Sede
O vale continuava se mexendo debaixo de nós, uma massa de corpos presos a dentes, unhas, bocas abertas e sangue fresco. Eu ainda tentava entender onde terminava a guerra e onde começava aquilo que usava a guerra por dentro quando um jato vermelho subiu de uma das mordidas, fino no começo, depois aberto em gotas espalhadas pelo ar.
Parte do sangue atingiu Drácula no rosto antes que qualquer um de nós se afastasse. Ele fechou os olhos, o corpo inteiro contraiu e a mão foi à boca num gesto que tentou ser controle por menos de um segundo. A tentativa acabou antes de virar decisão. Drácula mergulhou no vale, retomando asas no meio da queda, e caiu sobre o primeiro vampiro que encontrou.
Fenrir acordou dentro de mim com a mesma violência. A fome não vinha como desejo comum, nem como vontade de lutar, mas como uma ordem antiga, simples, agressiva. Sangue. O pensamento não precisava de frase. Suzaku respondeu com calor nas costelas, subindo pelo peito até a garganta, e Henri segurou o comando do corpo junto comigo, travando nossos dedos antes que a mão procurasse o caminho da descida.
— Minha nossa, o que é isso? — Lúcifer disse ao meu lado, a voz apertada entre fascínio e nojo. — Só a Fênix está conseguindo me manter no lugar. É instintivo.
Ele lambeu os lábios e pareceu odiar a própria boca por ter feito isso. A honestidade daquele gesto me ajudou mais que qualquer conselho. Lúcifer também estava sendo puxado. O sangue não escolhia inimigo, aliado, rei ou testemunha.
— Tenho um lobo dentro de mim — respondi, forçando o ar a circular contra meu rosto. — Na verdade, o Lobo Alfa. A sede dele está respondendo ao vale inteiro. Suzaku e a simbiose estão segurando, mas não quero testar quanto tempo isso dura. Precisamos subir.
Henri moveu as asas antes do fim da fala. Lúcifer veio conosco, mais alto, deixando o vale abaixo e Drácula perdido dentro dele. O ar frio acima das copas ajudou um pouco. Fenrir continuava empurrando, mas a distância transformava a ordem em ruído, e o calor de Suzaku conseguia manter esse ruído longe das mãos.
— O que fazemos? — Lúcifer perguntou, ainda olhando para baixo apesar da própria fome.
— Ainda não sei — respondi, tentando encontrar alguma forma de separar os nossos sem alimentar a própria fome que os dominava. — O homem que veio com as ordens também caiu lá. Se Drácula não resistiu, qualquer plano que dependesse dele acabou de entrar no vale.
Foi quando vi Paole. Ele não estava mordendo ninguém. Voava baixo, irregular, com dois cortes nas costas e a roupa rasgada por mãos que tentavam alcançá-lo. Atrás dele vinha um grupo de vampiros e lobos, não organizados como caçadores, mas puxados pelo cheiro de sangue que escorria dele.
— Paole! — gritei, usando o vento para levar o nome até ele antes dos perseguidores.
Ele olhou para cima e mudou a rota no mesmo instante. A subida dele atraiu mais perseguidores, e a massa que vinha atrás se abriu em asas, saltos, mãos e dentes. Lúcifer me olhou de lado, já entendendo a escolha antes que eu dissesse. Descemos juntos.
Usei o vento primeiro, não para matar, mas para quebrar o avanço dos mais próximos e empurrar Paole para trás de nós. Lúcifer abriu fogo em arcos curtos, queimando o suficiente para afastar sem deixar sangue novo subir até nosso rosto. Por alguns segundos funcionou. Paole atravessou a linha entre nós dois, passou arfando, e o grupo que o perseguia perdeu coesão.
Depois vieram mais. Lobos da nossa cidade, vampiros de Dracs, vampiros de Carmilla, todos misturados pelo mesmo impulso. A ideia de que precisavam morrer para renascer evoluídos, dita minutos antes por Drácula, não ajudava quando eu reconhecia pedaços de roupa, focinhos, mãos e vozes quebradas de gente que havíamos prometido buscar.
Lúcifer sacou uma espada que eu ainda não tinha visto. Ela saiu junto do corpo dele sem bainha visível, fina, brilhante, azulada no cabo e cheia de curvas que não pareciam enfeite. A lâmina cortou o primeiro atacante e o corpo desapareceu no mesmo instante, sem queda, sem sangue derramado, sem segundo golpe.
Peguei a adaga dupla. Até então eu a havia tratado como passagem, ferramenta de deslocamento, uma chave perigosa entregue por Elaryan com o sorriso de quem sabe que a fechadura custará mais tarde. Quando movi as duas lâminas para conter o avanço, o ar acompanhou o gesto. Um rastro cortante saiu à distância e partiu três corpos antes que encostassem em nós.
— Sua arma também é mística? — Lúcifer perguntou, golpeando sem parar.
— Sim — respondi. — A sua também corta desse jeito porque é uma delas?
— Não faria esse estrago se fosse só bonita.
Eu quis responder alguma coisa, mas outro lobo veio pela esquerda e a adaga respondeu antes da minha frase. O corpo desapareceu. Não dava tempo para pensar em nome, família, rosto ou retorno. Aquilo podia ser o que Drácula chamava de batalha simples. Também podia ser a forma mais rápida de uma pessoa se convencer de que matar, quando acontece em sequência, precisa ganhar uma palavra técnica para não quebrar o braço de quem golpeia.
Conseguimos manter uma faixa limpa em volta de Paole. Lúcifer cortava pela frente, eu abria vento e lâmina pelos lados, e os restos de sangue desviavam para baixo antes de tocar nossa pele. A cada corpo que desaparecia, Fenrir se movia dentro de mim, não com dor, mas com interesse. Suzaku queimava esse interesse até virar cinza suficiente para eu continuar escolhendo.
O ataque veio de cima. Lobos e vampiros subiram juntos por trás da nossa proteção, aproveitando o momento em que eu bloqueava a frente. Usar a adaga contra todos exigiria movimentos amplos demais e derramaria sangue sobre nós. A Vajra estava presa ao corpo, redonda, pesada de possibilidade, e eu ainda não sabia o que ela faria num céu cheio de gente.
Henri hesitou comigo por meio segundo, tempo curto no movimento e comprido o bastante para caber a imagem de toda a encosta caindo sobre nós.
— Se não usarmos, eles caem sobre Paole — ele disse.
Puxei a Vajra e apontei para cima. O raio veio de muito longe, uma linha branca descendo do céu como resposta a uma pergunta que eu ainda não tinha aprendido a formular. A eletricidade me atingiu pelo artefato, atravessou o braço, entrou nos ossos e voltou para fora em todas as direções. Curvei o corpo sobre Lúcifer e Paole, usando as asas e o vento para manter os dois por baixo da explosão.
O clarão engoliu os perseguidores. Quando a luz recuou, o ar cheirava a chuva, metal e carne que não tinha ficado tempo suficiente para cair. Lúcifer estava ajoelhado perto de Paole, ainda segurando a espada. Paole tremia, sem olhar para o vale.
— O que foi isso? — Lúcifer perguntou.
— Outra arma mística — respondi, tentando abrir e fechar a mão que ainda guardava choque.
— Você tem uma coleção aí? — Lúcifer perguntou, olhando da Vajra para a adaga dupla.
— Só essas duas — respondi, o que soou ridículo no meio da fumaça elétrica.
— Ah, só duas — ele disse, e a ironia saiu rouca, mais viva que tranquila.
Paole tentou falar, mas a garganta falhou. Dei a ele alguns segundos, mantendo vento entre nós e o vale, e Henri sustentou a Vajra longe do corpo para impedir que eu a apertasse por reflexo. Abaixo, a massa continuava se mordendo. Drácula não aparecia.
— Paole, o que aconteceu aqui? — perguntei. — Nós voltamos para liberar os lobos, mas isso já não é batalha.
Ele respirou fundo, fechou os olhos e respondeu sem levantar a cabeça, mantendo as mãos presas uma à outra para não tocar o próprio ferimento.
— O sangue das gatas. Quando a batalha começou, cortes abriram lobos e vampiros que tiveram contato com o sangue das gatas-lobas, ou com alguém que teve contato com ele. O cheiro exalou fome. Ninguém resistiu por muito tempo. Quem consumiu esse sangue precisou de mais sangue, qualquer sangue, sem distinguir povo, lado ou espécie. Eu tentei puxar alguns de volta, mas os que eu recuperava eram pegos de novo ainda confusos, sem força para sair do alcance dos outros.
O vale respondeu à explicação com outro gemido coletivo. Dessa vez eu soube que o som não vinha só de dor. Vinha de fome renovada.