Sangue Original Liberdade do Vento · Capítulo 47 de 49
Obra Menu

Sangue Original

Voltamos ao vale com a marca dos três possíveis Guardiões ainda presa ao vento. A caverna ficou para trás, mas Moisés e Eva continuaram comigo, não como lembrança organizada, e sim como uma pressão atrás dos olhos. Sete planetas fechando, renascimentos presos, pessoas sugadas abaixo de nós. A guerra tinha aprendido a caber em camadas.

Lúcifer pousou numa pedra alta, observou o vale e depois olhou para o céu. A Fênix dele se mantinha recolhida, mas o dragão dentro dele estava acordado de outro jeito, atento aos corpos que ainda se mordiam. Ele demorou alguns segundos antes de falar, e esse silêncio não combinava com ele.

— Magno, acho que Elaryan queria que todo mundo acreditasse numa batalha — Lúcifer disse. — Mas desde o início ela sabia que o ataque tomaria essa forma. Se lobos e vampiros morressem rápido demais antes de Eva fechar a redoma, poderiam renascer fora deste sistema. Se ficarem aqui, o sangue se mistura, a morte circula e o resultado nasce dentro da gaiola.

Henri recebeu a hipótese sem pressa. Eu senti a resistência dele não contra a lógica, mas contra a facilidade com que a lógica começava a caber. Depois de Elaryan, Moisés e os campos, uma explicação cruel demais podia ganhar aparência de mapa.

— Você acha que a intenção é miscigenar o sangue dos vampiros e dos lobos — respondi. — Não só vencer uma guerra.

— Acho — Lúcifer disse. — E odeio o quanto isso explica.

Abaixo de nós, vampiros e lobos continuavam sem frente, sem ordem, sem povo reconhecível. Os três Guardiões que havíamos marcado ainda estavam vivos, ou ao menos ainda eram usados como vivos. Outros corpos próximos começavam a se erguer e cair com a mesma fome mecânica.

— O que aconteceria se fôssemos para o meio deles? — perguntei. — Não para matar. Só para testar se ainda existe alguém ouvindo.

Lúcifer me olhou de lado. A resposta já estava quase pronta nele, e isso raramente era tranquilizador quando a morte precisava esperar pela criatividade de alguém.

— Você é o Alfa, não é? — ele disse. — Alguma parte deles pode responder, mesmo atravessada por essa fome.

— Os lobos doentes não responderam quando a contaminação começou — respondi. — E isso aqui é pior que doença. Fenrir está inquieto desde que chegamos. Não sei se vou comandar os lobos ou entregar meu corpo ao mesmo chamado.

Fenrir respondeu ao próprio nome dentro de mim com uma pressão nos ossos. Aquilo passava longe do medo. Era ofensa. A ideia de existir um lobo que não respondesse ao Alfa atingia nele um lugar antigo, anterior a qualquer diplomacia que Magno e Henri tentassem construir.

— Então teste comigo — Lúcifer disse. — Entre no meio, mande que me ataquem e ordene que parem antes de me alcançarem.

— Essa é uma das ideias mais idiotas que eu já ouvi desde que acordei nesse corpo — respondi.

— Obrigado — ele respondeu. — Estou tentando manter um padrão mesmo no fim do mundo.

Henri soltou ar pelo nosso nariz, quase rindo, quase xingando. O absurdo da proposta tinha um mérito que eu não queria admitir: se funcionasse com Lúcifer como alvo, poderíamos medir comando sem escolher alguém indefeso. Se falhasse, Lúcifer ainda era a criatura mais difícil de matar naquela encosta.

— E se não funcionar? — perguntei, olhando para os dentes mais próximos no vale.

— O máximo é eu virar um lobo descontrolado por alguns minutos — Lúcifer respondeu. — Duvido que isso aconteça. Tenho dois animais intensos demais disputando espaço aqui dentro, além da Fênix. Um convite externo vai ter que enfrentar fila.

Desci antes que minha prudência encontrasse outra forma de dizer não. Lúcifer veio comigo, pousando no meio do vale com a delicadeza de uma catástrofe tentando ser educada. No primeiro instante, ninguém nos notou. Aquilo me assustou mais que um ataque imediato. A fome estava tão fechada sobre si mesma que dois intrusos vivos não bastavam para quebrar seu ritmo.

Uivei, e o som saiu de mim e de Fenrir ao mesmo tempo. Aquilo passava de volume. Foi vertical, profundo, uma ordem que atravessou carne, lama, dentes e asas. Lobos pararam. Vampiros também pararam. Centenas de olhos viraram para nós com uma obediência sem pessoa dentro.

— Ataquem Lúcifer — ordenei, sentindo Henri prender a respiração dentro do meu peito.

A massa avançou. Lobos saltaram primeiro, mas vampiros vieram junto, arrastados pelo mesmo comando ou por outra coisa despertada nele. Lúcifer permaneceu parado até tarde demais para alguém prudente. Dentes chegaram perto do pescoço, das asas e dos braços dele.

— Parem — ordenei, antes que os dentes completassem o último palmo.

Todos pararam, e o silêncio que veio depois passou longe de paz. Foi suspensão. Corpos ficaram no ar por meio segundo antes de cair de volta no chão, imóveis, contidos por uma ordem que eu ainda não entendia. Fenrir saiu de dentro de mim em forma de sombra viva, saltou acima do vale com orgulho obsceno e voltou ao meu peito antes que eu conseguisse chamá-lo de volta.

— Ele está satisfeito demais com isso — Henri murmurou dentro de mim.

— Eu percebi — respondi, mantendo a boca fechada para que ninguém além dele ouvisse.

Lúcifer passou a mão pelo pescoço, onde um vampiro tinha parado a poucos dedos da pele. O dragão dentro dele se moveu com um prazer diferente do de Fenrir, mais frio, mais atento.

— Não quero estragar sua comemoração interna — Lúcifer disse. — Mas meu dragão afirma que você controlou os lobos. Os vampiros pararam porque sentiram ele quando chegaram perto.

Fenrir tentou avançar dentro de mim com violência imediata. Henri segurou comigo, e Suzaku subiu quente o bastante para transformar a fúria em respiração. Aquela hora não servia para disputar vaidade ancestral com o dragão de Lúcifer.

— Então precisamos testar o contrário — eu disse, e ouvi tarde demais o quanto isso soou irresponsável.

Lúcifer sorriu, e esse era o problema de trabalhar com alguém que gostava de ideias ruins quando elas eram úteis demais para descartar.

— Dragões, ataquem Magno — ele ordenou, rápido o bastante para impedir meu arrependimento.

Os vampiros se moveram, não todos, mas muitos. As asas abriram, os corpos se dobraram e a fome ganhou direção diferente. Eles não seguiam exatamente a voz de Lúcifer; seguiam o que o dragão dele acordava no sangue transformado. Vi Drácula entre eles, olhos abertos, rosto sem resposta, corpo obediente a uma camada que não tinha mais rei.

— Lobos, proteção — ordenei, firmando os pés na lama antes do impacto.

Os lobos se colocaram entre mim e os vampiros com a mesma obediência vazia. Por um instante, o vale inteiro virou muralha de dentes suspensos. Dragões contra lobos. Fenrir contra o sangue de Lúcifer. Depois nós dois mandamos parar quase juntos, e todos ficaram absolutamente imóveis.

Foi nesse momento que a pior conclusão apareceu. Nenhuma pessoa respondia ali de modo visível. Havia animais novos, comandos antigos e corpos conhecidos servindo de lugar para forças que tinham tomado a frente. A consciência, se existia, estava soterrada.

Aproximei-me de Drácula. Ele estava no meio dos vampiros, com sangue seco no queixo e olhos abertos demais. Eu procurei nele o rei de Dracs, o assassino de Carmilla, o homem que pedira desculpas, qualquer coisa que pudesse responder por um nome.

— Drácula, responda — chamei. — Você está me ouvindo?

Ele não se moveu. Lúcifer repetiu a pergunta, usando outro tom, procurando alcançar com o dragão ou a Fênix uma camada diferente. Nada. Drácula continuou parado, obediente à interrupção, ausente de si mesmo.

— Eles ficaram tempo demais na forma animal — uma voz disse atrás de nós. — E esses animais não existiam antes. Não são lobos comuns, nem vampiros comuns, nem dragões herdados de uma linhagem estável. São criaturas novas, com tendências lupinas ou dracônicas, mas únicas.

Reconheci a voz antes de virar. Lavigne caminhava entre os corpos parados, ainda pálida, ainda marcada por ferimentos, mas consciente. A presença dela cortou a cena de um jeito estranho: parte resgate, parte lembrança da câmara das gatas, parte convite que não cabia naquele vale.

— Nos encontramos de novo, Lavigne — respondi, sentindo a memória do último encontro atravessar Henri e eu com desconforto e calor.

— Eu disse que veríamos um ao outro — ela falou, abrindo um sorriso cansado. — Imaginava uma situação melhor. Mas, se o mundo insiste em acabar ao nosso redor, pelo menos não me tira o direito de reconhecer alguém interessante.

— Desculpem interromper esse flerte em cenário de desastre — Lúcifer disse. — Mas por que você não está no mesmo transe que eles?

Lavigne riu, sem alegria suficiente para suavizar a pergunta. Ela tocou o próprio pulso, onde uma veia ainda pulsava com regularidade teimosa, e olhou para os outros Guardiões começando a aparecer entre os corpos parados.

— A resposta está no sangue — ela disse. — No meu e no dos outros que se tornaram meu círculo, minha família, a única comunidade que sobrou para mim depois de Dracs, Carmilla, cárcere e resgate.

O nome de Paole ficou entre nós antes que alguém o dissesse. Lavigne percebeu. Os olhos dela mudaram um pouco, não para chorar, mas para encaixar uma perda que ainda não tinha confirmação.

— Paole sumiu — ela continuou. — Posso imaginar que vocês o mataram e que pretendiam fazer o mesmo conosco. Não digo isso como acusação. Se eu estivesse no lugar de vocês, com a informação que ele tinha, usaria o mesmo plano. A sorte é que encontraram outra porta antes de terminar o serviço.

Eu não respondi. Henri também não encontrou resposta que não diminuísse Paole. Lavigne aceitou nosso silêncio pelo que ele era.

— O DNA muda — ela disse. — A evolução muda forma, desejo, memória corporal, até o jeito como alguém reconhece a si mesmo. A Partícula Cerebral carrega muito, mas não carrega tudo sozinha. Alguma coisa permanece no sangue, pequenos indicadores, uma assinatura funda que faz alguém continuar sendo alguém. No nosso caso, isso nos torna quase imutáveis.

— E comigo? — Lúcifer perguntou, encarando a própria mão fechada.

— O seu sangue despertou isso quando recebeu o dragão — Lavigne respondeu. — O dragão que veio parar em você certamente passou por alguém parecido conosco.

— Carmilla me transformou — Lúcifer disse. — Ela me recebeu quando cheguei.

— Meu palpite é que venha de quem transformou Carmilla — Lavigne respondeu. — Senti mais dois seres com esse tipo de sangue. Um nas alturas e outro nas profundezas.

Moisés voltou para dentro da minha cabeça antes que eu chamasse. Eva no alto. Moisés na caverna. Dragão, sangue, campo, sete planetas. A explicação de Lavigne não resolvia o universo, mas encaixava peças suficientes para tornar a figura mais assustadora.

— Existem dois dragões sendo usados por Elaryan — Lúcifer disse. — Um deles estava na caverna. O outro está lá em cima, fechando alguma coisa. Não temos como tirá-los de lá agora.

Lavigne olhou para o céu, depois para os corpos parados. Outros Guardiões se aproximavam, alguns apoiados uns nos outros, recuperando equilíbrio, sede e consciência com lentidão dolorosa. O vale inteiro esperava uma ordem que ninguém queria carregar.

— Muita gente com sangue original junta — Lavigne disse. — Isso é raro a ponto de parecer escolha, não acaso. Você imagina quantas pessoas já tiveram meu sangue em alguma linhagem e nunca despertaram nada parecido?

— Depois de hoje, eu desconfio de qualquer coisa que pareça acaso — respondi.

Os Guardiões formaram um semicírculo irregular. Alguns olhavam para mim com gratidão ferida. Outros com cálculo. Todos tinham ouvido o bastante para saber que eu havia matado Paole, mesmo sem exigir confissão naquele instante.

— O que vocês sugerem? — perguntei, porque nenhuma ordem minha resolvia aquilo sozinha.

Lavigne olhou para Drácula, para os lobos, para os vampiros e para os três Guardiões que ainda carregavam marcas de mordida. Quando voltou os olhos para mim, o flerte tinha desaparecido. Restava alguém escolhendo a frase que doeria menos por ser direta.

— A melhor alternativa aqui é morte — ela respondeu. — Não consigo pensar em outra. Pode nem resolver tudo, mas é a única que ainda parece impedir que esses corpos continuem sendo usados.

1/1
Menu

Fazer anotação