Gatas Liberdade do Vento · Capítulo 37 de 49
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Gatas

A equipe de resgate montou uma câmara de ar diante do primeiro alçapão. Salia instalou tubos nas saídas de ventilação, enquanto integrantes do Exército C recolhiam amostras e ajustavam as máscaras. Paole permaneceu atrás da barreira até que os médicos confirmassem a pressão, o volume de sangue disponível e a rota de retirada.

Brinshen trouxe a primeira lista de moradoras. Os registros clandestinos continham nomes escolhidos, idades declaradas e datas de chegada; todas apareciam como adultas. A informação precisaria ser confirmada em entrevistas individuais, mas permitia iniciar o resgate sem a suspeita imediata de crianças presas no setor.

Salia acionou o comunicador preso à porta externa. Identificou-se, informou que os visitantes tinham encontrado o depósito e pediu resposta de qualquer pessoa capaz de chegar ao corredor. Durante alguns minutos, ouvimos apenas música baixa, água correndo e vozes distantes.

— Meu nome é Nima. Estamos vivas, mas algumas pessoas não querem abrir a porta. O cheiro do lado de fora voltou e ninguém sabe se vai perder o controle.

— Instalamos ar filtrado dos dois lados — respondeu Salia. — Ninguém entrará sem avisar. Precisamos saber quantas pessoas estão feridas ou incapazes de caminhar.

Nima contou cinco vampiros, várias mulheres na sala principal e outras distribuídas pelos quartos. Duas tinham cortes recentes; um dos vampiros alternava períodos de consciência; os demais falavam, bebiam e voltavam a se tocar. Ela pediu roupas, água e alguns minutos para explicar a chegada da equipe.

Os médicos analisaram a amostra retirada pelo duto. O ar carregava sangue vaporizado, suor, álcool e compostos produzidos pelos corpos transformados. Nenhum resultado determinava o que cada pessoa desejava, mas a concentração podia alterar fome, excitação e capacidade de avaliar risco.

Henri sentiu o efeito junto comigo. O filtro reduzia o cheiro, porém uma corrente quente percorreu nossa pele quando Nima mencionou os corpos na sala. O desejo dele ganhou imagens; o meu respondeu antes que eu pudesse atribuir tudo à simbiose. Mantivemos as mãos fora da porta e reforçamos a vedação da máscara.

— Estamos sentindo a alteração — avisei a Gregony. — Henri e eu continuamos capazes de decidir, mas não entraremos sozinhos nem aceitaremos convite íntimo durante o resgate.

Paole pediu uma máscara adicional e entregou duas bolsas do próprio sangue aos médicos. Concordou em permanecer preso a uma corda de retirada e em sair caso o medidor registrasse mudança brusca de pulso, respiração ou resposta verbal.

Nima destravou a porta externa. A equipe abriu um espaço estreito, introduziu água, roupas, máscaras e pulseiras de atendimento, depois tornou a fechar. Ela distribuiu o material e voltou ao comunicador confirmando que todas as pessoas conscientes tinham recebido a explicação.

Entramos em seis: Salia, dois profissionais de saúde, Paole, Gregony e nosso corpo compartilhado. Amor ficou na câmara externa para registrar quem saísse e impedir que nomes particulares fossem anunciados aos observadores. O corredor descia entre paredes de pedra revestidas por tecido vermelho e terminava numa sala com poltronas, recipientes vazios e luminárias baixas.

O segundo acesso estava aberto. Encontramos nove mulheres adultas e os cinco Guardiões na sala seguinte. Parte do grupo vestia apenas peças leves; sangue marcava bocas, braços, lençóis e o piso. Duas mulheres beijavam Lavigne, enquanto Riot permanecia deitado com a cabeça no colo de Nima. Riccore tentava encher outra taça a partir do próprio pulso.

A cena carregava intimidade, prazer e desorientação ao mesmo tempo. Nenhum desses elementos autorizava decidir quais contatos tinham começado por vontade, quais continuavam por dependência e quais pessoas ainda podiam mudar de ideia. Pedi que todos mantivessem as mãos visíveis enquanto os médicos se aproximavam.

— Somos a equipe anunciada por Nima. Primeiro vamos interromper o contato com sangue, atender ferimentos e levar quem desejar ao corredor neutro. Ninguém será preso por estar nu, por trabalhar com sexo ou por ter escolhido mais de um parceiro.

Uma mulher próxima a Lavigne riu, mas soltou o braço dela. Outra cobriu o peito com o tecido entregue por Nima e pediu para sair. Salia abriu passagem, enquanto Gregony manteve distância das portas dos quartos.

Paole ajoelhou perto de Riot e chamou seu nome. O Guardião abriu os olhos, reconheceu a voz e tentou se levantar sem conseguir sustentar o pescoço.

— Riot, trouxe meu sangue para estabilizar você. Está consciente o suficiente para aceitar uma dose medida?

— Aceito. Não use o sangue delas enquanto eu estiver sem controle.

Um profissional conectou a bolsa ao dispositivo de Riot e liberou apenas o volume definido. A respiração dele desacelerou; os olhos recuperaram foco, seguidos por uma dor que o fez curvar o corpo. Nima permaneceu ao lado depois de confirmar que queria acompanhá-lo até a área médica.

Riccore recusou a primeira oferta e pediu que ninguém retirasse a taça. O médico colocou água e alimento ao alcance, informou os riscos e esperou. Quando Riccore tentou beber do próprio pulso e deixou o recipiente cair, pediu a bolsa de Paole. A dose foi administrada depois que ele repetiu o pedido.

Lavigne observou os dois atendimentos enquanto as mulheres se afastavam dela. Limpou a boca, aceitou água e pediu alguns minutos antes de receber sangue. Os outros dois Guardiões concordaram com a estabilização e seguiram por rotas separadas, evitando que o cheiro de um alimentasse o outro.

Nos quartos, encontramos outras moradoras vestidas e alertas. Algumas tinham fechado as portas para escapar da concentração de sangue; outras temiam a chegada dos lobos que mantinham o complexo escondido. Todas receberam a opção de sair sem atravessar o corredor onde Brinshen aguardava.

Quando a última porta foi aberta, o registro indicava várias dezenas de mulheres adultas. Nenhuma criança apareceu, e ninguém relatou pessoa desaparecida dentro do setor. Ainda assim, os nomes clandestinos, as transformações e os vínculos precisariam ser verificados sem a presença de quem organizara a mudança.

Lavigne aceitou o sangue de Paole depois que o medidor de consciência registrou respostas estáveis. Antes de sair da sala, pediu para falar conosco e aguardou a confirmação de Gregony.

— O cheiro de vocês atravessa a máscara. Quero saber se esse desejo continua quando meu corpo estiver limpo e descansado.

Henri desejou aceitar o convite imediatamente. Eu também queria descobrir a resposta, mas nenhum dos dois podia separar curiosidade do ambiente que ainda alterava nosso sangue.

— Podemos conversar depois do atendimento — respondeu Henri por nossa boca. — Não haverá beijo nem toque agora. Também falaremos com Ilana antes de marcar qualquer encontro.

— Isso basta por hoje. Quando eu estiver sóbria, perguntarei outra vez.

Ela seguiu para a área médica sem nos tocar. A resposta deixou Henri inquieto e me atingiu com a mesma força, mas encerramos a entrada antes de discutir qualquer possibilidade.

As entrevistas começaram depois de banho, roupa, alimentação e descanso. Equipes formadas por mulheres de Finiti e Vermilion ouviram as moradoras sem vampiros, lobos ou representantes do palácio na sala. Cada pessoa podia usar o nome que desejasse no registro e decidir quais informações seriam públicas.

Os relatos confirmaram que mulheres adultas tinham pedido passagem antes da transferência. Algumas mantinham relações estáveis com lobos; outras trabalhavam com sexo ou procuravam uma comunidade onde relações múltiplas fossem aceitas. Parte escolheu a transformação para sobreviver às condições do novo planeta. Outras preferiram conservar a forma anterior e receberam abrigo no mesmo setor.

Uma mensagem preservada nos arquivos mostrava Freya autorizando a passagem, enquanto Loki ajudava a ocultar a rota dos mecanismos de transferência. Freya confirmou à distância que atendera pedidos apresentados como voluntários. Essa confirmação sustentava apenas sua participação; cada transformação ainda dependia do relato da pessoa submetida a ela.

Nenhuma entrevistada pediu que o setor fosse fechado ou destruído. Algumas queriam sair imediatamente; outras desejavam manter as casas subterrâneas, porém com acesso livre, atendimento, registro protegido e representação própria. Duas pediram para viajar com os vampiros depois que todos recebessem alta. Outras recusaram qualquer contato futuro com eles.

Riot contou que os cinco haviam seguido o rastro de sangue até a cidade dos lobos. O primeiro encontro terminou em luta, mordidas e perda de coordenação dos dois lados. Depois do confinamento, receberam bolsas pelos dutos até romperem uma parede fragilizada e encontrarem a comunidade.

— Quando entramos, algumas mulheres ofereceram sangue e outras mandaram que saíssemos. Nós deveríamos ter parado ali, mas a fome e o sangue transformado ampliaram tudo. Não consigo garantir que cada contato continuou consentido.

Riccore confirmou a dificuldade e pediu para viajar com uma das mulheres que queria acompanhá-los. A equipe recusou qualquer decisão conjunta naquele momento. Cada pessoa teria outra entrevista depois de vinte e quatro horas, sem o parceiro pretendido na sala.

Paole ouviu os cinco separadamente. Repreendeu o abandono da missão e o uso das reservas, mas não tentou encerrar o caso com uma bronca. Os depoimentos seguiram para a apuração sobre captura, cárcere, fornecimento de sangue e contatos ocorridos durante a alteração.

Brinshen e os oito lobos envolvidos também prestaram depoimento. Tocqueville compareceu quando soube da dimensão da comunidade e admitiu que seu conselho falhara em oferecer um caminho seguro para pedidos que contrariassem o acordo original. Nenhuma falha administrativa justificava manter os cinco presos ou ocultar dezenas de moradoras.

Ao final do dia, estabelecemos três saídas permanentes para o setor, uma equipe de saúde escolhida com as moradoras e um canal de emergência que não passaria pelo comando dos lobos. A comunidade elegeria representantes para discutir moradia, privacidade, trabalho e segurança com Finiti e Vermilion.

A apuração sobre cárcere e transformações ganhou responsáveis, prazos de sete e trinta dias e cópias em dois arquivos. Tocqueville continuaria no conselho somente até uma assembleia decidir se a ocultação, mesmo desconhecida por ele, exigia mudança de liderança. Brinshen deixou de responder sozinho pela comunicação com o palácio.

No dia seguinte, os cinco Guardiões receberam autorização médica para viajar. As mulheres que cogitavam acompanhá-los adiaram a decisão até a segunda entrevista. Paole reorganizou o abastecimento, agradeceu a recuperação do grupo e prometeu enviar registros de chegada a Minorim.

Lavigne aproximou-se quando a comitiva se preparava para partir. Estava vestida, alimentada e sem sangue nos medidores de respiração. Parou a dois passos de nós e manteve as mãos junto ao corpo.

— Continuo interessada. Posso enviar um convite para você, Henri e Ilana quando estivermos instalados?

Conversei com Henri sem retirar os olhos dela. O desejo continuava, agora sem a pressão do subsolo, e nenhum dos dois queria responder por Ilana.

— Pode enviar. Nós dois leremos e conversaremos com Ilana. A resposta virá depois disso.

Lavigne aceitou o limite e voltou para junto dos Guardiões. A comitiva partiu com os registros da busca, o abastecimento recomposto e uma investigação ainda aberta entre os dois povos.

Retornamos ao palácio esperando uma refeição e algumas horas sem outra crise. Elaryan estava sentada à mesa de jantar com Ilana, Alice e Falcão, segurando uma taça que ninguém se lembrava de ter servido.

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