O Teu Amor
(1866)
— Qui donc es-tu, blanche étoile?
H. Murger - Ballades.
É teu amor a doce estrela d’alva
O brando aroma de escondida malva
Em seio virgem que inda mal rompeu:
É teu amor a rola da esperança,
A branca, a meiga, a lirial criança,
Que a terra embala, e vai dormir no céu.
É teu amor o pêssego suave,
Oculto às garras virginais duma ave,
Que liba o aroma e foge ao ver a flor!
Na fresca sombra da floresta a aragem
Debalde espalha o pinheiral selvagem:
A ave medrosa é o meu medroso amor.
É teu amor um véu de aéreas gazas,
A sombra esquiva de orvalhadas asas,
De mudo lago no sutil clarão:
É teu amor a lágrima queixosa,
Que chora o orvalho nos botões da rosa,
Que chora a rosa aos ais da viração.
É teu amor o lânguido gemido,
Que à tarde exala o sabiá ferido
E esvai-se em prantos na amplidão do ar:
É teu amor um beijo de Moema,
As letras d’oiro, o místico poema,
Que Deus entorna sobre o azul do mar.
É teu amor o som mole e pausado
Dum remo n’água: o canto enamorado,
Que envia à Noite a voz do pescador!
Mais pura ainda que o sabor dum gozo
Os flébeis ais dum violão choroso,
És tu, bendita encarnação do amor!
É teu amor a nuvem cor de rosa,
Que paira, paira e vai morrer saudosa
Fitando a terra e a vastidão do mar:
Ah! ver-te pálida, muda, pensativa,
E ouvir ao longe os ais da Casta Diva
Ao som da flauta em noite de luar!...
É teu amor a esfera azul e calma
Onde irradia esplêndida tu’alma,
Donde me estendes compassiva a mão:
É meu amor a prece ardente e louca,
Que molha as faces, ilumina a boca,
Suspende a fronte e eleva o coração!
É teu amor um mundo de harmonia
Onde campeia o nome teu, Maria,
Virgíneo e limpo do mais tênue véu!
— Urna divina de divino encanto,
Foi teu amor que entesourou meu pranto,
Gota por gota e o derramou no céu!
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