Anima Mater
(1869)
Morria o Redentor! Nas faces lacrimosas
Daquele que gemia em prol da humanidade,
Duas lágrimas só! rolaram luminosas:
Duma ergueu-se a Razão e doutra a Liberdade.
Deus revelando assim a eterna onipotência
Do barro inerte e vil formou o homem-rei,
E morrendo legou-lhe um mundo — a Consciência
Onde a luz predomina, onde a razão é lei!
A humana legião marchou entusiasmada;
A senha do progresso os mundos converteu!
— Liberdade e Razão! E a frase germinada
No globo retumbou na abóboda do céu!
A fronte desolada ergueu-se altiva e nobre,
O pensamento alou-se em todo o resplendor:
A opulência, a miséria, o forte, o grande, o pobre,
Bradam fitando os céus: — somos iguais, Senhor!
A escravidão rojou o dorso moribundo,
A Ideia-Mãe surgiu; — esplêndido crisol,
Donde a alma rompeu e conquistou o mundo
Tendo na destra o gládio e na sinistra o sol!
Faz-se o homem por fim! À sombra dele se ergue
O evangelho do povo; astro de redenção;
Homem que há de chamar-se um dia Guttemberg,
E o futuro escrever com o sangue de Catão!
A Liberdade abrindo as asas triunfantes
A terra, o mar, o espaço, ardente percorreu,
E estendendo convulsa as garras chamejantes
Curvou o negro abutre aos pés de Prometeu!
E, Proteu sublimado, o seu aspecto vário
Encheu de assombro a terra, o mundo deslumbrou
Foi Carlota Corday, foi Spartaco, e foi Mário,
Foi a força, o heroísmo, a voz de Mirabeau!
A Natureza ansiosa abria os braços grandes
À grande irradiação da glória popular;
Livre, o gênio de Franklin repousou nos Andes,
E Colombo sorrindo atravessou o mar!
Como fênix da ideia, o Capitólio ousado
Cheio de sangue e pó encheu a vastidão:
Sucede a vida à morte, o futuro ao passado
À fogueira a tribuna, à forca o Panteon!
Quem pudera partir a eterna fortaleza
Baseada dum Deus no lenho salvador?
Ela que fez vibrar a voz da Marselhesa
A cujos sons a terra estremeceu de horror!?
Ela que atravessou as praças fumegantes
Da Varsóvia imortal! Ela que fez marchar
Na vanguarda gigante um mundo de gigantes,
E fez na poeira a estátua do czar!
Quem pudera suster-lhe o voo soberano?
Quem pudera partir-lhe o soberano arnês?
Raio, lascou o anel do pulso mexicano!
Gládio, fulgiu nas mãos do Arcanjo Juarez!
De polo a polo ouvindo-a, extático o universo,
Deu-lhe envolto no sangue um trono por laurel:
A Espanha popular ofereceu-lhe um berço,
E aos pés lhe arremessou a c’roa de Isabel!
Da América gigante as brasileiras zonas,
Sentindo flutuar-lhe a sombra na amplidão,
Viram-na os pés banhar nas águas do Amazonas,
E enxugá-los depois na face de Assunção!
Viram-na entre o fumo erguer-se onipotente
E curvar-se, e cuspir no rosto guarani,
E acendendo de Osório a lança aurifulgente
Trocar o fulvo olhar com o olhar de Mauriti!
O evangelho do povo em suas mãos fechava,
Entre o brilho da espada e o brilho do fuzil!
Cada gesto dos seus a tropa deslumbrava,
Deslumbrando a seguia o gênio do Brasil!
E ela ia arrastando a fúlgida mortalha,
Bela, imensa, divina, esplêndida e feroz!
Na sua voz soava a orquestra da metralha,
E o seu manto arrastava um turbilhão de heróis!
E lambia-lhe a trança o fumo das bombardas!
Estrelada de sangue a hidra nacional,
Entre os dentes rasgava as inimigas fardas,
Enroscada da glória ao rubro pedestal!
Enquanto a espada, a pena, a inteligência, o verbo,
Irmãos gêmeos da luz, da humanidade irmãos,
Formarem-te o cortejo e o teu pendão soberbo
Tremular senhoril nas brasileiras mãos;
Enquanto a humanidade ousar erguer-se ufana,
Arrogante, plebeia, excelsa e triunfal,
E calcar a seus pés na marcha soberana,
A coroa cesárea e a púrpura real;
Ó! alma do universo! ó astro luminoso,
Pedestal do porvir! torrente popular!
Não há quem te detenha o curso caudaloso,
Nem Xerxes que acorrente as ondas do teu mar!
Tu és a encarnação do excelso cristianismo!
És a âncora imortal que prende a terra aos céus!
A criação sem ti, seria o caos, o abismo...
Ou mais de um Deus existe ou és o próprio Deus!
- Recife.