Nêmesis
(1868)
Varrida, enfim! varrida estás da minha mente!
Seja bendito o céu e Deus que não consente
A crença ao pé do mal, ao pé da serpe a flor!
Seja bendito Deus, seja bendito o amor,
Que não cegou de todo o infeliz tresloucado,
Que em teus lábios bebera o filtro condenado!
Enfim! nobre, orgulhoso e contente me exponho
Duma quadra melhor ao despontar risonho...
Meu pulso livre está! Meu ser liberto e altivo
Calcando a terra em flor pode exclamar: — eu vivo!
E agora que recebo a intensa claridade
De todo firmamento, e sei que a liberdade
É a vida, o mar, a terra, a eternidade, o espaço;
E agora que estas mãos sem ferros nem cansaço
Podem cingir sem medo a mão mais alva e pura,
É que eu vejo, é que eu sondo a negra sepultura
Do teu medonho encanto e desse horrendo amor,
Onde vivi sem vida um século de dor!
Varrida! enfim varrida estás da minha ideia!
A teus pés arremesso os anéis da cadeia,
Que prendeu meu destino aos olhos teus, traidora!
E esta pena com que tracei-te o nome outrora,
Em lodo, em fel, em sangue, em lágrimas molhada,
Lanço-a longe de mim que está envenenada!
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