Íntima
(1866)
L'amour sait tout franchir, et bienheureux qui laisse
La sueur de son front aux pieds de sa maîtresse
Alf. de Musset
Tu és a nuvem de iriante prisma
Onde minh’alma pensativa mora:
Tu és a urna em que minh’alma chora,
Tu és a esfera em que minh’alma cisma!
Vaguei perdido, delirante, ardente,
Do mundo estéril do areial maninho,
E em teu regaço fui achar o ninho
Onde cantava o meu amor nascente.
Fitei sombrio a vastidão sem véus:
No seio d’oiro da celeste altura
Eu vi a estrela fulgurar mais pura
E um novo encanto iluminar os céus...
Voltei à terra, aos infernais escolhos
À campa imensa onde a ventura finda:
Tremi de medo! vi mais luz ainda:
Eu vi na terra os teus divinos olhos!
Ah! como sombra que a vagar delira
De infausto abismo atravessando as bordas,
Tentei de novo acarinhar as cordas
Da já partida e desprezada lira:
Ao som plangente despertei teus passos,
Vieste e eu pude sem manchar o arcanjo,
Beijar-te as asas virginais, meu anjo,
Ter-te, mulher, em meus cansados braços!
Depois vagamos sobre as ondas cérulas
Ao som divino dos mais puros cantos:
Fiz-te um colar dos meus sagrados prantos,
lágrimas sim! e não mentidas pérolas!
O mundo escravo nos fitou senhor:
E a seta impura, a venenosa seta,
Feriu-te, arcanjo, e me prostrou poeta,
Viúvo e noivo do mais casto amor!
Hoje exilado as solidões percorro,
Embalde, embalde tento unir-me a ti!
A terra folga, a natureza ri
E ao som das festas eu nas festas morro!
Meu pensamento se cobriu de luto
E é meu castigo divagar sem tino,
Colhendo as palmas que inspirar num hino,
Banhado em pranto e com o semblante enxuto!
Ah! nem me é dado junto a ti morrer:
Nuvem maldita sobre nós pairava:
A lei covarde que te fez escrava,
Fez-nos escravos dum fatal dever!
Dever sublime em nossas almas cala!
Venha a Justiça que este amor algeme:
Tu mostrarás um coração que geme,
Eu mostrarei um coração que estala!
- Olinda.