Amor por Interesse
Freya deixou o palácio, e Perséfone continuou junto à mesa com o sorriso de quem acreditava numa promessa. O beijo ainda ocupava minha atenção, não pela intimidade, mas pelo instante em que os olhos de Freya procuraram a porta. Henri conservara a mesma imagem. Fenrir, porém, queria correr atrás dela por uma razão mais antiga: a Rainha saíra do submundo sem explicar seu caminho ao novo Alfa.
— O movimento dos olhos basta para seguirmos alguém? — perguntou Henri dentro de nós. — Ela governa a cidade e disse que reforçaria as entradas.
— Não basta para acusá-la. Basta para verificar se foi até as entradas.
— Então verificamos o destino e voltamos. Se ela estiver cumprindo o que prometeu, encerramos a suspeita sem transformar vigilância em perseguição.
Krakor percebeu que acompanhávamos a porta por tempo demais e se inclinou na cadeira, pronto para preencher o silêncio com seu impulso habitual.
— O que aconteceu, garoto? Perséfone declarou o amor por uma mulher e você resolveu desejar a outra?
— Se a curiosidade virar paixão, prometo pedir sua autorização antes de sofrer — respondi. — Por enquanto, cuide para que Perséfone não fique sozinha.
Saí antes que ele encontrasse uma segunda piada. A galeria terminava numa abertura atrás dos jardins do castelo, mais estreita do que a escada escondida na torre. A luz do dia já alcançava o gelo quando chegamos à superfície. Toqueville estava junto à entrada, conferindo a troca entre lobos e felinas que guardariam o primeiro turno.
— O dia nasceu enquanto estávamos lá embaixo. A alcateia voltou para as casas? — perguntei.
— A maior parte voltou depois que os feridos conseguiram caminhar — respondeu Toqueville. — Mantive uma equipe perto do castelo e outra neste jardim. Freya pediu passagem poucos minutos antes de você subir.
— Ela entrou no castelo ou seguiu para alguma das entradas externas?
— Nenhum dos dois caminhos. Freya atravessou o jardim e tomou a rua do centro.
O destino contrariava a tarefa que ela anunciara. Henri pediu que eu explicasse a Toqueville somente o que podíamos sustentar, sem usar o título de Alfa para arrastá-lo a uma investigação contra a governante da cidade.
— Percebemos uma diferença entre o que Freya prometeu a Perséfone e a forma como saiu — contei. — Quero descobrir aonde foi antes que retorne. Você pode manter as entradas sem participar, ou pode nos ajudar sabendo que ainda não temos uma acusação.
Toqueville examinou as guardas felinas do outro lado do jardim. A rivalidade recebida de Fenrir fez nossos ombros endurecerem, e Henri os relaxou antes que o lobo transformasse a presença delas em prova.
— Se Freya estiver preparando a defesa, confirmaremos depressa — respondeu Toqueville. — Se estiver escondendo algo ligado à passagem, prefiro descobrir antes que os turnos dependam das ordens dela. Eu participo.
Seguimos até a entrada do castelo, onde doze lobos aguardavam em forma humana. Eu reconhecia alguns cheiros do campo, mas os rostos pertenciam às lembranças de Fenrir. Toqueville falou com o grupo sem apresentar nossa suspeita como certeza.
— Freya foi vista seguindo para o centro. Precisamos localizar o caminho que tomou e confirmar se alcançou alguma posição de defesa. Duplas percorrem as ruas principais, ninguém confronta as felinas e qualquer descoberta será comunicada pelo chamado curto.
Os lobos escolheram as duplas e partiram. Toqueville conservou dois junto ao castelo para que a busca não enfraquecesse a equipe de acompanhamento. Henri aprovou a divisão; nenhuma investigação merecia deixar Perséfone com menos proteção.
Atravessamos a avenida principal. O centro de Asgard já recebia vendedores, trabalhadores e patrulhas, e a circulação apagava depressa uma trilha comum. Fenrir separava odores com precisão, mas o cheiro de Freya aparecia em três ruas diferentes, sempre misturado ao de outras felinas.
— Ele acredita que estão criando pistas falsas — avisei Henri.
— Fenrir acredita que qualquer grupo de felinas protege Freya contra os lobos. Procure um sinal que não dependa da rivalidade dele.
Testamos o vento nas esquinas. Duas trilhas vinham contra a corrente e podiam ter sido levadas por roupas ou objetos; a terceira acompanhava marcas recentes sobre o gelo, produzidas por uma sola estreita. Seguimos essa direção até as pegadas se perderem numa praça.
Felinas ocupavam telhados e sacadas ao redor, mas nenhuma interferiu em nosso caminho. Podiam vigiar a busca, cumprir uma patrulha comum ou ignorar os lobos. Mantivemos as três hipóteses abertas.
Um uivo agudo atravessou a praça. Pessoas próximas continuaram andando; o som fora produzido numa frequência reservada à audição dos lobos. Fenrir localizou a origem atrás de dois quarteirões e nos conduziu por uma rua lateral.
Herge esperava junto a um depósito fechado, enquanto outro lobo guardava a esquina e acompanhava com atenção o movimento das patrulhas.
— Freya entrou naquele prédio de seis andares — informou Herge, apontando para uma construção do outro lado da rua. — Eu a vi cruzar a porta sozinha e não a vi sair.
— Você conferiu os fundos antes de emitir o chamado? — perguntou Toqueville.
— Conferimos os fundos e as duas laterais. Todas as janelas estão fechadas, e o prédio não possui outra saída no térreo.
O abandono da construção destoava das torres conservadas do centro. Revestimentos tinham se soltado da fachada, papéis e recipientes ocupavam as janelas inferiores e ninguém montara guarda na porta.
— Eu entro com Henri e Fenrir — decidi. — Toqueville, você aceita manter as saídas e retirar o grupo se alguma coisa mudar?
— Aceito manter uma rota de retorno — respondeu ele. — Se o prédio alterar a posição das portas, emitam três chamados. Não entrarei às cegas atrás de vocês.
Henri guardou a frase. Toqueville não precisava acompanhar cada risco para demonstrar lealdade; permanecer fora, observar a estrutura e conservar uma retirada podia exigir mais disciplina do que seguir o Alfa.
A porta abriu sem resistência. O interior cheirava a tecido úmido, poeira e comida deteriorada. Marquei a madeira com a unha de Fenrir antes de subir, enquanto Henri contou os lances e registrou a posição de cada janela. O cheiro de Freya atravessava os seis andares e terminava na cobertura.
Encontramos ali caixas quebradas, móveis sem uso e sacos abertos pelo tempo. Uma porta no lado oposto levava a um pequeno corredor externo. Pela largura observada da rua, a segunda porta deveria abrir num compartimento encostado à parede lateral.
— O cheiro dela passa pelas duas — disse Henri. — Marque a primeira e confira o fluxo de ar antes de atravessar a segunda.
Riscamos duas linhas no batente. O ar saía do compartimento em direção à cobertura, mas trazia folhas frescas e água corrente, odores ausentes de todo o prédio. Atravessei a segunda porta.
Voltamos à cobertura. As caixas, o lixo e os móveis tinham desaparecido; colunas claras cercavam um piso limpo, e plantas cresciam junto ao parapeito. As duas linhas marcadas continuavam no batente atrás de nós, embora a porta agora pertencesse à entrada de um templo.
Fenrir tentou aceitar o novo espaço pela memória. Ele conhecia salões internos maiores do que a construção, torres dobradas e caminhos que retornavam a outro ponto. Henri recusou essa familiaridade como prova de segurança e fez nosso corpo tocar o chão, a parede e o parapeito. Todos tinham textura, temperatura e resistência.
— A matéria responde ao toque, mas a distância pode estar alterada — concluiu Henri. — Mantenha a porta aberta e registre cada mudança de direção.
Perto da borda, um portão de metal fechava uma escada para baixo que não existia na primeira cobertura. O cheiro de Freya seguia por ela. Abri o portão, deixei um fragmento de madeira preso à dobradiça e desci.
A escada terminou diante de um vale iluminado. Árvores, cursos de água e construções de pedra ocupavam um espaço centenas de vezes maior do que o prédio. O teto desaparecia acima de uma claridade uniforme, sem Sol nem abertura. A única trilha conduzia a um jardim elevado.
Henri manteve a contagem dos passos. Fenrir reduziu nosso corpo até uma forma lupina do tamanho de um animal jovem, baixa o suficiente para atravessar a vegetação sem expor a cabeça. Eu controlei a respiração e o vento ao redor do pelo para impedir que nosso cheiro avançasse.
Freya conversava com um homem perto do jardim. Ele estava de costas para nós e não carregava odor definido; o ar ao redor oferecia terra, metal, flores e vazio em alternância. A ausência de uma trilha própria era a primeira evidência de que aquele lugar também interferia nos sentidos de Fenrir.
— As chances de derrotarem Hades cresceram — dizia Freya. — Se falharem, ele conhece a passagem e pode tentar fugir para Inc.
— Justo quando nossa estrutura começava a sustentar áreas maiores — respondeu o homem. — Cada mudança feita por Hades nos obrigará a reconstruir uma parte.
— Faltava pouco para completar o mundo de ilusões e testar o controle sobre ele. Se ocupássemos o lugar de Hades, ninguém em Inc contestaria nossa posição.
O homem caminhou até uma superfície de água. O reflexo mostrava dois rostos diferentes para ele, e nenhum permanecia tempo suficiente para que eu o reconhecesse.
— O grupo pode terminar o trabalho por nós — disse ele. — Se Hades cair, esperamos que partam e assumimos o espaço vazio. Se ele voltar, preservamos a estrutura e entregamos a informação que nos convier.
Freya cruzou os braços. A segurança exibida no palácio cedeu a uma inquietação que ela não mostrara diante de Perséfone.
— E como me afasto de Perséfone caso ela seja libertada? Ela espera que eu deixe Asgard e construa uma vida com ela.
— Diga que a cidade depende de você. Permaneça aqui até o grupo partir e, depois, encontramos uma forma de separá-la de nós.
A mão de Henri fechou-se dentro do corpo pequeno antes que Fenrir avançasse. A terceira consciência recebera a frase como ataque contra alguém protegido pela alcateia. Seguramos as patas no chão e permanecemos entre as folhas.
— Ouvimos exploração e um plano para afastá-la — advertiu Henri. — Ainda não sabemos quanto do afeto de Freya foi mentira. Não complete o que ela não disse.
Ele tinha razão. Freya usava a expectativa de Perséfone para conservar poder e escondia uma parceria capaz de ameaçá-la. Isso bastava. Transformar toda a relação numa farsa seria acrescentar uma certeza que a conversa não entregara.
— Preciso voltar — disse Freya. — Eles estão organizando a defesa contra Hades, e minha ausência já durou mais do que deveria. Ninguém pode descobrir que você permanece aqui.
O homem segurou-a pela cintura. Freya o abraçou e o beijou sem a rigidez percebida na despedida do palácio. Quando se afastou, ele a chamou antes que alcançasse a trilha.
— Você é a única parte de mim que não pertence a uma ilusão.
— E você continua sendo a única pessoa com quem divido este projeto, Loki.
O nome atingiu minhas lembranças terrestres, mas Henri impediu que qualquer mito completasse o homem que acabáramos de ouvir. Fenrir também guardava histórias contraditórias sobre Loki. Nenhuma delas valia mais do que o plano pronunciado diante de nós.
Freya seguiu para a escada. Esperamos até que o cheiro dela se afastasse, recuamos pela trilha e recuperamos o tamanho humano antes da cobertura. O fragmento de madeira continuava na dobradiça, mas as colunas e as plantas desapareceram quando atravessamos a segunda porta. As duas linhas no batente confirmaram que voltáramos ao mesmo ponto físico.
— Contamos agora a Perséfone? — perguntei a Henri durante a descida.
— Se a confrontação alertar Loki, ele pode alterar rotas que ainda usamos para retirar pessoas e vigiar Hades. Primeiro precisamos proteger as marcas físicas, informar alguém capaz de reagir sem anunciar o segredo e procurar Athos quando houver passagem.
— Ela acreditará que repetimos a escolha de decidir por ela.
— Por isso a espera precisa ter limite. Guardamos a informação durante a crise imediata, não indefinidamente. Assim que as rotas estiverem verificadas ou Loki agir contra a defesa, contamos o que ouvimos.
Ao imaginar Perséfone ainda sorrindo junto à mesa, senti a violência de voltar sem contar. Aceitei apenas uma espera curta, encerrada assim que as rotas estivessem protegidas ou Loki ameaçasse a defesa.
Toqueville aguardava no térreo. Herge e os outros mantinham as esquinas, e nenhuma patrulha felina se aproximara da construção desde nossa entrada.
— Encontramos uma estrutura que altera espaço, aparência e cheiro — informei. — Não posso entregar os nomes ainda sem expor Perséfone, mas a defesa precisa conferir portas, distâncias e pessoas por mais de um sentido. Marquem os acessos fisicamente, usem duplas mistas e desconfiem de qualquer mudança que apenas um integrante consiga perceber.
— Isso também inclui ordens dadas por você, Alfa? — perguntou Toqueville.
Henri aprovou a pergunta antes que eu respondesse, porque uma ilusão com nosso rosto poderia usar a obediência da alcateia contra todos os grupos.
— Inclui. Se eu aparecer sozinho, mudar uma rota sem explicar ou pedir que desfaçam os grupos mistos, confirme com Henri, Fenrir e outra pessoa que esteve no palácio.
— Então consigo aplicar a proteção sem conhecer o segredo — respondeu Toqueville. — Herge ficará com a equipe do centro. Eu volto para as entradas e comparo as marcações com as guardas felinas.
Seguimos de volta ao submundo mantendo distância de Freya. Ela atravessou os jardins pouco antes de nós e desceu sem olhar para a equipe de Toqueville. Quando alcançamos o palácio, Krakor estava perto da porta e percebeu que chegávamos quase junto com a Rainha.
— Descobriu que Freya mantém um amante escondido, usa Perséfone para sustentar poder diante de Hades e pretende ocupar o lugar dele quando todos partirem? — perguntou, divertindo-se com a própria hipótese.
Nosso corpo parou. Fenrir eriçou os pelos dos braços, Henri conteve a primeira resposta e Krakor perdeu o sorriso ao perceber que a brincadeira acertara pontos demais.
— Você está falando sério? — perguntou ele, agora em voz baixa.
— O nome dele é Loki, e os dois mantêm uma estrutura de ilusões no centro — respondi, conduzindo-o para longe da porta. — Ouvimos o plano de ocupar o espaço de Hades e afastar Perséfone caso ela seja libertada. Não sabemos se Freya pretende sabotar a defesa agora, nem podemos reduzir toda a relação delas ao que escutamos.
— E Perséfone continua sem saber de nenhum desses planos?
— Durante o risco imediato — respondeu Henri com nossa voz. — Toqueville está protegendo as rotas contra alterações. Você nos ajuda a observar Freya e conta a Perséfone se Loki interferir ou se perdermos a possibilidade de controlar o momento da revelação.
Krakor olhou para Freya, que retomava o lugar ao lado de Perséfone, e depois para os corredores por onde Hagar, Nerfate, Bel e Dafa começavam a retornar de suas investigações. Pela primeira vez desde que chegáramos a Inc, ele recebeu um segredo sem procurar uma piada para carregá-lo.
— Certo. Primeiro impedimos Hades de entrar. Depois impedimos Loki de decidir o que é real.