Os Mestres do Ar Liberdade do Vento · Capítulo 15 de 49
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Os Mestres do Ar

Nazerith acordava sempre na mesma posição, com o ombro esquerdo comprimido contra o chão e os joelhos presos às costas de Nazer. A cela permitia que os dois se virassem de lado mediante um esforço conjunto, mas não tinha altura suficiente para que se sentassem. A escuridão só mudava quando uma abertura rente ao piso deixava entrar uma faixa de luz e alguma coisa para ler.

O ar oferecia a primeira pista sobre a prisão. Era denso, carregado de uma umidade que se acumulava na pele e resistia aos movimentos da mente. Nazerith tentara criar uma corrente mínima ao redor do rosto; conseguiu apenas afastar por alguns segundos o calor da própria respiração. Nazer pressionara moléculas em pontos diferentes da cela, procurara frestas e tentara romper o material das paredes por dentro. Cada tentativa terminara em dor atrás dos olhos e nenhuma marca aparecera na estrutura.

Quando a fome os deixava fracos, uma mão empurrava pela abertura o manual de algum objeto que nenhum dos dois conhecia. Tinham recebido instruções para montar um purificador de poeira, reparar uma fechadura magnética e calibrar uma máquina destinada a medir a acidez de bebidas. Bastava compreender o funcionamento de uma peça nova para que o cérebro produzisse energia e o corpo recuperasse parte da força. Os carcereiros conheciam a fisiologia dos nascidos em Finiti e entregavam conhecimento na quantidade exata para impedir que morressem.

Nazerith dobrou um dos manuais até formar uma tira estreita e tentou alcançar a abertura. O papel tocou uma superfície lisa do outro lado, sem encontrar dobradiças, fechadura ou mão humana. Nazer acompanhou o movimento deitado atrás dele.

— Eles poderiam nos alimentar melhor e preferem esperar até perdermos a força — disse Nazer. — Querem que continuemos vivos, mas incapazes de lutar.

— Se o objetivo fosse nos interrogar, já teriam feito alguma pergunta. Também não tentaram nos convencer a colaborar.

— Nossa morte cria um resultado que eles não controlam. Podemos renascer longe, voltar mais fortes ou levar conosco alguma informação que ainda tem valor. Enquanto respiramos aqui, sabem exatamente onde estamos.

Nazerith não tinha prova de que a morte os libertaria. Conhecera planetas onde pessoas renasciam sob o mesmo domínio e outros em que a vida seguinte começava séculos depois, distante de qualquer rosto familiar. Permanecer naquela caixa, contudo, entregava ao sequestrador uma certeza maior do que qualquer uma dessas possibilidades.

O tempo era medido pelos materiais recebidos e pela fome entre eles. Os irmãos contaram o que haviam vivido durante os anos separados, interrompendo uma história quando percebiam que o outro já conhecia alguma parte. Nazerith falou de Magno, da chegada dele a Finiti e do brilho que revelara o vínculo de sangue. Nazer contou como encontrara Henri, como o príncipe crescera e o que vira durante a tomada do Palácio. A conversa os alimentava pouco, sustentada pelas informações novas que ainda conseguiam trocar.

Depois vieram folhas de um jornal de Foster. As notícias tratavam da troca de responsáveis por uma plantação, da ampliação de uma estrada e de uma cerimônia promovida pelos reis. Os nomes dos lugares confirmaram que estavam fora de Finiti, mas não ofereciam coordenadas nem qualquer descrição do céu. Nazer decorou as funções mencionadas no texto; Nazerith guardou os nomes e as datas, embora nenhum dos dois soubesse qual calendário Foster utilizava.

O lote seguinte continha quase cinquenta livros de ficção científica publicados em Erulen. Os volumes foram empurrados juntos, ocupando o pouco espaço que ainda permitia aos irmãos mudar de posição. Nazer abriu o primeiro, leu duas páginas e bateu duas vezes com o calcanhar no tornozelo de Nazerith. Era um sinal usado pelos antigos Mestres do Ar quando uma retirada precisava ser combinada sem voz.

Eles não economizaram os livros. Leram até a vista perder o foco, passaram cada volume de uma mão para outra e avançaram por histórias que apresentavam máquinas, povos e formas de viagem desconhecidas. A energia devolvida pela leitura foi gasta na própria leitura. Quando terminaram o último, empilharam os livros perto da abertura e deixaram de conversar.

Nos primeiros períodos de silêncio, Nazerith ainda organizou mentalmente as notícias e os romances. Depois esvaziou a atenção, contando apenas as respirações necessárias para permanecer acordado. O corpo consumiu o que restava. A língua aderiu ao céu da boca, os braços perderam força e o atrito do chão abriu feridas nos quadris e nos ombros. A abertura continuou fechada.

Uma folha de jornal entrou quando Nazerith já não conseguia erguer a cabeça. Parou perto de seus dedos. Ele viu uma linha impressa, mas as letras se desfizeram antes que pudesse reuni-las numa palavra.

— Malditos! — gritou alguém do lado de fora. — Eles não conseguem pegar o alimento. Chamem o rei.

Passos se afastaram. Nazer moveu o pé até encostar no tornozelo do irmão e repetiu as duas batidas, mais fracas do que da primeira vez. A resposta de Nazerith foi apenas uma pressão dos dedos contra o chão.

A estrutura começou a vibrar. A parede sobre as costas deles cedeu de uma vez, arrancada para o alto junto com placas de metal e blocos de pedra. A claridade feriu os olhos de Nazerith. Ele fechou as pálpebras, respirou o ar que entrou pela abertura e sentiu a densidade diminuir ao redor do rosto.

Quando conseguiu enxergar, estava deitado no meio de um deserto. A prisão ocupava uma construção pequena, enterrada quase por inteiro na areia e cercada por soldados. Um homem permanecia diante dos destroços com os braços ainda erguidos. Faíscas percorriam seus dedos e desapareciam sob as peças da roupa.

— Vermes! — gritou o homem. — Dei a vocês conhecimento suficiente para viver e tentaram morrer dentro da minha prisão.

Nazer virou o rosto na direção da voz. Os lábios rachados se abriram num sorriso que Nazerith não via desde o sequestro.

— Calabejar, eu reconheceria essa irritação mesmo depois de tantas vidas. Um Mestre do Ar usando soldados para vigiar dois homens deitados.

O homem avançou sobre os restos da cela. Nazerith nunca conhecera Calabejar, mas ouvira o nome nos registros do primeiro regimento. Nazer falara pouco sobre ele e nunca com simpatia.

— Não pronuncie esse nome — ordenou o antigo mestre. — Eu sou Cronos. Rei Cronos.

— Mudar o nome e proclamar-se rei não remove o que veio antes.

Cronos lançou uma descarga contra Nazer. O corpo do irmão bateu nos destroços, preso pela falta de espaço e pela fraqueza. Nazerith tentou mover o ar entre eles; a corrente perdeu forma antes de alcançar o peito do rei.

— Você ainda sorri porque não entendeu o que conquistei — disse Cronos. — Esperei muito para ter o responsável pelo meu calvário nas mãos.

Nazer tossiu, recuperou o fôlego e tornou a encará-lo. O sorriso agora exigia esforço, mas cumpria uma função. Cronos abandonara os insultos e começara a entregar uma história.

— Você continua enfrentando quem está caído — disse Nazer. — Evoluiu, reuniu soldados e precisou nos deixar sem alimento. Quanto desse poder é realmente seu?

Cronos atingiu a boca dele com a bota. O sangue cobriu os dentes de Nazer, que caiu de costas e contemplou o céu azul. Nazerith acompanhou os soldados ao redor. Alguns haviam recuado quando ele tentara mover o ar; outros olhavam para Cronos à espera de nova ordem.

— Levei tempo demais para construir Foster e assumir o lugar que me negaram — respondeu o rei. — Você me condenou, chamou minha ambição de ameaça e convenceu os outros mestres a me expulsarem. Agora posso manter você aqui pelo tempo que desejar.

Nazerith entendeu por que o irmão escolhera aquele ponto. Cada detalhe desconhecido alimentava os dois. O sangue continuava saindo da boca de Nazer, mas sua respiração ganhava profundidade. Nazerith voltou a sentir o ar contornando os soldados, a areia aquecida pelo Sol e as faíscas concentradas nas mãos de Cronos.

— Expulso e ainda assim coroado — disse Nazer. — Alguém encontrou utilidade no que os Mestres do Ar recusaram. Quem controla você?

— Ninguém controla Cronos. A fonte do meu poder é divina, porém sou eu quem decide o que fazer com ela.

— Você ainda acredita em deuses? — perguntou Nazer, deixando o sangue escorrer sem desviar o olhar.

Cronos aproximou-se até manter a sombra sobre o rosto de Nazer. A pergunta ferira uma certeza que ele desejava exibir, e Nazerith percebeu os soldados se endireitarem antes da resposta.

— Os deuses existem acima de cada mundo, e acima deles existem outros. Elaryan está além de qualquer concepção que você tenha. Ela atravessa o espaço, altera a velocidade do tempo, destrói planetas e concede poder a quem escolhe. Tudo o que conquistei começou quando tive acesso a ela.

Nazerith flexionou os dedos contra a areia. Os grãos responderam ao deslocamento mínimo do ar ao redor de sua mão, e nenhum soldado reagiu.

— Ela veio a Foster? — perguntou Nazerith. — Falou com você ou enviou alguém?

Cronos voltou-se para ele e relaxou os ombros, satisfeito por finalmente receber uma pergunta que não contestava de imediato seu poder.

— Eu estive diante dela. Vi o que pode fazer e recebi uma missão que vocês não conseguirão impedir.

— Manter dois Mestres do Ar vivos faz parte dessa missão?

— Vocês deveriam permanecer fora dos acontecimentos até que ela decidisse o contrário. Quando encontrei Nazer entre os aliados de Henri, reconheci a oportunidade de cumprir a ordem e terminar uma dívida antiga.

Nazerith fez outras perguntas sobre Foster, os reis e os poderes recebidos. Cronos respondia mais do que deveria sempre que Nazer demonstrava descrença. O conhecimento entrava no corpo dos irmãos em pequenas quantidades. Nazerith já conseguia sustentar uma corrente rente ao chão; Nazer movimentava a areia atrás dos destroços, fora do campo de visão do rei.

Os olhos do irmão encontraram os seus. Nazer pressionou duas vezes o indicador contra a areia e esperou. O sinal antigo significava retirada, mas o caminho proposto não tinha volta conhecida. Nazerith pensou em Magno, no pouco tempo que tivera com o filho e na possibilidade de nunca encontrá-lo outra vez. Depois olhou para a cela destruída e respondeu com duas pressões.

O vento levantou a areia ao redor de Cronos. Os grãos se comprimiram em dezenas de pontas estreitas e avançaram contra o rei. Os soldados fecharam a formação, porém Cronos mandou que permanecessem onde estavam e ergueu diante do corpo uma barreira que desviava cada projétil.

— Você me julga ingênuo, Nazer? — perguntou Cronos. — Eu sabia que estavam recuperando força enquanto me faziam falar.

Nazer sustentou o ataque até as mãos começarem a tremer. Duas pontas permaneceram baixas, escondidas na areia, uma ao lado de cada irmão.

— Um egocêntrico sempre acredita que o ataque será contra ele.

Nazerith alinhou a cabeça quando sentiu o vento mudar. Não fechou os olhos nem tentou deter a arma que se ergueu ao lado de sua têmpora. A última coisa que viu foi Nazer fazendo o mesmo movimento entre os destroços, enquanto as duas pontas atravessavam os dois ao mesmo tempo.

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