Arroubo
(1866)
Olha-me ainda! Delirante e pálida,
Banha minh’alma nesse ardente olhar!
Deita em teu seio a minha fronte cálida:
Faze que eu possa, que inda possa amar!
Por que tremeste? A viração perdida
Dorme na relva dos vergéis em flor:
Tudo é silêncio e tudo fala à vida:
Cala-te e escuta: vai passar o amor...
Por que tremeste? Solitária a lua
Vagueia ao longe... Como és bela assim!
Prende um momento a minha mão na tua,
Quero-te agora mais ao pé de mim.
Ninguém nos ouve... Que tens tu que tremes?
Por que teu rosto junto ao meu descora?
Tentas sorrir e no sorriso gemes...
Mas eu que sinto? Por que tremo agora?
Ah! não me digas! Delirante pálida,
Banha minh’alma nesse ardente olhar!
Deita em teu seio a minha fronte cálida:
Sinto que posso, que já posso amar!
- Rio.