Liberdade do Vento

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Liberdade do Vento

Capítulo 1 · Liberdade do Vento

A Solidão da Independência

Uma vez, num sonho, uma mulher me disse ao ouvido que a felicidade estava dentro de nós mesmos e que nós a aprisionávamos. Eu devia ter prestado atenção na frase, mas me distraí com a voz baixa, o hálito perto do meu pescoço e as curvas que o lençol não escondia. Quando acordei, lembrava melhor do corpo do que das palavras.

Durante muito tempo procurei aquela mulher. Esperei encontrá-la numa livraria, num bar, atravessando uma rua, sentada duas fileiras à minha frente num cinema. Tratava o sonho como uma lembrança e demorava os olhos em cada rosto novo. Acreditava que ela apareceria repleta de enigmas e que me reconheceria antes que eu dissesse qualquer coisa.

Anos depois, eu já tinha apanhado o suficiente para desconfiar daquela promessa de reencontro. Passei a procurar um sentido mais objetivo para a frase. Li sobre fé, morte, desejo e comportamento, enchi páginas tentando organizar respostas e vi quantas certezas desmanchavam diante de uma doença, de uma separação ou de uma conta que não podia esperar. A morte surgia nas notícias, nas conversas de bar, no comentário de uma vizinha sobre outra família. Nada disso me aproximou da frase do sonho.

Escrevia contos eróticos e sabia conduzir um leitor da curiosidade até o desejo sem entregar tudo no primeiro parágrafo. Gostava da distância estreita entre o prazer físico e o sentimento, da mudança que uma mão, uma recusa ou um instante de espera podia provocar numa relação. Eu exportava meus sonhos para a cabeça dos outros, e cada leitor completava o que eu deixava de fora. Meus textos funcionavam porque eu levava a sério fantasias que muita gente só admitia no escuro.

Nunca estava satisfeito. Terminava um conto e já procurava o começo do próximo, convencido de que ainda não tinha deixado no papel tudo o que poderia. Ao mesmo tempo, quase nunca me sentia parte do mundo para o qual escrevia. Protegia meus horários, minha casa, meus desejos e a porta de saída de qualquer relação. Para mim, independência também significava não precisar explicar por que eu queria ir embora.

A praia era onde eu escrevia melhor. Eu ocupava a mesa mais próxima da areia num quiosque aberto, com o caderno diante de mim e o mar além das cadeiras vazias. O ruído da água ficava ao fundo. O vento empurrava a camisa contra o corpo, virava a ponta de uma folha e mudava de direção no intervalo de uma frase. Eu mantinha a mão sobre o papel e observava os poucos passantes, os gestos que faziam quando acreditavam não estar sendo vistos, a maneira de oferecer ou esconder o corpo.

Naquela tarde, o céu estava cinzento e a praia, quase vazia. As ondas quebravam baixas junto à costa. A chuva começou fina, levada de lado pelo vento frio, e logo pontilhou a página. Arrastei a cadeira para debaixo do toldo sem fechar o caderno. A rajada seguinte alcançou a mesa, molhou a margem da folha e desfez uma palavra que eu acabara de escrever.

Foi quando vi uma mulher vindo da direção da cidade. Estava descalça e completamente vestida, com a roupa já escura de chuva, a cabeça baixa e os braços junto ao corpo. As mãos tremiam. Não vi seus olhos. Ela cruzou a areia e entrou no mar sem mudar o passo. Inclinei-me sobre o caderno para proteger a página; quando tornei a olhar, a água alcançava os joelhos dela.

Pensei que quisesse apenas caminhar na água e que, já encharcada, não se importasse em molhar mais a roupa. Ela avançou. A água subiu até a cintura, recuou, voltou ao peito e alcançou o pescoço. Eu ainda tentava encontrar uma explicação que me permitisse ficar sob o toldo.

Larguei o caderno e corri.

Entrei no mar sem tirar a roupa. As primeiras ondas passaram baixas por mim, mas a corrente puxou minhas pernas quando a água chegou à cintura. Eu ainda via a cabeça dela; depois uma onda quebrou acima de seu rosto e restou apenas o cabelo. Gritei, embora não soubesse o nome que devia gritar. Ela voltou à superfície por um instante, tossiu e se moveu para mais longe da praia. Outra onda a cobriu. Um salva-vidas percebeu minha corrida, veio atrás de mim e passou a procurar alguns metros adiante.

A maré subia depressa. Mergulhei, abri os olhos na água turva e encontrei apenas areia revolvida. Voltei à superfície sem ar, puxei outra respiração e desci de novo. A chuva picava a superfície e o vento empurrava as ondas contra nós. Sob o céu cinzento, cada tentativa mudava o lugar onde eu julgava tê-la visto por último. O salva-vidas apontava, nadava, desaparecia sob a água e ressurgia longe.

Algo roçou minha perna.

Mergulhei e agarrei tecido. O corpo estava abaixo de mim, levado de lado pela corrente. Passei um braço por baixo dos ombros dela, puxei-a contra o peito e chutei a água até voltar à superfície. O salva-vidas chegou, segurou o outro lado e nós a arrastamos para a areia, tropeçando quando a força do mar deixou de sustentar seu corpo.

Ajoelhei ao lado dela. Afastei o cabelo molhado de sua boca, inclinei sua cabeça e comecei a reanimação. Meus braços endureciam a cada compressão. Soprei ar, voltei ao peito, contei, perdi a conta e recomecei. Os olhos dela permaneceram fechados. O salva-vidas assumiu meu lugar e eu corri pela praia pedindo socorro, procurando um telefone, uma ambulância, qualquer pessoa que pudesse fazer melhor do que nós.

Quando voltei, ele ainda tentava. Algumas pessoas tinham saído do quiosque e se juntado ao redor, sob a chuva, sem falar alto. A água escorria da roupa dela e abria um caminho escuro na areia. O rosto era bonito, jovem demais para aquela imobilidade, mas eu não conseguia separar beleza de morte enquanto via as mãos do salva-vidas comprimirem seu peito.

O socorro chegou tarde para ela.

Não havia documento nos bolsos, bolsa na areia, telefone ou alguém procurando por seu rosto entre as pessoas. Perguntaram se eu a conhecia. Respondi que não. Perguntaram o que eu tinha visto, e ouvi minha própria voz repetir a caminhada, a roupa, as mãos trêmulas, o momento em que ela desapareceu. Quando tentei lembrar dos olhos, só encontrei as pálpebras fechadas e o cabelo grudado no rosto.

Passei a noite acordado. Toda vez que fechava os olhos, voltava ao instante em que me inclinei para salvar uma página da chuva e deixei de acompanhar os passos dela. Eu não podia provar que aqueles segundos teriam mudado o fim. Mesmo assim, minhas pernas ainda guardavam a corrida, o peito doía do esforço no mar e as mãos repetiam a pressão da reanimação sobre o colchão.

Perto da madrugada, levantei e saí. Escolhi um bar porque a vodka com gelo e limão costumava embaralhar o que eu não conseguia resolver. Depois de algumas doses, eu ainda contava o avanço da água pelo corpo dela. Coloquei um papel sobre a mesa, procurei uma caneta no bolso e tentei escrever sobre seu olhar. Parei na primeira linha. Eu não tinha visto seus olhos.

Sempre tratei o olhar como a parte menos obediente de uma pessoa. A boca podia mentir, o corpo podia aceitar por medo ou recuar por orgulho, mas os olhos costumavam estragar o esforço. Na praia, uma vida passara pelas minhas mãos e eu não tinha levado dela nem isso. O papel ficou vazio, molhado na borda pelo copo.

O barulho começou numa mesa ao lado. Um homem entrou gritando depois de encontrar a mulher aos beijos com outro. Duas pessoas tentaram segurá-lo; ele afastou a primeira com o ombro e derrubou a segunda contra uma cadeira. As veias do pescoço saltavam enquanto as palavras saíam cada vez mais altas e menos compreensíveis. Ele agarrou a mulher pela garganta e a ergueu. Quando viu o rosto dela perder a cor, abriu os dedos. Ela caiu tossindo junto à mesa.

O outro homem se levantou e puxou uma arma.

O bar inteiro parou. Garrafas permaneceram suspensas nas mãos, uma cadeira tombada ainda girou por um momento e depois só ouvi a respiração de quem estava perto. O homem traído encarou o cano, recuou um passo e avançou com uma voadora. O golpe atingiu o braço armado.

O tiro ecoou no salão.

O atirador foi derrubado e várias pessoas se jogaram sobre ele. Outras procuravam a bala nas paredes, nos copos, em algum corpo. Eu também olhei ao redor. Não senti dor. Foi quando baixei a cabeça e vi um ponto vermelho se espalhando pela minha camisa branca.

Levei a mão ao peito. Pelo lugar em que o sangue saía e pela rapidez com que meu corpo falhava, soube que a bala tinha alcançado o coração. O sangue atravessou meus dedos, quente durante um instante, enquanto o restante do corpo começava a esfriar. Tentei me levantar e as pernas não responderam. A mesa bateu no meu quadril, o copo caiu, gelo e rodelas de limão se espalharam pelo chão. Alguém correu na minha direção. Depois vieram outros rostos, mãos tentando estancar o ferimento, vozes perguntando meu nome e pedindo espaço.

Caí de lado. O ar entrava pouco e saía num ruído úmido. Vi minha mãe, minha família, os amigos que eu procurava quando tinha vontade e deixava esperando quando não tinha. Lembrei dos leitores, dos livros e da mulher do sonho, que continuara pertencendo apenas a mim porque assim nunca poderia exigir nada. Nenhuma dessas pessoas estava ali. Os desconhecidos ao meu redor tentavam me manter acordado e não sabiam a quem chamar.

Passei anos escolhendo quando abrir a porta, quando atender o telefone e quando ir embora. Naqueles segundos, enquanto a camisa encharcava e meus dedos já não conseguiam apertar o ferimento, não havia uma única mão conhecida segurando a minha.

O meu adeus não teria dono.

Liberdade do Vento

Sinopse

Há forças que queimam. Há forças que impulsionam. E há aquelas que carregam. Em um universo onde consciências atravessam mundos e cada vida pode ser apenas o início de outra jornada, o vento é mais do que um elemento, é movimento, é ruptura, é expectativa de escolha. Entre reinos que disputam poder e alianças que se constroem sobre desconfianças ancestrais, surge alguém capaz de sentir o chamado de possível liberdade acima de qualquer imposição. Mas ser livre tem um preço e essa descoberta coloca em cheque a noção de liberdade. Viajar entre planetas significa deixar algo para trás. Renovar a própria existência exige coragem para abandonar o que já foi. Enquanto forças maiores reorganizam o destino de civilizações inteiras, a liberdade deixa de ser um desejo individual e passa a ser uma necessidade coletiva, mesmo que apenas construída no imaginário. O vento que antes sussurrava agora ruge, empurrando povos, decisões e corações para direções inesperadas. Entre perdas, descobertas e reencontros que desafiam o próprio conceito de permanência, Liberdade do Vento é a história de quem ousa romper correntes, mesmo quando não sabe o que encontrará do outro lado. Porque às vezes, a maior revolução não é lutar. É partir.

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