Descobertas
Escolhi uma direção e fui. Sem Sol, sombra ou elevação que servisse de referência, qualquer rumo valia tanto quanto outro. Mantive uma árvore atrás das costas, caminhei até a seguinte e repeti o processo, tentando formar uma linha reta. A vegetação crescia em grupos separados por campos baixos; mesmo assim, o terreno curvo devolvia a mesma paisagem a cada distância vencida. Eu estava num deserto feito de árvores.
O corpo começou a medir o tempo que o céu escondia. Primeiro vieram o peso nas pernas e o calor dentro dos sapatos. Depois, a língua grudou no céu da boca e os ombros se inclinaram para a frente. Eu havia atravessado quedas, correntes e uma floresta que copiara meu rosto, mas caminhar sem destino consumia minhas forças com uma paciência muito maior.
A fome voltou. Para contê-la, calculei quantos passos separavam duas árvores, comparei espessuras de troncos e tentei descobrir se o terreno completava um círculo. Quando os números se repetiram, inventei uma cidade suspensa sobre aquele mundo e decidi quem teria construído cada ponte. Dei nomes aos moradores, arranjei brigas entre eles e comecei uma história sobre alguém que procurava a única escada capaz de levá-lo ao chão. Enquanto criava, o aperto no estômago diminuía. Bastava interromper o pensamento por alguns minutos para ele retornar.
Eu começava a compreender a alimentação por conhecimento ensinada por Nazerith. Teorias serviam, mesmo quando estavam erradas. Histórias também. O cérebro exigia movimento, não acerto. A descoberta me manteve andando por mais algum tempo, até minhas pernas perderem o interesse pelas cidades que eu inventava e dobrarem sob o corpo. Sentei na grama, encostei as costas numa árvore e fechei os olhos.
— Magno! — A voz alcançou minha cabeça sem atravessar os ouvidos. Abri os olhos e me levantei depressa, procurando alguém entre as árvores. O campo continuava vazio.
Girei uma vez, depois outra. O chamado voltava quando eu parava de me mover, próximo demais para ter vindo de longe e íntimo demais para pertencer ao terreno. Reconheci o ritmo antes da segunda palavra. Era Nazerith, mas a voz surgia entrecortada, perdendo força no fim de cada frase.
— Estou falando diretamente com sua mente. Não consigo manter a comunicação por muito tempo. Você está seguro no deserto dos Ventos, porém também está preso. Caminhando, nunca encontrará a saída, e ninguém conseguirá encontrar você. Precisa voar. Quando sair do chão, poderá ser rastreado. Arrisque mesmo assim. Um homem parecido comigo irá procurá-lo. Confie nele. — Esperei outra instrução. Recebi apenas uma respiração curta, seguida por duas palavras quase apagadas. — Boa sorte.
Chamei por Nazerith em voz alta e dentro da cabeça. Nenhuma resposta veio. A fraqueza da mensagem dizia mais sobre a situação dele do que as frases escolhidas. Ele podia estar ferido, escondido ou cercado; qualquer uma das possibilidades tornava difícil justificar mais uma hora sentado sob a árvore.
Levantei e afastei os pés. Durante a queda, eu conseguira alterar a posição do corpo porque já existia uma corrente ao meu redor. No chão, o ar tocava minha roupa e passava entre as folhas sem oferecer sustentação. Precisava produzir o movimento inicial, concentrá-lo sob os pés e fazê-lo subir antes que o restante da ventania o dispersasse.
Abri as mãos junto às coxas e procurei a pressão que sentira ao agarrar o tronco na floresta. Uma rajada atravessou o campo, dobrou a vegetação e passou por mim. Movi os dedos para recolher parte dela. O ar circulou nos pulsos, entrou pelas mangas e levantou a barra da camisa, mas meus sapatos continuaram enterrados na grama. Tentei novamente com os braços mais próximos do corpo. Dessa vez, a pressão alcançou as solas e aliviou por um instante o peso dos calcanhares. Inclinei-me para a frente, perdi o equilíbrio e precisei dar dois passos para não cair.
Voltei à posição e respirei fundo. A fome havia recuado durante a tentativa; aprender também alimentava, mesmo quando o resultado era um tropeço. Repeti o movimento com menos força, atento ao caminho do ar pelas pernas. A corrente começou a se fechar sob meus pés quando ouvi folhas sendo empurradas adiante.
Interrompi a concentração. Entre duas árvores, um animal caminhava na minha direção. Eu tinha visto criaturas aladas durante a queda, pequenas contra o céu, mas nenhum bicho chegara tão perto desde que saíra da Terra. A cabeça lembrava a de uma raposa; o corpo, alto e largo, aproximava-se mais de um lobo. Pelos compridos e dourados desciam pelo pescoço, e os olhos castanhos permaneciam fixos em mim.
O animal avançou sem mostrar os dentes. As pontas da boca se erguiam numa curva que meu cérebro insistia em reconhecer como sorriso. Mantive as mãos visíveis e esperei. Ele parou a um braço de distância, estendeu o focinho e cheirou meus dedos. Quando coloquei a palma sob sua mandíbula, empurrou a cabeça contra mim e percorreu a mão até o pulso.
Passei os dedos pelo pelo espesso junto à orelha. A tentativa de voo, Nazerith e o risco de rastreamento perderam espaço por alguns segundos. O animal inclinou o corpo para receber o carinho do outro lado e soltou um ruído baixo, satisfeito. Foi quando dois homens surgiram atrás das árvores. Corrigi o pensamento ao perceber que um deles era um garoto.
O mais velho tinha cabelos e barba grisalhos, além dos mesmos olhos atentos de Nazerith. A semelhança não eliminava o risco, mas correspondia exatamente à única instrução recebida. O garoto permanecia meio passo atrás dele. Era jovem, vestia roupas que haviam enfrentado terra e galhos, e me estudava com a mesma cautela que eu reservava aos dois.
Pensei em afastar a mão e correr. O animal ainda pressionava o focinho contra meu pulso; qualquer movimento brusco podia transformar aquela recepção numa caçada. Permaneci onde estava e esperei que o homem falasse.
— Arcer, volte, meu amigo. — A voz possuía o mesmo fundo grave de Nazerith. O animal deixou minha mão, atravessou a distância entre nós e se acomodou ao lado dele.
— Você deve ser Magno. Meu irmão avisou que o encontraria aqui. — O homem sorriu e indicou o garoto. — Muitos mistérios para resolver, e começaremos por este encontro. Sou Nazer. Este é Henri, filho do rei assassinado e fugitivo do próprio trono. Pensando melhor, fugitivo da morte que o esperava nele.
Henri apertou a boca ao ouvir a correção, sem contestá-la. Eu conhecia o assassinato apenas pelo anúncio de César e ainda tentava decidir quantas perguntas cabiam naquela apresentação. O filho do rei estava escondido no mesmo lugar para onde Nazerith me mandara fugir. O irmão dele surgira depois de uma profecia que eu desconhecia, acompanhado por um animal disposto a fazer amizade. Pela expressão de Henri, meu aparecimento também não resolvia nada para ele.
— Parfo precisa de ajuda — continuou Nazer. — Você o conhece pelo nome Nazerith. Nós também precisamos descobrir o que enfrentaremos quando sairmos daqui. Por enquanto, basta que os dois venham comigo.
Ele ergueu o queixo. O vento atingiu minhas costas, passou sob meus braços e fechou-se ao redor da cintura. Antes que eu encontrasse uma posição para os pés, fui arrancado do chão. Henri subiu do outro lado, Arcer desapareceu entre as árvores e Nazer permaneceu no centro da corrente enquanto o vento nos conduzia para o alto.
A velocidade pressionou meu rosto e roubou o ar que eu usaria para protestar. O terreno curvo recuou abaixo de nós, as árvores se uniram numa superfície verde e o horizonte finalmente se rompeu. Nazer não movia braços ou mãos; uma pequena inclinação da cabeça bastava para mudar nosso percurso.
— Eu também fiquei impressionado na primeira vez! — gritou Henri, virando o rosto em minha direção.
Tentei responder, mas engoli vento. Nazerith me mandara sair dali voando e, poucos minutos depois, seu irmão demonstrava uma técnica que dispensava até o movimento das mãos. Ou ele confiava demais na capacidade dos recém-mortos, ou tinha usado minha tentativa apenas para me manter ocupado até o resgate. Enquanto subíamos, decidi que cobraria a explicação assim que meus pés tocassem o chão.