Universo da obra
Universo da obra
AMANHECIA. Alguns tropeiros, ainda somnolentos, atravessavam as ruas estreitas da villasertanejacaminho do campo onde pastavam as suas cavalgaduras. A luz crepuscular, já deixava perceber as frentesbrancas das casas, pouco tempo antes sumidas na pretidão da noite. Já distinctamente se via a esteira vermelha dos telhados, e sobre ellaalgumas andorinhas a espreitara passagem das tanajuras, que as primeiras chuvas haviam levantado dos formigueiros. As portas quasi todas fechadas, n'uma monotonia de templo vazio, mais accentuavam a solidão das ruas. Dos quintaes, pequenos cercados de páo-apique, partiam rumores da lida, que começava. As rodas da grande machina da vida executavam os primeiros movimentos.
A turma dos aguadeiros, composta de homens, mulheres e meninos, procurava os potes e tecia as rodilhas, de sahida para o rio, que cortava um dos flancos da villa. A estrada, que ia tera fonte, ha pouco despovoada, recebiadas veredas, que n'elladesemboccavam, os aguadeiros, cujo numero crescia a medida que o sol subia no horisonte. Era um fervilhar incessante. Já voltavam, de rosto lavado e equilibrando no alto da cabeça grandes potes d'agua, os que haviam accordado mais cedo. Todos andavam apressados, eraro era o que deixava perceber na physionomia traços de preguiça e somno. Era preciso aproveitar o tempo, provendo d'agua a casa antes de altear o dia.
Cheio o pote, os que tinham somente uma viagem a fazer, acocoravam -se, formando roda, e tagarelavam. Discutiam os acontecimentosda vespera, e em faltade assumpto, cahiam na vida alheia. O sacristão, um velhote de meia idade, com ares funebres de coruja, tresandando a cera branca, era figura obrigada do grupo dos tagarelas. Como solteirãoque era, tinha apenas uma viagem a fazer; o resto do tempo era destinado á vida do proximo. A conversação animava -se todas as vezes que commentavam faltas alheias. Naquella manhã o solestava quasi fóra e a roda dos palradores não se dissolvia. O sacristão tinha a palavra; em tom prophetico e ares mysteriosos, communicava a to dos um grande castigo, que soffreriam, antes de findar -se o anno.
As mulheres se benzeram, e como a noticia vinha de gente da egreja, acreditaram que seriauma excommunhão geraldo santo papa, por terem sido roubadas as alfaias da matriz da freguezia, em uma Sexta -feira da Paixão. Os homens pensavam em cousa diversa e peior- o sorteio. Em breve iriam de farda ás costas, de mar a fóra, sem isenção que os valesse. O sorteio não queria saber se o individuo era casado, ou filho unico de mulher viuva; sadioe moço, era quanto se diziabastar. A noticiado sacristão os poz em sobresalto; não se ouviam mais as risadas epilepticas dos caçoantes a motejar de tudo. Tratava -se de um castigo que seria para todos. Sorteioou excommunhão, não o dissera o informante, que tambem ignorava a especie de mal, que em breve viria flagellal-os.
O vigario nada lhe dissera, porem elle adivinharapelo ar apprehensivo do cura, que havia mouro na costa. A preoccupação do padre tinha como causa outra cousa que não os arrufos com a sua caseira; estavam em bôa intelligenciae aquellas rusgas não duravam tanto tempo. Alem de tudo haviapescado na sacristiaalgumas palavrasde uma conversa do vigariocom o Juiz de paz, conversaque não devia ser agradavel porque mergulhava ambos num banho de suor, e lhes fechava os rostos numa expressão em que se misturava á tristeza o espanto. O sacristão, como amigo de todos, preveniaos, para o que désse e viesse, que era conveniente, mais do que nunca, procuraros que ti nham amos, ouvir-lhes as conversas, todos, em fim, trabalharem para descobrir a casta do mal, que estava para vir.
Uma das mais velhas beatas lembrou a conveniencia de um responso ao padre S. Antonio e o sonho de S. Helena. Dizia ellaque Frei Vidal, por sua santissima bocca, havia annunciado que os malfasejos derribariam o throno em um anno de nove, e que o rei fugiria; mas que depois de cinco annos de guerra, fome e sangue, voltariao throno, que seria occupado por um neto do rei deposto. Todos tremeram com a prophecia. Enxotar o rei! o rei cujo nome nem sabiam, mas que veneravam como um ente divino! . . . Tinham crescido ouvindo fallarno rei como em um Deus; em seus contos, romances, poesias, essa entidadese apresentava symbolisando a força, o poder. Para elleso rei era o senhor de tudo, dos bens e até da conscienciados vassallos. , Ouvida a prophecia, cada qual se mostrou mais tristee mais preoccupado. A tia Antonia havia dito, e ella não costumava brincar. Não era a primeira vez que chegavam os castigos annunciados por ella. Do cholera, da bexiga, ella predisse a invasão, lembrando -se do que dissera nas missões frei Vidal. Assim, abalados pela nova, a alma desalentada, dissolveu-se o ajuntamento, e sentindomais pesada a carga, cada um procurou a casa.
O sacristão, depois de alijaro pote na tripeça, foi para a igreja, que abriu, e avistando o vigario, que vinha conversando com o subdelegado, escondeu-se na sacristiapara ouvirlhes a conversa.
Romance regionalista de Rodolfo Teófilo, publicado em edição de 1906, agora disponível no Literunico para leitura gratuita online, em capítulos, em domínio público.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias do Livro como colaboração ao autor e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Cada exemplar registrado recebe identidade própria. Sua passagem por leitores, memórias e futuras vendas pode continuar nesta mesma página.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.