A Profecia
Henri estava sentado numa poltrona que flutuava diante da lareira, com os pés afastados do chão e as mãos fechadas sobre os braços do móvel. Do outro lado da sala, o velho preparava chá com a tranquilidade de alguém que não tinha soldados varrendo a floresta acima de sua casa. O nariz ainda avermelhado pelo soco dava ao anfitrião um ar menos solene do que a cabana subterrânea sugeria.
A ave que desviara os soldados estava pousada sobre o relógio. Observava Henri com a cabeça inclinada e mudava o brilho das penas sempre que um dos ponteiros se aproximava.
— Foi o senhor que mandou ela criar outro rastro?
— É uma Auralim. Percebeu a perseguição e decidiu ajudar. Eu não mandei.
— Ela é sua simbiose?
— É minha companheira. Ela continua sendo uma ave, e eu continuo sendo um velho com o nariz dolorido. Nem todo vínculo precisa colocar dois seres no mesmo corpo.
Um relógio preso à parede ocupou a atenção de Henri. Três ponteiros percorriam o mostrador de modo familiar; outros dois saíam do plano, ligados ao mesmo eixo. Um apontava para a frente enquanto girava sobre si, e o último avançava pelas diagonais, alterando a inclinação a cada volta. Além do ritmo seco das engrenagens, o aparelho produzia um assobio contínuo, baixo o bastante para se misturar ao fogo.
— Esse relógio marca a sincronia entre planetas — explicou o ancião, observando Henri por cima dos óculos enquanto esmagava um pedaço de madeira no fundo de uma tigela. — Uma variação mínima na inclinação pode registrar uma ruptura entre galáxias ou uma desproporção no espaço-tempo. A leitura exige prática, mas serve principalmente para sabermos o que aconteceu. Mesmo quando identificamos uma ruptura, quase nunca podemos corrigi-la.
O ponteiro inclinado completou uma volta e mudou de direção. Henri pensou na mãe, ainda nos círculos estelares das águas, e calculou quantos movimentos daquele tipo poderiam separá-los. Desde pequeno esperava revê-la. Agora também precisava admitir que o pai atravessara uma passagem cujo destino ninguém conhecia.
— Uma pessoa que saiu daqui pode estar séculos à nossa frente quando a encontrarmos — continuou o velho. — Ou nós podemos avançar séculos enquanto, para ela, quase nada transcorre. Conhecer a diferença não nos aproxima.
Henri baixou os olhos para as mãos. O Povo do Vento media o tempo de outros planetas, construía casas dentro de buracos e deslocava exércitos pelo ar, mas continuava incapaz de dizer onde Falcão estava. Todos chamavam aquilo de passagem. Para Henri, continuava sendo ausência.
— Chega de acompanhar ponteiros com essa expressão. Tome um pouco de chá de praga. — O ancião entregou-lhe um copo largo. O líquido tinha cor clara e consistência mais próxima de suco, apesar dos pedaços de madeira que ele acabara de triturar.
Henri aproximou o copo do rosto. O aroma era doce e fresco, muito diferente das vitaminas servidas aos jovens no palácio para facilitar a assimilação das leituras. Elas tinham gosto de leite estragado, efeito duvidoso e uma reputação que sobrevivia graças ao medo de alguém interromper o uso e descobrir que funcionavam. Henri bebeu um gole.
O sabor frio se espalhou pela língua e desceu pela garganta. Seus dedos relaxaram sobre o copo. A lembrança da morte do pai continuava inteira, mas outra imagem tomou espaço ao lado dela: Falcão segurando seus braços durante a primeira tentativa de manipular o vento, corrigindo a posição das mãos até a corrente erguer os cabelos dos dois. Henri sentiu no peito a mesma confiança daquele dia, acompanhada por uma alegria forte demais para ter nascido apenas da memória.
— O que existe neste chá? — perguntou, examinando o líquido antes de beber novamente.
— Praga é uma árvore das Florestas do Vento com milhares de anos. Existe apenas uma. Nenhuma semente, folha ou fruto produziu outra igual, então usamos a madeira com cuidado. — O velho tirou o copo das mãos de Henri antes do segundo gole. — O chá provoca contentamento e confiança. O efeito diminui aos poucos, dura um tempo diferente em cada pessoa e perde força a cada nova dose. A primeira, no entanto, deixa alguma coisa. Quando passar, você ainda será um pouco mais feliz do que era antes de beber.
— Já vivi algumas décadas. Posso escolher se quero outro gole.
— E eu já vi séculos passarem. Por isso sei quando alguém não deve tomar o segundo.
Henri era jovem apenas pelo padrão de Finiti. Quase todos ali haviam chegado de outra vida com corpos estabilizados na maturidade, rostos que na Terra pareceriam ter trinta ou quarenta anos e que podiam atravessar séculos sem envelhecer. Ele nascera no planeta e crescera célula por célula até alcançar a maturidade física. Por isso parecia mais novo que a maioria, embora sua vida já se medisse em décadas.
O velho coçou o nariz durante a explicação e afastou a mão ao perceber a dor. Henri reconhecia aquele rosto dos corredores do palácio e das visitas ao pai, mas ninguém jamais o apresentara. Rei, general, ama e conselheiros possuíam nomes e funções; o homem diante dele sempre fora apenas o Ancião da floresta.
— Eu nunca soube seu nome. Meu pai o recebia no palácio, mas todos chamavam o senhor de Ancião ou de velho. Existe outra maneira de chamá-lo?
— Faz muito tempo que não uso meu nome. Deixei de precisar dele quando os antigos Mestres do Ar se dispersaram. Alguns fizeram a passagem; outros se exilaram ou se tornaram professores. — O velho recolheu a tigela, limpou a borda com um pano e evitou olhar para Henri.
— Então o senhor pertenceu aos Mestres do Ar? Aos guerreiros das histórias antigas?
— Meu nome de origem é Nazer. Mestre do Ar do primeiro regimento. — Ele ergueu o queixo ao completar a apresentação, e por alguns segundos o nariz machucado não diminuiu em nada seu orgulho.
Henri pousou os pés no chão. Os Mestres do Ar apareciam nos poemas sobre as guerras antigas, capazes de mover exércitos sem sair do lugar e de acompanhar batalhas pela mente. O chá tornava difícil permanecer sentado, mas a pergunta que importava continuava a mesma: o que um daqueles homens sabia sobre César, sobre a morte de Falcão e sobre a maneira de recuperar o reino?
— Preciso lhe contar uma história antes de decidirmos o que fazer — disse Nazer. — Antes de seu pai e dos nossos costumes de paz, os Mestres do Ar tomavam as decisões deste mundo. Éramos os mais poderosos entre os nossos iguais, porém não lutávamos nas fileiras. Soldados treinavam para a guerra, executavam nossas táticas e morriam dentro delas.
Nazer levou o próprio copo até a poltrona oposta e sentou-se. O fogo projetou sua sombra sobre a parede do relógio, atravessando os ponteiros sem alterar o movimento.
— Acima de nós estava Erudes, o Mestre dos Mestres. Ele controlava o ar pela mente com uma precisão que nenhum de nós alcançou e recebia imagens do futuro. A principal anunciava a ascensão de um soldado justo, capaz de trazer paz ao planeta. Também mostrava sua morte depois de um período curto e uma nova guerra começando a partir dela.
Henri apertou os dedos contra a borda da poltrona. Durante toda a infância ouvira que Falcão encerrara uma guerra que ninguém mais conseguia justificar, mas os poemas começavam quando ele entrou no campo de batalha. A história de Nazer começava antes, entre pessoas que já aguardavam sua chegada.
— Seu pai ainda era jovem quando realizou o Grito de Paz. Entrou entre os dois exércitos e gritou uma única ordem: Parem. A voz derrubou aliados e inimigos, neutralizou armas e impediu que qualquer soldado avançasse. Depois falou aos dois lados até que ninguém aceitasse retomar a batalha. Nós acompanhávamos tudo pela mente. Erudes declarou que, naquele instante, o rei tinha sido feito. Disse também que chegara sua hora de evoluir. Então fechou os olhos e fez a passagem diante de nós.
As canções descreviam o grito, os corpos no chão e Falcão caminhando entre os soldados, mas nunca mencionavam homens assistindo de longe ou um profeta morrendo ao reconhecer o novo rei. Henri tinha repetido aqueles versos em cerimônias, acompanhado pelo pai, sem saber que também celebrava o começo de uma contagem.
— Nós o aclamamos e mantivemos a vigília — prosseguiu Nazer. — Os anos viraram séculos, o reino permaneceu firme e a guerra não voltou. Recebemos mensagens de Deuses do Ar de níveis superiores, dizendo que nossa paz servia de exemplo a outros planetas e nos tornara o povo mais forte do nosso nível, possivelmente acima dele. Muitos Mestres entenderam que a profecia havia sido evitada ou que não viveriam para vê-la. Seguiram Erudes e fizeram a passagem.
— O senhor disse que os Mestres se exilaram ou viraram professores. Quantos permaneceram depois disso?
— Três ficaram como conselheiros de Falcão: eu, Parfo, meu irmão de consideração, e Ordit, filho de Erudes.
Henri ergueu a cabeça. Sempre acreditara ser o único habitante de Finiti nascido naquele planeta, uma exceção concedida ao filho do rei. A existência de Ordit mostrava que era único apenas em seu tempo, não em toda a história.
— Em nosso mundo, uma criança só nasce com permissão de um Deus — explicou Nazer, acompanhando a conclusão no rosto de Henri. — Seu pai foi o segundo homem deste planeta a visitar outro mundo apenas com a alma e pedir ao Deus Hermes a geração de um filho. Hermes concedeu o pedido, e você nasceu. O primeiro homem a conseguir isso foi Erudes. Ordit nasceu pela mesma permissão.
— O que aconteceu com Ordit? E onde está Parfo?
Nazer apoiou o copo no chão. O vento que mantinha a poltrona suspensa perdeu altura por um instante, fazendo seus pés tocarem a madeira antes de o móvel subir outra vez.
— Falcão perguntou aos três se deveria manter um exército ativo durante a paz. Parfo defendia que os soldados continuassem treinando, pois um dia poderiam ser necessários. Eu acreditava que manter uma força de guerra ensinaria o povo a desconfiar da paz que construíra. Ordit passou meses em meditação. A profecia do pai exigia cautela; a confiança em Falcão exigia que ele aceitasse o fim das armas. — O ancião se inclinou para recolher o copo, embora ainda estivesse vazio. — Nós o pressionamos. Parfo e eu discutimos diante dele, repetimos nossos argumentos e dissemos coisas que não podiam ser recolhidas depois. Ordit fez a passagem durante a discussão. Antes de partir, deixou a decisão para o rei. Perdemos o amigo que permanecera mais tempo ao nosso lado porque nenhum de nós percebeu o que estava fazendo com ele.
Henri olhou para o relógio. Os cinco ponteiros seguiam em movimento. Nazer mantinha os olhos no copo vazio e apertava entre os dedos o pano usado para limpar a tigela. O relato prosseguiu somente quando ele soltou o tecido.
— César convenceu Falcão a preservar o exército — continuou. — Alegou que os recém-chegados possuíam livre-arbítrio para buscar conhecimento pelo treino físico, não apenas pela leitura. O rei aceitou. Eu me exilei nesta floresta, e Parfo assumiu a recepção das pessoas que chegavam ao planeta. Ele passou a usar o nome Nazerith. Nunca mais conversamos, embora cada um soubesse quando o outro visitava o reino.
O guia que Nazer descrevia era o mesmo homem cuja verdadeira identidade Henri desconhecera, apesar de vê-lo circular pelo palácio desde criança. Segredos atravessavam o palácio com mais liberdade do que o herdeiro. César possuía um exército treinado porque Falcão aceitara um argumento de livre escolha; agora usava aqueles soldados para perseguir o filho do rei.
— A profecia começou a se concretizar, então? Meu pai trouxe a paz, foi assassinado e César começou a guerra.
— Erudes disse que a paz duraria pouco. Depois de alguns séculos, concluímos que ele havia errado, ou que conhecer o aviso nos ajudara a impedir sua realização. Para alguém que viveu o tempo de Erudes, e diante da idade deste Universo, séculos podem ter sido apenas o intervalo que ele viu.
Nazer se levantou e foi até o relógio. Segurou o ponteiro inclinado sem interromper os outros quatro, ajustou-o por uma fração e acompanhou a mudança do assobio.
— A visão não terminava na morte do rei. Erudes deixou estas palavras: Um soldado fará sua voz ecoar até o Infinito e se tornará Rei, trazendo paz ao nosso mundo, mas, num piscar de olhos, cairá anunciando uma grande guerra e uma nova era. Como nossa floresta e nosso deserto se encontrando, duas mãos se atarão, do velho o novo surgirá e dessa união todo o Universo dependerá.
Henri repetiu em silêncio floresta, deserto e mãos atadas. O chá ainda aquecia seu peito e lhe dava confiança para fazer perguntas, mas nenhuma das imagens oferecia uma instrução.
— Seu Mestre poderia ter sido um pouco mais narrativo e menos poético. Não quero desrespeitá-lo, Mestre Nazer, mas essa profecia teve séculos para aprender a falar com clareza.
— Nós dissemos coisas piores a Erudes. — Nazer soltou o ponteiro, e o relógio recuperou o assobio anterior. — As imagens não possuíam rostos, e as palavras chegaram prontas à mente dele. Nem mesmo o homem que as recebeu conseguiu interpretá-las. Profecias vêm de algum Deus para preparar quem as ouve, mas escondem o bastante para impedir que a descoberta aconteça antes da hora escolhida por esse Deus.
— Depois de séculos de espera e com meu pai morto, não estamos um pouco atrasados? Quando essa descoberta deveria acontecer?
— Agora!