecer as próprias decisões. Agora responda: quem mantém Perséfone presa?

— E se eu não responder, vai me matar?

Silency passou por Athos, entrou no espaço mantido pelos outros e se abaixou diante de Hades sem pedir autorização a ninguém.

— Tenho opções mais demoradas do que matar você.

Ela encostou dois dedos na testa dele. Hades ficou imóvel, mas seu coração golpeou o peito com força suficiente para ser ouvido por Fenrir. As veias do pescoço se elevaram, os olhos perderam o foco e o terror contraiu cada músculo de seu rosto. Quando Silency retirou a mão, ele puxou o ar repetidas vezes e tentou recuar, impedido pelas faixas que o prendiam.

— O que você fez comigo? — perguntou Hades, sem recuperar o controle da voz. — Que técnica foi essa?

— Observei de perto a maneira como você invade a mente e reproduzi o percurso — explicou Silency. — Você depende das moléculas de zenti espalhadas no ar. Eu uso elementos presentes no meu próprio corpo. Posso continuar enquanto você preferir esconder a resposta.

Athos olhou para ela com orgulho, admiração e surpresa reunidos no mesmo silêncio. Hades acompanhou aquele olhar, depois examinou o ar que já não obedecia às condições mantidas por ele.

— Existe alguém escondido em Inc por Elaryan — revelou. — Essa pessoa possui poderes próximos dos seus e mantém o vínculo de Perséfone. Sustentar o feitiço limita o restante do poder dela. Elaryan prometeu libertá-la no momento certo, assim como prometeu que eu deixaria este lugar.

Henri ligou a revelação à estrutura de ilusões no centro. Eu pensei no nome pronunciado por Freya, mas Hades não confirmara que Loki era o responsável pelo vínculo nem explicara que espécie de prisão o mantinha. Krakor encontrou meu olhar e entendeu que a informação reduzia o tempo de nosso silêncio.

— Diga onde essa pessoa está — exigiu Hagar. — E mantenha as duas mãos onde possamos vê-las.

Hades abaixou o rosto. Um sorriso curto surgiu enquanto o indicador esquerdo pressionava a pedra do anel. Fenrir percebeu o movimento, mas o aviso saiu junto ao rompimento do espaço atrás dele.

— O anel! Segurem a mão esquerda dele! — gritei, avançando para o círculo.

Um portal se abriu atrás de Hades e um homem armado com um tridente atravessou a passagem. Athena reconheceu-o antes de todos nós.

— Poseidon! Afaste-se de Silency e mantenha as mãos visíveis!

Poseidon enterrou o tridente no corpo de Silency antes que Athos alcançasse os dois. Puxou-a contra o próprio peito e usou-a para bloquear qualquer ataque. Com a outra mão, agarrou Hades pelas faixas que ainda o prendiam.

— Ótima ideia mudar os ares do Submundo — disse Poseidon, recuando para o portal. — Eu nunca poderia abrir uma passagem aqui antes.

Athos tentou contornar Silency, mas a ponta da arma aprofundou o ferimento quando ele se aproximou. Poseidon arrastou Hades para o outro lado, levando Silency como escudo. O portal se fechou diante das mãos de Athos, e o salão ficou com o ar que havíamos libertado, o sangue dela no chão e nenhum caminho aberto para segui-los.

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