A Morte
O céu piscou, e a luz atravessou as nuvens em uma camada única, sem trovão, sem explosão e sem direção visível. Por um instante, todo o vale ganhou contorno branco: lobos imóveis, vampiros imóveis, Guardiões feridos, Lavigne com o rosto levantado e Lúcifer olhando para cima com a Fênix recolhida demais para uma cena tão grande.
Ninguém perguntou o que tinha acontecido. A resposta chegou ao corpo antes de chegar à linguagem. O espaço ao redor do planeta mudara de textura, fechado por algo que não víamos, mas que o sangue, o vento e a adaga reconheceram de imediato. A redoma estava completa.
Henri sentiu comigo o puxão da lembrança. Moisés. A caverna. As correntes. A promessa de liberdade depois da missão. Se o campo tinha sido fechado, o homem preso podia ter sido libertado, removido, consumido pelo próprio vínculo ou levado por Elaryan para outra parte do plano.
— Preciso ver a caverna — eu disse.
Lúcifer não discutiu. Lavigne também não. Ela apenas assentiu, e aquele gesto me entregou uma autorização que doeu mais que qualquer pergunta. Os Guardiões sabiam que cada segundo de espera custava, mas também sabiam que matar depois de uma dúvida dessas podia quebrar o pouco que ainda restava de escolha em nós.
Abri a adaga dupla e deixei o corte de espaço me levar de volta à câmara. A passagem me devolveu o frio úmido, o cheiro de pedra e o tronco vertical onde Moisés estivera preso. As correntes ainda estavam ali, pendendo abertas, sem corpo entre elas. O metal guardava calor recente.
Toquei o tronco com a ponta dos dedos. Havia sangue seco, marcas de luz nas fibras queimadas e um vazio limpo, pior que encontrar um cadáver. Moisés tinha estado ali havia minutos. Agora faltavam respiração, pulso, nome e resposta.
— Moisés? — chamei, sabendo que a caverna não devolveria nada além de eco.
Henri permaneceu comigo nesse eco. Ele não tentou transformar ausência em consolo. O que havia acabado de acontecer podia ser liberdade, captura, deslocamento ou morte. O único fato útil era o mais frio: Moisés não estava mais ali, e a redoma terminara mesmo assim.
Voltei ao vale pelo mesmo corte. A luz do céu ainda guardava um resíduo pálido, e os corpos continuavam parados sob as ordens anteriores. Lúcifer me encontrou antes que eu dissesse qualquer coisa.
— Ele se foi? — perguntou, olhando para a adaga antes de olhar para mim.
— Sim — respondi. — As correntes estão vazias. O campo fechou.
Lúcifer fechou os olhos por um segundo. Quando abriu, alívio nenhum atravessava o rosto dele. A frase veio pesada, sem teatro, conclusão que ninguém queria assinar.
— Então deve ser a hora da morte.
Lavigne ouviu e não desviou. Os outros Guardiões também não. Alguns estavam chorando em silêncio; outros sustentavam uma calma que vinha de terem passado tempo demais sendo tratados como fonte de sangue. Drácula continuava imóvel. Os lobos continuavam imóveis. O vale inteiro esperava uma ordem final.
— Se houver alguém consciente ali dentro, eu vou matar essa pessoa junto — eu disse. — Não quero que isso vire uma frase bonita depois. Não quero que ninguém chame de misericórdia sem engasgar.
— Chame de interrupção — Lavigne respondeu. — Chame de fracasso. Chame do que conseguir suportar. Só não chame de espera, porque esperar é o que vai devolver esses corpos à fome assim que vocês perderem o controle.
Henri respirou dentro de mim, fundo e dolorido. Ele não estava separado da decisão; esse era o pior conforto e a pior condenação. Se eu levantasse a Vajra, levantaríamos juntos. Se eu abrisse o peito depois, abriríamos juntos.
— E vocês? — perguntei aos Guardiões. — Se eu fizer isso, vocês entram junto.
Lavigne olhou para os demais. Ninguém respondeu rápido. Um dos Guardiões apoiados nela fechou os olhos e assentiu. Outro beijou os próprios dedos e tocou o chão. A resposta se formou sem solenidade, em pequenos gestos cansados.
— Nós já estamos dentro — Lavigne disse. — E, se renascermos, prefiro renascer sem ter sido transformada em estoque até o último segundo.
Lúcifer segurou a espada com as duas mãos. O dragão dele queria alguma coisa, a Fênix queria outra, e o homem entre os dois pareceu pela primeira vez mais velho que qualquer mito preso ao nome dele.
— Eu posso ajudar — ele disse. — Posso queimar uma parte.
— Não — respondi. — Se eu dividir a execução, dividimos também as falhas. A Vajra alcança o vale inteiro de uma vez. Preciso que você veja se alguém escapa, e preciso que conte depois, se eu não conseguir lembrar direito.
Ele não gostou da tarefa e assentiu por causa disso. O vento me levou acima da encosta, acima da caverna distante, acima do vale que ainda carregava todos os nomes que eu não conseguiria repetir. A cada metro, a cena ficava menor, mas não mais leve. De cima, o horror podia até ganhar aparência de desenho. O corpo sabia a diferença.
Puxei a Vajra. O metal redondo pesou na mão com uma precisão que me fez lembrar o dia em que Elaryan o entregara. Eu odiei esse pensamento. Odiava imaginar qualquer arma satisfeita com seu encaixe numa tragédia.
Henri segurou comigo. Fenrir recuou, não submisso, mas atento. Suzaku queimou baixo, concentrado. A simbiose manteve nosso braço firme quando minha vontade tentou tremer. Lá embaixo, Lavigne levantou o rosto uma última vez.
— Não pense em limpar nada — Henri disse dentro de mim. — Só termine.
Concentrei tudo que ainda conseguia chamar de energia. O raio não veio imediatamente. Primeiro houve pressão, um acúmulo branco no artefato, uma dor subindo pelo braço e entrando no peito. Depois o céu respondeu.
A descarga desceu pela Vajra e atravessou meu corpo antes de atingir o vale. Por um instante, senti cada direção ao mesmo tempo: pedra, lama, sangue, dente, asa, corrente vazia, redoma fechada. Então a luz caiu.
O raio atingiu o solo como uma coluna única e se abriu em veias luminosas por todo o vale. Aquilo não tinha natureza de fogo comum, nem de tempestade. Era uma ordem elétrica grande demais para distinguir corpo de corpo. Lobos, vampiros, Guardiões, Drácula, sangue e lama desapareceram dentro da claridade.
Eu mantive a Vajra erguida até o último movimento cessar no vale e a luz parar de procurar algum corpo restante.
Quando a luz recuou, o vale tinha perdido sua voz. Havia fumaça baixa, pedra vitrificada em alguns pontos e marcas negras onde antes havia gente. O silêncio não corrigiu nada. Apenas mostrou a forma do que eu tinha feito sem o barulho tentando disputar atenção.
Lúcifer permanecia em pé na encosta. Mesmo de longe, vi que ele não comemorava. A espada estava abaixada. As asas da Fênix tinham sumido. Ele ficou pequeno diante da extensão do vale, e isso me assustou mais que vê-lo enorme.
Meu braço caiu. A Vajra ainda brilhava, mas a decisão seguinte já estava antes dela. Drácula falara em morte para renascer dentro daquele sistema. Lavigne aceitara a morte por não ver outra saída. Paole morrera para não alimentar o vale. Eu não podia permanecer acima de todos como executor intacto.
— Magno — Henri disse, e havia medo na voz dele.
— Eu sei — respondi. — Se você disser não, eu paro.
Henri demorou, e esse intervalo foi o último lugar onde ainda existia escolha antes que o corpo obedecesse ao que ambos já sabíamos.
— Não digo não — ele respondeu. — Só queria que alguma parte nossa ainda pudesse.
Guardei a Vajra e peguei a adaga dupla. O metal reconheceu minha mão sem resistência. Por um segundo, pensei no mar de Emma, no sangue de André, em Moisés sem corrente, em Lavigne olhando para cima. Depois parei de procurar imagens que tornassem o gesto mais suportável.
Encostei a lâmina no próprio peito e senti a pele reconhecer o frio antes que a coragem terminasse de se desfazer.
Não pedi perdão ao céu. Não pedi absolvição a Elaryan, aos mortos, a Henri ou a mim. Empurrei a adaga para dentro antes que a coragem mudasse de nome e virasse atraso.