O Rei Escravo Liberdade do Vento · Capítulo 16 de 49
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O Rei Escravo

Cada passada de Falcão afundava uma placa e acendia uma linha azul sob a pista. A luz corria até o centro da sala, entrava num conjunto de cabos e desaparecia pela parede. Quando ele reduzia o ritmo, uma haste presa ao teto descia perto de suas costas e soltava uma descarga curta. As primeiras queimaduras já tinham criado crostas; as novas atingiam a pele ao redor.

Centenas de pessoas corriam em círculos no mesmo salão, distribuídas por faixas que impediam ultrapassagens. Os cultivadores observavam de plataformas elevadas e retiravam quem deixava de produzir. A palavra descanso nunca era usada por eles. Diziam recuperação, o intervalo mínimo necessário para devolver um mantenedor à pista.

Falcão aprendera os nomes durante a primeira jornada. Mantenedores geravam a energia de Spender com os próprios passos. Cultivadores administravam a produção, aplicavam castigos e conduziam os corpos para recuperação. Vivender era o título prometido a um mantenedor por ano, escolhido num sorteio que ninguém da pista tinha presenciado. Segundo as mensagens projetadas nas paredes, o vencedor deixaria de trabalhar e passaria a desfrutar a cidade mantida pelos demais.

Spender era classificado como planeta de nível três, mas os prisioneiros o chamavam de planeta-inferno. Os cultivadores afirmavam que a morte não oferecia saída. Quem morresse despertaria novamente ali, receberia outro corpo e voltaria à função determinada. Falcão vira um homem cair duas faixas adiante e ser levado sem respiração. Dias depois, reconheceu o mesmo modo de inclinar a cabeça num recém-chegado que gritava já ter morrido naquela pista.

Ele não sabia por que fora enviado para aquele lugar. Conhecia relatos sobre mundos que recebiam suicidas, governantes cruéis e pessoas que haviam usado outras vidas sem qualquer cuidado. Passara séculos encerrando guerras, abrira mão do controle direto de Finiti e educara Henri para governar sem transformar o reino em propriedade. Ainda assim, corria para alimentar o conforto de pessoas que nunca vira.

Enquanto corria, Falcão se preocupava com as consequências de sua ausência. César o matara diante do filho, e ele não sabia quanto tempo se passara em Finiti desde então. Henri poderia continuar pequeno ou já ter o corpo de um adulto. Poderia ter fugido, assumido o Palácio ou morrido durante o golpe. O pai confiava no que lhe ensinara, mas confiança não produzia notícia.

Alice também voltava durante as voltas. Henri acreditava que a mãe partira numa missão para reconhecer outro planeta. Falcão nunca lhe contara que ela morrera no parto, depois de olhar o filho por poucos segundos. Na época, acreditou que proteger a infância do menino justificava a mentira; agora imaginava Henri procurando uma viajante que jamais regressaria a Finiti.

Os nascidos naquele planeta se alimentavam de conhecimento, e o novo corpo de Falcão ainda reagia ao esforço de compreender alguma coisa. No início, inventava histórias para Henri enquanto corria. Depois percebeu que as histórias lhe davam menos energia do que observar a sala. Passou a contar quantas placas separavam cada haste, quanto demorava entre uma descarga e outra e quais corredores os cultivadores usavam para retirar alguém.

Na faixa ao lado, um rapaz mantinha os braços imóveis para economizar força. Falcão acelerou até alcançá-lo na curva e falou sem virar o rosto.

— De qual planeta você veio? Preciso de uma resposta curta.

— Zen — respondeu o rapaz, aumentando o passo ao notar um cultivador sobre a plataforma.

— Você manipulava algum elemento antes de chegar aqui?

— Água, mas apenas em pequena quantidade. Neste corpo não consigo mover uma gota.

Uma haste desceu entre as duas faixas. O rapaz se afastou, e Falcão recebeu a descarga porque perdera velocidade durante a conversa. Caiu com um joelho sobre a placa, tornou a se levantar e correu antes que o mecanismo atingisse o mesmo ponto outra vez.

Em Finiti, ele nunca fora um Mestre do Ar, mas conseguia controlar correntes, sustentar o voo e alterar a pressão ao redor do corpo. Em Spender, não movia o suor da própria testa. Outros prisioneiros relatavam a mesma perda com água, fogo e terra. A ausência simultânea de tantos poderes apontava para uma condição imposta pelo complexo, não para uma fraqueza individual.

Falcão começou a testar o sistema de recuperação. Durante uma jornada, forçou o corpo acima do ritmo exigido, elevou a respiração e arrastou o pé direito até alterar a distribuição do peso. Foi retirado cedo. Na jornada seguinte, encurtou as passadas, manteve a coluna firme e guardou energia enquanto as placas continuavam descendo. Permaneceu na pista quase o dobro do tempo.

O chamado não obedecia a uma escala fixa. Sensores espalhados pela sala mediam respiração, equilíbrio e força das passadas; quando os números caíam abaixo de um limite, os cultivadores levavam o mantenedor para duas ou três horas de sono. A irregularidade impedia que um grupo numeroso se encontrasse fora da pista.

Durante a recuperação, Falcão dormia numa plataforma de pedra separada das outras por divisórias baixas. Duas portas protegiam o salão: uma dava acesso à pista e a outra permanecia restrita aos cultivadores. Quando acordou depois do primeiro teste, sentiu o ar deslocar um fio solto de cabelo ao mover os dedos. A corrente desapareceu logo, mas era a primeira resposta obtida desde o renascimento.

De volta à pista, repetiu o movimento e não conseguiu nada. O sistema que retirava os poderes era mais forte dentro da sala de produção e enfraquecia no corredor de recuperação. Uma fuga coletiva precisaria começar ali, com o maior número possível de pessoas descansadas ao mesmo tempo.

Falcão levou várias jornadas para compartilhar a descoberta. Falava uma frase a cada volta, mudava de faixa quando alguém era retirado e ensinava os demais a marcar o ritmo pelas luzes sob os pés. O rapaz de Zen foi o primeiro a aceitar. Outros recusaram, convencidos de que qualquer tentativa terminaria na câmara de tortura.

Um homem três faixas à frente havia passado por essa câmara. Voltou com os dedos quebrados e correu durante duas jornadas sem conseguir fechar as mãos.

— Você quer que todos recebam o mesmo tratamento? — perguntou ele quando Falcão conseguiu se aproximar.

— Quero que eles não consigam levar um de cada vez — respondeu Falcão. — O sistema decide o descanso pelo estado do corpo. Se alterarmos nosso desgaste até atingir o limite juntos, esvaziaremos a pista e lotaremos a recuperação.

— E depois? A porta dos cultivadores continua fechada.

— Longe destas placas, parte do meu domínio do ar retornou. O homem de Zen vai testar a água no próximo descanso. Há manipuladores de outros elementos entre nós. Não preciso prometer que venceremos; preciso saber quantos preferem tentar.

O homem observou a haste que acompanhava os passos deles e correu uma volta inteira antes de responder. Quando passou outra vez por Falcão, tocou duas vezes o calcanhar no piso. O sinal se espalhou pelas faixas durante as jornadas seguintes.

Eles escolheram um ciclo em que havia poucos cultivadores nas plataformas. Quem ainda tinha energia acelerou; quem estava perto da exaustão reduziu a força das passadas sem deixar as placas pararem. Falcão contava as voltas pelo acendimento de uma falha na linha azul, sempre no mesmo trecho da pista. No momento combinado, todos alteraram a respiração e o equilíbrio.

Os chamados começaram em diferentes faixas e se multiplicaram. Os cultivadores retiravam um mantenedor, voltavam para buscar outro e encontravam mais corpos próximos do limite. As divisórias da recuperação foram ocupadas até não sobrar espaço. Pela primeira vez desde que Falcão chegara, a sala de corrida ficou vazia.

Os prisioneiros dormiram. Precisavam entregar ao corpo a recuperação que haviam fabricado, mesmo sob o risco de os cultivadores perceberem a coordenação. Falcão acordou ao ouvir o primeiro carrinho usado para devolvê-los à pista. Abriu os olhos e viu quatro funcionários tentando organizar centenas de pessoas.

Levantou-se quando um cultivador soltou a trava de sua divisória. Segurou o braço dele, puxou-o para dentro e usou o próprio carrinho para bloquear a passagem. O rapaz de Zen derrubou outro funcionário e estendeu as mãos para um cano exposto. Uma película de água surgiu sobre o metal, reuniu-se entre seus dedos e atingiu o rosto do terceiro cultivador.

Falcão concentrou o ar ao redor da porta restrita. A primeira pressão moveu apenas poeira; a segunda entrou no mecanismo e fez a trava vibrar. Outros manipuladores se aproximaram, somando vento, calor e força física até que a chapa saiu do encaixe.

O corredor terminava numa central com os controles das salas de produção. Havia dezenas delas, todas fechadas, todas enviando energia para a mesma rede. Os fugitivos quebraram os painéis de segurança e abriram as portas uma a uma. Pessoas saíam sem compreender por que as hastes haviam parado ou quem lhes oferecia passagem.

— A pista está vazia, mas eles ainda controlam a cidade — avisou o homem dos dedos quebrados. — Se chegarem soldados, não teremos armas.

— Então não ficaremos aqui esperando — respondeu Falcão. — Libertem quem ainda está preso e levem os feridos para o centro do grupo. Quem puder manipular alguma coisa deve testar os poderes a cada corredor.

Eles atravessaram o último portão do complexo. A cidade ocupava o horizonte com torres de vidro, vias suspensas e veículos que passavam sem condutor. As janelas estavam iluminadas pela energia produzida nas pistas, porém nenhuma pessoa caminhava nas ruas ou aparecia nos edifícios.

Falcão ergueu a mão. O vento vindo da avenida contornou seus dedos e permaneceu ali, mais firme do que na sala de recuperação. Atrás dele, água escapou de uma tubulação e se reuniu ao redor do rapaz de Zen; pequenos focos de fogo surgiram nas mãos de outros fugitivos.

Os dominadores de Spender tinham construído uma cidade inteira sobre a certeza de que os escravos nunca deixariam as pistas ao mesmo tempo. Falcão olhou os cabos que saíam do complexo e seguiam sob as ruas, indicando o caminho da energia. O grupo avançou por eles, levando a revolta até quem vivia do outro lado.

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