Íntima Corimbos · Capítulo 3 de 63
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Íntima

(1866)

L'amour sait tout franchir, et bienheureux qui laisse

La sueur de son front aux pieds de sa maîtresse

Alf. de Musset

Tu és a nuvem de iriante prisma

Onde minh’alma pensativa mora:

Tu és a urna em que minh’alma chora,

Tu és a esfera em que minh’alma cisma!

Vaguei perdido, delirante, ardente,

Do mundo estéril do areial maninho,

E em teu regaço fui achar o ninho

Onde cantava o meu amor nascente.

Fitei sombrio a vastidão sem véus:

No seio d’oiro da celeste altura

Eu vi a estrela fulgurar mais pura

E um novo encanto iluminar os céus...

Voltei à terra, aos infernais escolhos

À campa imensa onde a ventura finda:

Tremi de medo! vi mais luz ainda:

Eu vi na terra os teus divinos olhos!

Ah! como sombra que a vagar delira

De infausto abismo atravessando as bordas,

Tentei de novo acarinhar as cordas

Da já partida e desprezada lira:

Ao som plangente despertei teus passos,

Vieste e eu pude sem manchar o arcanjo,

Beijar-te as asas virginais, meu anjo,

Ter-te, mulher, em meus cansados braços!

Depois vagamos sobre as ondas cérulas

Ao som divino dos mais puros cantos:

Fiz-te um colar dos meus sagrados prantos,

lágrimas sim! e não mentidas pérolas!

O mundo escravo nos fitou senhor:

E a seta impura, a venenosa seta,

Feriu-te, arcanjo, e me prostrou poeta,

Viúvo e noivo do mais casto amor!

Hoje exilado as solidões percorro,

Embalde, embalde tento unir-me a ti!

A terra folga, a natureza ri

E ao som das festas eu nas festas morro!

Meu pensamento se cobriu de luto

E é meu castigo divagar sem tino,

Colhendo as palmas que inspirar num hino,

Banhado em pranto e com o semblante enxuto!

Ah! nem me é dado junto a ti morrer:

Nuvem maldita sobre nós pairava:

A lei covarde que te fez escrava,

Fez-nos escravos dum fatal dever!

Dever sublime em nossas almas cala!

Venha a Justiça que este amor algeme:

Tu mostrarás um coração que geme,

Eu mostrarei um coração que estala!

- Olinda.

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