O Teu Amor Corimbos · Capítulo 40 de 63
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O Teu Amor

(1866)

— Qui donc es-tu, blanche étoile?

H. Murger - Ballades.

É teu amor a doce estrela d’alva

O brando aroma de escondida malva

Em seio virgem que inda mal rompeu:

É teu amor a rola da esperança,

A branca, a meiga, a lirial criança,

Que a terra embala, e vai dormir no céu.

É teu amor o pêssego suave,

Oculto às garras virginais duma ave,

Que liba o aroma e foge ao ver a flor!

Na fresca sombra da floresta a aragem

Debalde espalha o pinheiral selvagem:

A ave medrosa é o meu medroso amor.

É teu amor um véu de aéreas gazas,

A sombra esquiva de orvalhadas asas,

De mudo lago no sutil clarão:

É teu amor a lágrima queixosa,

Que chora o orvalho nos botões da rosa,

Que chora a rosa aos ais da viração.

É teu amor o lânguido gemido,

Que à tarde exala o sabiá ferido

E esvai-se em prantos na amplidão do ar:

É teu amor um beijo de Moema,

As letras d’oiro, o místico poema,

Que Deus entorna sobre o azul do mar.

É teu amor o som mole e pausado

Dum remo n’água: o canto enamorado,

Que envia à Noite a voz do pescador!

Mais pura ainda que o sabor dum gozo

Os flébeis ais dum violão choroso,

És tu, bendita encarnação do amor!

É teu amor a nuvem cor de rosa,

Que paira, paira e vai morrer saudosa

Fitando a terra e a vastidão do mar:

Ah! ver-te pálida, muda, pensativa,

E ouvir ao longe os ais da Casta Diva

Ao som da flauta em noite de luar!...

É teu amor a esfera azul e calma

Onde irradia esplêndida tu’alma,

Donde me estendes compassiva a mão:

É meu amor a prece ardente e louca,

Que molha as faces, ilumina a boca,

Suspende a fronte e eleva o coração!

É teu amor um mundo de harmonia

Onde campeia o nome teu, Maria,

Virgíneo e limpo do mais tênue véu!

— Urna divina de divino encanto,

Foi teu amor que entesourou meu pranto,

Gota por gota e o derramou no céu!

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