Profundezas Liberdade do Vento · Capítulo 46 de 49
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Profundezas

O homem preso continuou respirando com dificuldade depois do grito. As correntes ainda tremiam contra o tronco, e a poeira levantada pelo meu vento grudava na umidade das pedras. Do lado de fora, longe demais para ouvirmos, os Guardiões continuavam no vale, e essa lembrança fazia cada pausa dentro da caverna ficar mais cara.

— Desculpe — ele disse, com a voz áspera. — Tudo que mais quero é sair daqui. Não pensem por um segundo que estou escolhendo essa corrente por coragem ou por fé. Se vocês me soltarem agora, posso não permanecer preso ao que ainda preciso sustentar, e outra pessoa depende disso neste momento.

— Que outra pessoa? — Lúcifer perguntou, sem baixar completamente a espada.

O homem olhou para as próprias mãos presas. Os pulsos estavam marcados por metal antigo e por queimaduras novas, e havia um tremor pequeno nos dedos, ritmado por alguma coisa distante. Aquilo passava de prisão. Era uso contínuo do corpo.

— A pessoa mais importante para mim — ele respondeu. — A mulher que eu amo. Ela está fazendo a parte dela em outro lugar, e eu sou uma das forças que a mantêm capaz de terminar.

Henri segurou minha vontade de perguntar tudo ao mesmo tempo. O nome de Elaryan ainda pairava entre nós, mas havia um homem ferido falando da mulher que amava enquanto recusava a única ajuda simples que eu podia oferecer. Simples, naquele momento, era uma palavra perigosa.

— Se você está falando de missão, Elaryan passou por aqui — Lúcifer disse. — Ou alguém grande o bastante para deixar o cheiro dela no mundo.

O rosto do homem mudou. O medo não cresceu; organizou-se. Ele examinou Lúcifer, depois me examinou, tentando decidir se éramos ameaça, testemunha ou mais uma peça colocada ali sem explicação completa.

— Vocês a viram? — ele perguntou, tentando encontrar a resposta antes da nossa boca.

— Não agora — respondi. — Já a conhecemos. O bastante para saber que uma ajuda dela costuma vir com uma sala inteira de consequências escondidas.

Ele soltou uma risada curta, que morreu antes de virar humor. O som arranhou a garganta dele e virou tosse. Por reflexo, dei meio passo à frente, mas a corrente no pulso dele se acendeu por dentro, uma claridade fina atravessando o metal. Parei outra vez.

— Então vocês conhecem alguma coisa dela — ele disse. — Não tudo. Ninguém conhece tudo dela. Nem quem está amarrado ao plano.

— Comece pelo que dá para dizer sem nos matar de atraso — Henri falou por mim. — Quem é você e o que está acontecendo aqui?

O homem fechou os olhos. A câmara ficou mais fria por alguns segundos, ou meu corpo percebeu melhor o frio enquanto esperava. Quando ele voltou a abrir os olhos, a febre continuava ali, mas havia decisão junto dela.

— Meu nome... — Ele interrompeu a frase e engoliu seco. — Para ser sincero, já não sei que nome me pertence inteiro. Vou usar o último que tive. Moisés. Eu me chamo Moisés.

O nome bateu na caverna com uma familiaridade estranha, velha demais para o lugar onde estávamos. Lúcifer levantou uma sobrancelha. Eu senti Henri se mover dentro da minha atenção, guardando o nome antes de qualquer julgamento.

— Moisés — repeti. — E a mulher?

— Eva — ele respondeu, e o nome saiu diferente de todos os outros. — Ela está criando, com a minha ajuda, campos de força que vão interligar esses mundos e prendê-los entre si. Elaryan disse que todas as pessoas do universo acabarão aqui, distribuídas em sete planetas. Foi isso que ela nos contou. Foi isso que aceitamos terminar.

A palavra universo ocupou espaço demais para uma câmara tão pequena. Lúcifer desviou os olhos para o teto de pedra, onde nenhum céu aparecia, e a Fênix se agitou nas costas dele. Eu pensei no brilho que ele sentira no espaço, no vale ainda se devorando e nos três Guardiões que havíamos deixado marcados pelo vento.

— Ela pretende guardar todos os seres vivos num sistema fechado — Lúcifer disse. — Isso não cheira a salvação. Cheira a gaiola grande o suficiente para alguém chamar de mundo.

— Eu não disse que confio — Moisés respondeu. — Disse que estou preso ao que já começou.

As correntes brilharam outra vez. Moisés fechou os olhos, e o corpo dele se arqueou contra o tronco, puxado por uma força que não vinha da caverna. Por alguns segundos, ele deixou de conversar conosco. O poder atravessou a pele dele em linhas claras, subiu pelos braços, entrou no metal e desapareceu pela rocha atrás do tronco.

Lúcifer deu um passo para o lado, instintivamente pronto para cortar a corrente. Levantei a mão para impedi-lo. Não por confiança, mas porque a dor de Moisés tinha direção, e eu ainda não sabia o que quebraria se interrompêssemos.

Moisés voltou a respirar aos poucos. O suor escorria pelo rosto, e ele manteve os olhos fechados até recuperar uma voz que coubesse na garganta.

— Quando terminarmos, Elaryan prometeu nos deixar livres. Juntos. Eva e eu. Essa promessa é pequena diante do resto, eu sei, mas foi a parte que ainda consegui entender como humana.

— Ela diz que sabe do futuro? — perguntei.

— Diz — Moisés respondeu. — Diz que muita coisa já não muda, ou que mudar custaria pior. Depois de algum tempo sofrendo nas mãos de alguém que fala assim, você começa a duvidar do valor de resistir em cada ponto. Escolhe onde ainda consegue permanecer você.

Aquilo me atingiu mais do que a escala dos sete planetas. Eu reconhecia o cansaço de uma pessoa tentando distinguir escolha de rendição quando tudo ao redor já foi decidido por poderes enormes demais. Henri ficou quieto, e esse silêncio era concordância triste, não ausência.

— Agora existe uma ironia difícil de ignorar — Moisés disse, olhando para Lúcifer com um resto mínimo de humor. — Alguém chamado Lúcifer entrando nas profundezas de um planeta para me encontrar.

— Você veio da Terra — eu disse, antes que Lúcifer respondesse. — A referência entregou.

— Vim — Moisés respondeu. — Você também?

— Vim. E Lúcifer não é exatamente o anjo caído da sua lembrança terrestre — respondi. — Ele é filho de Odin, ou de uma figura que muita gente chamaria de deus se não tivesse visto de perto o tamanho dos defeitos.

Moisés riu por um instante. Quando percebeu que Lúcifer não acompanhava a brincadeira, o riso parou preso entre culpa e surpresa.

— Isso é sério? — ele perguntou, já sem força para duvidar por completo.

— Odin foi rei e foi poderoso — Lúcifer respondeu, frio. — Ficou bem longe de ser deus. E mais longe ainda de merecer devoção automática.

Moisés assentiu devagar, aceitando que a realidade tinha perdido o pudor havia muito tempo. A caverna, a guerra, os planetas e os nomes bíblicos já tinham quebrado qualquer escala normal de espanto.

— Só falta você dizer que Eva é a primeira mulher — falei, e me arrependi no mesmo instante, porque o rosto dele respondeu antes da boca.

— Tecnicamente, foi o primeiro ser do nosso universo com Partícula Cerebral — Moisés disse. — Foi o que Elaryan nos disse. Na primeira vida em que eu a conheci, eu fui Adam, filho dela. Depois vieram outras camadas, outros nomes, outros corpos. Eva permaneceu o centro que eu reconhecia mesmo quando o resto mudava.

A câmara ficou menor. Eu não sabia onde colocar aquela informação dentro da cabeça. Filho, amante, missão, costela, planeta, prisão. As palavras pertenciam a histórias incompatíveis, e ainda assim estavam ali, amarradas ao corpo de um homem que sangrava nas correntes.

— Continue — Henri pediu por mim, com uma calma que não diminuía o choque. — Só o que precisamos saber agora.

— Elaryan tirou uma costela minha e inseriu em Eva — Moisés disse. — Não como símbolo. Como vínculo material. Algo que permitisse que o meu poder sustentasse o dela à distância, criando esses campos de força. Pelo que entendi, isso vem de uma tecnologia ou estrutura ligada a planetas que ela chamou de Planetas das crianças.

Lúcifer olhou para mim. O nome não ajudava. Às vezes, no universo, as coisas mais perigosas recebiam nomes dóceis demais para que alguém gritasse antes do tempo.

— O que esses campos fazem? — perguntei.

— Fecham o sistema — Moisés respondeu. — Quem morrer dentro desses planetas só poderá renascer dentro de algum deles. Nada entra ou sai depois que a estrutura estiver completa, ou quase nada. Ela falou em proteger. Também falou em impedir dispersão. Eu ouvi as duas coisas e não consegui separar cuidado de controle.

Pensei em Emma no mar, em André preso a uma herança que mudava de forma, em Adwig, Móretar, Athos, em todos os mundos sendo conduzidos para uma mesma arquitetura. Pensei em Magno e Henri dentro de um corpo compartilhado, tentando descobrir liberdade enquanto o universo inteiro ganhava paredes.

— Você é Adam, ela é Eva, e vocês estão fechando sete planetas para prender renascimentos — Lúcifer disse. — Tem algo mais que precisamos engolir antes de voltar para a guerra?

— Tanto Eva quanto eu temos simbioses de dragão — Moisés respondeu. — E sangue de dragão. Acabamos nos tornando descendentes de alguém que também carregava uma simbiose de dragão. Isso ajuda o campo a suportar mundos, ou foi o que compreendi entre uma dor e outra.

Olhei para minhas próprias mãos. Eu tinha uma simbiose humana, Fenrir, Suzaku, armas místicas e a sensação persistente de ainda estar improvisando com coisas que outros tinham planejado por eras. Sentir-me pequeno no meio daquilo seria fácil. O difícil era continuar escolhendo enquanto me sentia pequeno.

— Então vamos deixar você aqui? — perguntei. — Não existe outro jeito de manter isso sem corrente, dor e promessa de liberdade no fim?

Moisés olhou para a caverna ao redor. Depois olhou para algum ponto que não estava ali, provavelmente Eva, ou o rastro dela dentro do vínculo. O rosto dele suavizou por um segundo, e esse segundo explicou mais sobre a permanência dele que todo o plano de Elaryan.

— Imagino que não agora — ele respondeu. — Se vocês me libertarem, podem salvar um homem e derrubar algo que Eva está sustentando com o próprio corpo. Se me deixarem, posso estar ajudando uma prisão gigantesca a nascer. Essa é a crueldade elegante da missão: qualquer escolha chega suja.

Lúcifer abaixou a espada. Não por concordar, mas porque havia decisões que nem uma lâmina mística tornava mais simples. Do lado de fora, o vale ainda exigia retorno. Eu senti o vento procurando a marca dos três Guardiões, impaciente.

— Nós vamos voltar — respondi. — Para você, para Eva, para cobrar de Elaryan o que ela chama de necessidade. Agora ainda há pessoas sendo sugadas no vale.

Moisés fechou os olhos. As correntes brilharam outra vez, mais fracas, e a respiração dele se ajustou ao pulso distante do campo que Eva construía.

— Então vão — ele disse. — Algo me diz que nos veremos de novo em breve. E, quando isso acontecer, espero ainda saber qual nome usar.

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