O Submundo Liberdade do Vento · Capítulo 22 de 49
Obra Menu

O Submundo

O café já estava servido quando ocupamos a mesa do palácio de Perséfone. A promessa feita a Krakor sobrevivera à corrida, ao gelo, à audiência com Freya e à descida por uma escada que atravessava mais rocha do que a torre poderia conter. Diante de nós, uma mulher distribuía a bebida em xícaras estreitas, e o aroma terrestre encontrava pouca coisa familiar naquele salão enterrado.

— Eu disse que tomaríamos café com Perséfone — murmurei para Krakor. — Você poderia reconhecer que o plano funcionou antes de descobrir algum defeito nele.

— O plano termina quando saímos vivos, Alfa. Até lá, reconheço apenas que existe café.

Perséfone ouviu a resposta e sorriu. Os cabelos rosados caíam sobre uma roupa escura presa por peças de bronze, e as mãos permaneciam ao redor da xícara sem tocá-la. Freya sentara-se ao lado dela, próxima o bastante para que os ombros se encontrassem sempre que alguma das duas se movia.

— Alguém está confrontando Hades neste momento? — perguntou Perséfone. — Freya disse que Athos voltou a Ux por causa dele.

— Athos encontrou uma guerra quando retornou ao planeta — respondeu Krakor. — Entrar no submundo fazia parte do que ele precisava resolver, mas não conhecemos o estado do combate.

Henri concordou dentro de nós. Informar a ofensiva sem prometer seu resultado preservava a diferença entre o que sabíamos e o que esperávamos. Fenrir mantinha a atenção voltada para baixo, acompanhando uma corrente de ar que atravessava túneis sob o palácio e terminava na direção da passagem para Ux.

Hagar pousou a xícara antes de falar. Ao redor da mesa, mais de vinte pessoas serviam bebida, frutas e pequenos pães, embora Perséfone não tivesse pedido nada desde nossa chegada.

— Disseram-nos que você vive prisioneira neste submundo — começou Hagar. — O palácio e as pessoas ao seu redor podem dar outra impressão a quem chega.

Perséfone enfim bebeu um pouco do café. Quando devolveu a xícara ao pires, a mulher que servia aproximou-se para completar o conteúdo, mas ela cobriu a borda com os dedos e recusou.

— Tenho quartos, jardins, comida e uma cidade inteira sob este teto — respondeu Perséfone. — Nada disso me permite atravessar a saída. As pessoas que trabalham aqui cumprem ordens antigas, inclusive quando eu peço que parem. O conforto muda a forma da prisão; não abre a porta.

A mulher com a jarra recuou dois passos e permaneceu de pé, esperando uma necessidade que já fora negada. Os braços continuaram sustentando o recipiente enquanto o café esfriava, porque ninguém lhe dissera o que fazer depois de uma recusa.

— E se Hades perder o controle de Ux? — perguntou Dafa. — O que você faria com uma saída aberta diante de você?

Perséfone olhou para Freya antes de responder. O movimento foi rápido, mas Fenrir reconheceu nele uma pergunta repetida ao longo de anos.

— Hades não pode ser derrotado aqui embaixo. Ele conhece os rios, controla a matéria do submundo e entra na mente de quem respira o ar preparado por ele.

— Athos não irá sozinho — disse Dafa. — Trovar está em Ux, e Athena também participa da ofensiva.

O nome de Athena mudou a postura de Perséfone. Os dedos abandonaram a xícara, e uma linha de café escorreu pelo pires quando a mesa recebeu o impacto de sua mão.

— Athena está indo ao encontro de Hades? Ela aceitou voltar ao submundo?

— Foi o que soubemos antes de Athos partir — respondeu Dafa. — Não conhecemos o caminho que cada um conseguiu percorrer desde então.

Perséfone levantou-se e caminhou até uma abertura lateral do salão. Além dela, jardins iluminados por pedras claras ocupavam uma extensão incompatível com a profundidade da caverna. Freya acompanhou seus primeiros passos, mas permaneceu junto à mesa.

— Se Hades realmente perder o domínio, eu quero me casar com Freya, voltar a ver o Sol e descobrir o que faço quando minhas escolhas não precisarem passar por ele — disse Perséfone. — Quero viver por mim. Depois de tanto tempo presa num corpo que não se rompe, quero recuperar até o direito de morrer.

O desejo atingiu Henri antes de mim. Ele reconhecia a diferença entre continuar vivo e conservar o direito sobre a própria vida, diferença que nossa união nos obrigara a negociar desde o início. Fenrir respondeu com imagens dos lobos trazendo notícias da superfície para aquela mulher, geração após geração, sem conseguir carregá-la junto na volta.

— O que acontece quando você tenta sair? — perguntei. — Fenrir conhece a barreira pelo lado dos lobos, mas não sente o que ela faz ao seu corpo.

Perséfone voltou para a mesa e estendeu um dos braços. Sob a pele do pulso, pequenas linhas escuras avançaram até a mão e desapareceram quando ela se afastou da abertura.

— Fui banhada nas águas do Estige, no ponto em que os rios do submundo de Ux se encontram. Desde então, meu corpo resiste a cortes, fogo e deterioração, mas depende das condições que existem aqui. Quanto mais me aproximo de uma saída, mais o sangue perde movimento e as pernas deixam de responder. Perto da superfície, o próprio chão me puxa de volta.

— Hades realizou o banho? — perguntou Henri com nossa voz.

— Ele me levou ao rio e manteve-me ali. Nunca explicou tudo o que aconteceu, e eu passei tempo demais atribuindo a ele qualquer coisa que este lugar fazia.

Nenhum de nós podia atribuir a prisão a Hades, ao Estige ou a outra força que Perséfone desconhecia. Fixei apenas aquilo que ela experimentava: resistência física, dependência do ambiente e incapacidade de alcançar as saídas.

— Hades pode atravessar a passagem entre Ux e Inc, enquanto você continua presa deste lado — disse Henri. — Se ele vier, precisamos atrasá-lo sem destruir uma estrutura que ainda não compreendemos.

— Ele jamais fugiria de uma luta — respondeu Perséfone. — Também não me abandonaria aqui. Eu sou uma das razões pelas quais permanece ligado a estes submundos.

Krakor apoiou os antebraços sobre a mesa e deixou a xícara de lado. Passou a acompanhar cada resposta de Perséfone sem procurar outra oportunidade para brincar.

— Prender Hades em Ux não encerra o domínio dele, caso as pessoas continuem obedecendo às ordens que deixou — ponderou. — Matá-lo pode apenas levar o mesmo homem para outro lugar. O que reduz o poder dele sem depender do corpo?

Perséfone percorreu com os olhos as pessoas posicionadas ao redor da mesa. Algumas baixaram o rosto; outras conservaram as bandejas diante do peito.

— Hades vence quando alguém organiza a própria vida em torno do que ele deseja, mesmo durante sua ausência. Se outra vontade conseguir interromper isso e as pessoas perceberem que podem desobedecer, ele perde parte do alcance.

— Então a primeira defesa já está dentro deste salão — disse Henri. — Antes de vigiar a passagem, precisamos saber quem mantém essas pessoas aqui.

Perséfone abriu a boca, mas nenhuma resposta saiu de imediato. A mulher que servia o café apertou a alça da jarra. Um rapaz próximo à porta olhou para Freya, depois para o corredor.

— Elas servem Hades — explicou Perséfone. — Algumas vieram de Ux, outras nasceram em Inc. Ele deixou funções, horários e punições. Eu tentei dispensá-las, porém minhas palavras nunca substituíram uma ordem dele.

— Suas palavras não precisam substituir outra ordem — respondi. — Precisam retirar a autoridade que este palácio exerce em seu nome. Depois disso, cada pessoa escolhe se sai, permanece ou ajuda na defesa.

Fenrir abriu dentro de nós o mapa dos túneis. Havia uma subida protegida pelas felinas, duas galerias usadas pelos lobos e uma passagem de serviço que alcançava os jardins de Asgard. Henri separou mentalmente as rotas: uma para retirada, outra para vigia e a terceira para movimentar quem decidisse lutar.

Perséfone caminhou até a cabeceira. Em vez de ocupar a cadeira, apoiou as duas mãos no encosto e encarou os trabalhadores.

— Nenhuma ordem de Hades será cumprida em meu nome a partir de agora — declarou. — Quem quiser deixar o palácio pode sair. Quem desejar permanecer terá comida e abrigo sem servir a esta mesa. Quem escolher lutar receberá uma função, mas poderá abandoná-la quando decidir.

Ninguém se moveu. Apesar das palavras de Perséfone, as pessoas mantiveram bandejas, jarras e aventais nas mesmas posições, esperando a reação de alguma autoridade. Krakor observou a mulher que segurava o café e apontou para uma cadeira vazia.

— Comece pousando isso e sentando por um minuto. Ninguém precisa escolher o resto da vida com os braços cansados.

Ela olhou para Perséfone. Ao receber um aceno, deixou a jarra sobre a mesa, puxou a cadeira e se acomodou na ponta, rígida, com as mãos unidas sobre o colo.

— Antes de escolher qualquer caminho, qual é o seu nome? — perguntei.

— Kert. Eu servia na casa de Hades em Ux antes de ser enviada para cá.

— Se pudesse atravessar a saída sem receber outra ordem, para onde iria? — perguntou Henri.

Kert respirou fundo. A resposta demorou porque precisava atravessar anos de instruções mais fortes do que o convite feito por desconhecidos.

— Eu procuraria um homem que ficou em Ux. Não sei se ele está vivo, se ainda me espera ou se quero encontrá-lo depois de tudo. Gostaria de descobrir por conta própria.

— Então descubra, decepcione-se e mude de ideia quantas vezes precisar — disse Krakor. — Só não entregue a Hades o direito de decidir isso antes de você.

Algumas pessoas sorriram. Kert levantou-se sem recuperar a jarra, contornou a mesa e parou diante da porta. A passagem aberta ainda conduzia apenas aos corredores do submundo, mas Freya chamou duas guardas felinas e ordenou que a acompanhassem até a saída protegida.

— Nenhuma pessoa deixará as galerias sozinha enquanto a rota de Ux estiver aberta — determinou Freya. — Minhas guardas levarão quem quiser partir até Asgard e registrarão onde pretende aguardar.

Kert agradeceu a Perséfone e atravessou a porta. Duas mulheres pousaram as bandejas logo depois, um rapaz retirou o avental e perguntas surgiram sobre famílias, alojamentos e caminhos para a superfície. Henri usou nossas mãos para marcar as três rotas sobre a toalha com xícaras e talheres, enquanto eu pedia a Fenrir referências que os guardas locais pudessem reconhecer.

— Esta colher é a galeria dos lobos; o bule marca a saída dos jardins — expliquei. — A passagem para Ux fica abaixo deste corredor central. Quem sair usa os jardins. Quem ficar na vigia ocupa as outras duas rotas em grupos mistos de lobos e felinas.

— Grupos mistos dentro do meu território? — perguntou Freya.

— Hades governa estes submundos há tempo suficiente para conhecer a rivalidade entre vocês — respondeu Henri. — Separados, ele precisa provocar apenas um dos lados. Juntos, cada grupo percebe quando o outro começa a agir sob influência.

Freya avaliou o mapa improvisado e aceitou com um movimento curto. Chamou Chantae para organizar as felinas, e Fenrir enviou aos lobos próximos uma sequência de direções e cheiros, sem assumir os movimentos deles.

Mais de vinte pessoas serviam o palácio quando chegamos. Depois da saída de Kert, a maioria escolheu acompanhar as guardas até Asgard. Três permaneceram no salão: um homem junto à porta e outros dois que haviam trabalhado nas galerias inferiores.

— Vocês escolheram ajudar na defesa? — perguntei aos três.

O homem da porta cruzou os braços e permaneceu diante da saída. Ele já escolhera um lado e observava com desprezo a movimentação dos antigos companheiros.

— Continuo fiel a Hades. Só deixo meu posto quando ele ordenar.

— Você não será obrigado a lutar por nós nem impedido de sair — respondi. — Também não ficará sozinho perto da passagem nem terá acesso às posições dos vigias.

Freya chamou uma guarda para acompanhá-lo a um aposento afastado até que ele decidisse partir ou até que o risco terminasse. Henri concordou: liberdade para recusar nossa defesa não incluía liberdade para entregá-la a Hades.

Um dos dois trabalhadores restantes deu um passo à frente. Tinha marcas escuras nos braços e mantinha a mão sobre o ombro do companheiro.

— Benzer e eu vamos lutar. Nossas famílias ficaram em Ux, e atravessaremos os rios se for preciso para encontrá-las.

— Vocês conhecem as galerias inferiores melhor do que qualquer pessoa desta mesa — disse Henri. — Mostrem a Fenrir onde o ar muda e onde uma travessia pode ser ouvida primeiro. Depois escolham uma posição da qual consigam recuar.

Os dois se aproximaram do mapa. Pela primeira vez desde nossa chegada, pessoas daquele submundo corrigiam as lembranças de Fenrir em vez de apenas obedecer à autoridade do Alfa, de Freya ou de Perséfone.

— A libertação precisa alcançar o restante do palácio e as galerias — falei. — Quem continua trabalhando por escolha pode permanecer, mas todos precisam ouvir a mesma possibilidade.

— Minhas guardas já começaram — respondeu Freya. — Enviei o sinal quando Kert deixou a jarra. Chantae vai percorrer os alojamentos antes de reforçar os acessos.

Krakor ergueu as sobrancelhas. Por alguns minutos, acreditara que conduzia o início de uma revolta; descobrir que Freya agira junto com ele retirou qualquer oportunidade de anunciar a própria eficiência.

— Admito que você trabalha mais depressa do que anuncia, Rainha.

— Eu trabalho enquanto você discursa — respondeu Freya. — É uma diferença útil em situações urgentes.

Bel conteve um sorriso, e Dafa tomou outra xícara de café sem acrescentar comentário. A tensão do salão diminuiu apenas o suficiente para que as pessoas restantes se aproximassem do mapa.

Perséfone continuava em pé junto à cabeceira. Acompanhou a última trabalhadora até a porta e tocou duas vezes a cadeira vazia de Kert antes de voltar o rosto para Freya.

— Vocês realmente acreditam que Athos pode voltar depois de enfrentar Hades? — perguntou, dirigindo-se primeiro a Freya. — Acreditam que alguma coisa mudará quando ele voltar?

Freya deixou o mapa e segurou as mãos dela. O gesto devolveu calor ao rosto de Perséfone, mas a resposta demorou alguns segundos.

— Athos construiu Vésper e levou para lá populações que perderiam seus mundos. Eu ajudei na criação do planeta e vi o que ele faz quando promete uma passagem — respondeu Freya. — Voltar a Ux exige que ele atravesse o lugar onde foi ferido e enganado. Mesmo assim, retornou porque outras pessoas dependiam dele. Isso não garante a derrota de Hades, mas me impede de tratar sua tentativa como gesto vazio.

— E se ele falhar e Hades alcançar esta passagem? — perguntou Perséfone.

— Os acessos continuarão vigiados, as pessoas daqui saberão que podem recusar Hades e nós estaremos juntas quando a passagem se abrir — respondeu Freya.

Henri percebeu a diferença entre as duas partes. Freya falara com precisão sobre Athos, os acessos e a resistência; ao prometer que permaneceria ao lado de Perséfone, sua mão afrouxou antes do fim da frase. Fenrir registrou o movimento sem oferecer memória que o explicasse.

Organizamos o primeiro turno. Benzer e o companheiro guiariam lobos e felinas pela galeria central; Dafa examinaria o ar junto à passagem; Bel verificaria quanto controle dos elementos conservaria sob a densidade do submundo. Hagar e Nerfate percorreriam as estruturas próximas sem tocá-las, enquanto Krakor permaneceria no salão com Perséfone e os trabalhadores que ainda decidiam o que fazer.

— E nós? — perguntei a Henri dentro de nosso corpo.

— Vamos conferir as três rotas com Fenrir e garantir que nenhuma dependa apenas da lembrança dele. Depois voltamos para comparar o que cada grupo encontrou.

Fenrir respondeu com a lembrança da primeira galeria; Henri comparou-a com o mapa improvisado e eu procurei os nomes de quem vivia perto de cada acesso. Antes que saíssemos, Freya anunciou que subiria até Asgard para acompanhar a retirada e ampliar a vigia nas entradas externas.

Perséfone tentou acompanhá-la até a abertura do salão. Após poucos passos, as linhas escuras voltaram a aparecer em suas mãos e os joelhos perderam firmeza. Freya segurou-a pela cintura e conduziu-a de volta, confirmando no corpo o limite que ela descrevera.

— Eu volto antes da troca do primeiro turno — prometeu Freya.

Ela beijou Perséfone. O gesto foi longo o bastante para tranquilizá-la, mas os olhos de Freya se abriram antes que as mãos se soltassem e buscaram a porta atrás de nós. Henri registrou o descompasso, porém nenhum de nós reagiu. Perséfone permaneceu sorrindo junto à mesa, e Freya deixou o palácio sem olhar para trás.

1/1
Menu

Fazer anotação