O Planeta Inc Liberdade do Vento · Capítulo 19 de 49
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O Planeta Inc

A claridade do portal terminou debaixo dos meus pés. Caí com os braços abertos, procurando uma corrente de ar que meu corpo separado ainda não sabia sustentar. Henri despencava alguns metros à direita; Dafa, Nerfate e Krakor já controlavam a própria descida, enquanto Hagar girava para nos alcançar. Acima de todos, a passagem se fechou sem que Athos atravessasse.

O chão estava longe o bastante para lembrar os últimos andares de um prédio. Hagar lançou uma corrente de ar sob Henri e depois sob mim. A atmosfera respondeu com pouca força, mas reduziu nossa velocidade. Antes que qualquer um tocasse o solo, uma descarga azul atravessou o campo e atingiu o grupo inteiro.

Perdi o controle do corpo e fui arremessado contra uma faixa de terra queimada. Henri caiu perto de mim. O gosto de metal cobriu minha língua, meus braços recusaram movimento por alguns segundos e a luz branca que vinha do céu desenhou sombras duras ao redor de centenas de pessoas armadas.

No centro do campo, uma mulher defendia-se com uma lâmina curva presa a um cabo circular. Ela girava a arma ao redor do corpo, desviava lanças e lançava descargas contra os adversários que fechavam o cerco. A armadura estava quebrada sobre um dos ombros, e sangue escorria por baixo da proteção.

— Bel, abaixe-se e deixe uma passagem livre até nós! — gritou Dafa.

A mulher respondeu ao nome e lançou a arma rente ao chão. O círculo cortante obrigou os combatentes a recuar, abriu uma faixa entre os dois grupos e voltou para a mão de Bel. Ela respirou pela boca antes de responder.

— Dafa, o sinal alcançou vocês. Eu já estava sem força para tentar outra vez.

Os guerreiros próximos deixaram de olhar para Bel. Cabeças se ergueram uma depois da outra, todas voltadas para a mesma região do céu. A luz branca aumentou sobre o campo e revelou uma lua gigantesca, ocupando tanto espaço acima de nós que consegui distinguir manchas, fendas e relevos em sua superfície.

O primeiro uivo veio da fileira diante de Bel. Outros responderam até que o som cobriu o ruído das armas. Ombros alargaram-se, mãos tocaram o chão e as armaduras locais se abriram para corpos que cresciam por dentro delas. Focinhos, pelos e garras surgiram sem apagar os olhos atentos que continuavam acompanhando nossa posição.

Minha lembrança terrestre ofereceu um nome antes de qualquer certeza: lobisomens. Henri olhou para mim do corpo dele e estendeu a mão. O golpe elétrico ainda prendia parte dos meus músculos, mas consegui alcançar seus dedos.

— Precisamos voltar a lutar juntos, Magno. Não dominamos este lugar separados.

— Vamos nos unir. As lembranças de Ilana também estarão lá quando entrar.

— Eu não vou procurar por elas enquanto você não quiser compartilhá-las.

Aceitamos a união no mesmo instante. O corpo de Henri se desfez numa corrente de ar e entrou no meu. A coluna se endireitou, a respiração ganhou outro ritmo e o campo passou a chegar por duas percepções organizadas na mesma mente. As lembranças recuperadas no vale abriram-se perto dele, disponíveis, mas Henri manteve a atenção nos lobos que avançavam.

Dafa, Hagar, Nerfate e Krakor fecharam uma formação ao redor de Bel e de nós. As roupas mudaram sobre seus corpos, formando armaduras de materiais distintos, e cada um criou uma arma. Dafa sustentava duas lâminas curtas; Hagar ergueu uma espada larga; Nerfate abriu um conjunto articulado de cortes; Krakor usou uma lança com duas pontas.

Hagar tentou levantar os primeiros atacantes com o ar. Produziu apenas uma rajada que moveu pelos e poeira. Krakor lançou fogo pela extremidade da lança, mas a chama morreu a poucos centímetros do metal. Os lobos atingiram a formação logo depois, alternando saltos altos e investidas rente ao chão.

Bel girou a arma contra o peito de um deles. O impacto derrubaria uma parede, mas a lâmina deslizou sobre a pele sem abrir corte. Hagar acertou outro no ombro com a espada e recebeu uma reação semelhante. As garras do adversário atingiram sua armadura e arrancaram três placas.

— O ar deste planeta quase não sustenta oxigênio — avisou Bel, recuando para o centro. — Existe outra substância em concentração muito maior. Consegui produzir o sinal apenas depois de reunir ar de uma área enorme e separar o que precisava. Gastei quase tudo.

— Então nossos poderes não desapareceram; falta matéria para alimentá-los — respondeu Dafa. — Lutem com o que já está nas mãos e não desperdicem energia tentando criar mais.

Nerfate prendeu o braço de um lobo entre as lâminas articuladas. O metal fechou com força, mas não atravessou a pele. Krakor acertou o mesmo adversário com a haste da lança e o afastou. Ele caiu, rolou sobre o ombro intacto e retornou à formação local sem qualquer sinal de desorientação.

Os habitantes não atacavam ao acaso. Três mantinham Bel ocupada, outros testavam as laterais e uma fileira permanecia atrás, protegendo um lobo maior que ainda conservava parte da forma humana. Quando alguém da frente recuava, outro assumia seu lugar. A transformação aumentara a agressividade, mas preservara comando e estratégia.

Henri procurou em nossas lembranças compartilhadas uma arma que não dependesse do ar. Filmes, livros e conversas da Terra trouxeram prata, fogo, plantas, água consagrada e dezenas de regras incompatíveis. Ele interrompeu a busca antes de entrar nas imagens recentes de Ilana.

— Posso continuar procurando nas histórias que você conheceu? — perguntou Henri dentro de nós. — Preciso separar o que se repetia do que cada autor inventou.

— Pode procurar essa parte. As lembranças de Ilana ficam fora por enquanto.

A prata aparecia com mais frequência, embora nenhuma recordação oferecesse motivo para funcionar num planeta real. Era uma hipótese construída por ficção humana sobre criaturas que eu nunca acreditara existirem. Ainda assim, a espada de Hagar falhara, e cada segundo sem alternativa diminuía a formação.

— Tentem prata numa única arma — gritei. — Na Terra, ela aparecia em histórias sobre criaturas iguais a essas. Eu não sei se funciona aqui.

Hagar bloqueou duas garras com a espada e quase perdeu o equilíbrio. Dafa ouviu o aviso, transformou a lâmina da mão esquerda e esperou o próximo ataque. Quando um lobo saltou, ela desviou do corpo e cortou a lateral da perna dele.

O metal abriu a pele. O lobo caiu com um uivo curto, e sangue escuro alcançou o chão. Antes que Dafa pudesse repetir o golpe, o ferimento se fechou sob uma camada brilhante e o adversário voltou a apoiar a perna. A prata rompia alguma proteção, mas o efeito durava pouco.

— A hipótese corta, porém não resolve — disse Dafa. — Transformem as armas e procurem impedir o movimento antes da regeneração.

As lâminas mudaram de cor. Hagar feriu o braço de outro atacante; Krakor atravessou uma coxa; Nerfate separou uma das garras que tentava alcançar Bel. Os lobos recuaram pela primeira vez, arrastando os feridos para trás enquanto a carne recuperava forma.

Um deles permaneceu preso entre as lâminas de Nerfate. Ela fechou a arma sobre o pescoço, e o corpo desapareceu depois que a cabeça tocou o chão. A perda abriu silêncio entre os combatentes. Os lobos abandonaram a investida e formaram um círculo mais largo ao nosso redor.

— Eles sabiam que a prata atravessaria a pele — informou Nerfate, pressionando os dedos contra a têmpora. — O medo veio antes do primeiro corte. Há pensamentos demais e alguns se contradizem, mas todos conhecem uma mudança produzida pela luz da lua.

— A pele fica muito mais resistente durante a aproximação — acrescentou Bel. — Eu os enfrentei antes do anoitecer e ainda conseguia feri-los com a arma. Quando a lua subiu, os golpes deixaram de entrar.

Hagar pediu que Nerfate procurasse imagens concretas em vez de explicações. Ela fechou os olhos por alguns segundos e encontrou lembranças de rituais, objetos de prata mantidos longe das casas e habitantes expondo o corpo à luz branca. Ninguém ao redor conhecia fórmulas ou nomes para as substâncias envolvidas; sabiam apenas quais condições produziam a transformação e o que temiam durante ela.

— A luz transporta alguma coisa que reage com a pele e com os lobos unidos a eles — concluiu Nerfate. — A prata interrompe essa reação onde toca, mas a luz continua refazendo a proteção. A explicação termina aí; o restante são crenças deles.

— É suficiente para não morrermos no próximo ataque — respondeu Hagar. — Bel, consegue repetir o sinal para Athos?

Bel tentou reunir ar sobre a palma. Uma esfera pequena surgiu, perdeu estabilidade e se desfez. Nerfate somou sua força, mas a coluna luminosa alcançou apenas alguns metros antes de apagar. O planeta impunha o mesmo limite às duas.

— Preciso de tempo para recuperar energia e separar o ar necessário — disse Bel. — Durante a primeira tentativa, eles me encontraram antes que eu terminasse. O sinal saiu, mas trouxe todos até aqui.

As bordas da lua escureceram sob nuvens que cresciam depressa. Eletricidade percorreu o céu sem produzir trovão, e os pelos dos lobos se levantaram. O círculo recuou mais alguns passos. Nenhum deles fugiu; estavam abrindo espaço para o que viria.

— Por que você se tornou alvo de todos eles? — perguntou Krakor. — Seu sinal não explica esse cerco inteiro.

— Eles atacam quem nasceu fora de Inc — respondeu Bel. — A lua se aproxima deste planeta em intervalos longos, e a transformação torna essa reação mais forte. Continuam pensando, falando e organizando ataques, mas a presença de um estrangeiro vira uma ameaça que precisam eliminar. Foi o que consegui compreender desde que cheguei.

Uma descarga desceu das nuvens e atingiu as armas de prata. O metal brilhou nas mãos do grupo, e a eletricidade atravessou as armaduras. Hagar caiu sobre um joelho. Dafa perdeu uma das lâminas; Krakor fincou a lança no solo para não ser arremessado.

Os lobos avançaram junto com o segundo raio. A pele deles agora emitia reflexos brancos, e a prata encontrava maior resistência antes de abrir cortes. Os ferimentos fechavam ainda durante o movimento. Nerfate perdeu parte da proteção do braço, Bel recebeu uma garra nas costas e Hagar foi derrubado por dois atacantes.

Henri e eu tentamos erguer ar ao redor do grupo, mas produzimos somente uma faixa estreita, útil para desviar o rosto de um lobo. Não tínhamos arma. Permanecemos atrás de Dafa até perceber que os atacantes passavam por nós para alcançar quem segurava metal.

— Eles não estão nos ignorando — pensei. — Estão eliminando primeiro quem consegue feri-los.

— Isso significa que ainda escolhem alvos — respondeu Henri. — Há disciplina mesmo durante a transformação.

Observei o círculo por trás da luta. Os lobos feridos retornavam ao fundo, os recuperados ocupavam a frente e todos deixavam livre uma faixa diante do maior deles. Uma ordem curta, emitida num rosnado, interrompeu três ataques ao mesmo tempo. A criatura no centro comandava a substituição.

As lembranças da Terra trouxeram outra regra recorrente: alcateias submetidas a um Alfa e disputas individuais capazes de transferir comando. A ideia vinha de histórias tão contraditórias quanto as da prata, mas o campo oferecia sinais que a primeira hipótese não tivera. Eles protegiam um líder, obedeciam à voz dele e aguardavam suas ordens mesmo com a agressividade ampliada.

— Se houver um desafio reconhecido, podemos interromper o ataque coletivo — pensei.

— Ou fazer todos nos atacarem ao mesmo tempo por uma ofensa — respondeu Henri. — Ainda assim, Hagar não vai resistir a outra investida dessas.

Bel tentou alcançar Hagar e recebeu uma mordida na proteção do ombro. Dafa abriu espaço com as duas lâminas, mas três lobos já substituíam o que ela afastava. A prata comprava segundos e consumia força demais.

— Se aceitarem, enfrentaremos um deles — decidi. — Se recusarem, já estamos cercados. Você concorda?

— Concordo com a tentativa. Grite antes que o comandante dê outra ordem.

Enchi os pulmões com o pouco ar disponível e avancei desarmado para fora da formação. Um lobo virou-se para mim, mas parou quando ergui as mãos vazias. O maior continuava atrás da primeira fileira, acompanhando cada passo.

— Eu desafio o Alfa desta alcateia para um combate diante de todos vocês!

Os ataques cessaram. Um lobo ainda segurava Hagar contra o chão, outro mantinha as garras sobre a armadura de Bel, porém nenhum completou o golpe. A eletricidade continuou percorrendo as nuvens, e o campo inteiro esperou.

— Repita o desafio olhando para aquele que pretende enfrentar — orientou uma voz grave no centro do círculo.

O maior dos lobos abriu caminho entre os demais. Tinha quase o dobro da minha altura, uma cicatriz antiga atravessava o focinho e a proteção da lua corria sobre sua pele em linhas brancas. Os outros abaixaram as armas quando ele passou.

— Eu desafio você, Alfa, e exijo que sua alcateia interrompa o ataque enquanto lutamos.

— Seu pedido diverte até quem veio matar — respondeu ele. — Ainda assim, foi feito diante da alcateia e obedece à nossa lei. Prepare-se para descobrir quanto tempo sua coragem dura sem os companheiros.

O Alfa ordenou que os lobos libertassem Hagar e recuassem. Depois apontou para mim, confirmou que voltaria com as armas do combate e atravessou o círculo sob a lua. Henri permaneceu unido a mim enquanto os demais abriam espaço, e nenhum de nós fingiu que a pausa significava sobrevivência.

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