Anima Mater Corimbos · Capítulo 62 de 63
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Anima Mater

(1869)

Morria o Redentor! Nas faces lacrimosas

Daquele que gemia em prol da humanidade,

Duas lágrimas só! rolaram luminosas:

Duma ergueu-se a Razão e doutra a Liberdade.

Deus revelando assim a eterna onipotência

Do barro inerte e vil formou o homem-rei,

E morrendo legou-lhe um mundo — a Consciência

Onde a luz predomina, onde a razão é lei!

A humana legião marchou entusiasmada;

A senha do progresso os mundos converteu!

— Liberdade e Razão! E a frase germinada

No globo retumbou na abóboda do céu!

A fronte desolada ergueu-se altiva e nobre,

O pensamento alou-se em todo o resplendor:

A opulência, a miséria, o forte, o grande, o pobre,

Bradam fitando os céus: — somos iguais, Senhor!

A escravidão rojou o dorso moribundo,

A Ideia-Mãe surgiu; — esplêndido crisol,

Donde a alma rompeu e conquistou o mundo

Tendo na destra o gládio e na sinistra o sol!

Faz-se o homem por fim! À sombra dele se ergue

O evangelho do povo; astro de redenção;

Homem que há de chamar-se um dia Guttemberg,

E o futuro escrever com o sangue de Catão!

A Liberdade abrindo as asas triunfantes

A terra, o mar, o espaço, ardente percorreu,

E estendendo convulsa as garras chamejantes

Curvou o negro abutre aos pés de Prometeu!

E, Proteu sublimado, o seu aspecto vário

Encheu de assombro a terra, o mundo deslumbrou

Foi Carlota Corday, foi Spartaco, e foi Mário,

Foi a força, o heroísmo, a voz de Mirabeau!

A Natureza ansiosa abria os braços grandes

À grande irradiação da glória popular;

Livre, o gênio de Franklin repousou nos Andes,

E Colombo sorrindo atravessou o mar!

Como fênix da ideia, o Capitólio ousado

Cheio de sangue e pó encheu a vastidão:

Sucede a vida à morte, o futuro ao passado

À fogueira a tribuna, à forca o Panteon!

Quem pudera partir a eterna fortaleza

Baseada dum Deus no lenho salvador?

Ela que fez vibrar a voz da Marselhesa

A cujos sons a terra estremeceu de horror!?

Ela que atravessou as praças fumegantes

Da Varsóvia imortal! Ela que fez marchar

Na vanguarda gigante um mundo de gigantes,

E fez na poeira a estátua do czar!

Quem pudera suster-lhe o voo soberano?

Quem pudera partir-lhe o soberano arnês?

Raio, lascou o anel do pulso mexicano!

Gládio, fulgiu nas mãos do Arcanjo Juarez!

De polo a polo ouvindo-a, extático o universo,

Deu-lhe envolto no sangue um trono por laurel:

A Espanha popular ofereceu-lhe um berço,

E aos pés lhe arremessou a c’roa de Isabel!

Da América gigante as brasileiras zonas,

Sentindo flutuar-lhe a sombra na amplidão,

Viram-na os pés banhar nas águas do Amazonas,

E enxugá-los depois na face de Assunção!

Viram-na entre o fumo erguer-se onipotente

E curvar-se, e cuspir no rosto guarani,

E acendendo de Osório a lança aurifulgente

Trocar o fulvo olhar com o olhar de Mauriti!

O evangelho do povo em suas mãos fechava,

Entre o brilho da espada e o brilho do fuzil!

Cada gesto dos seus a tropa deslumbrava,

Deslumbrando a seguia o gênio do Brasil!

E ela ia arrastando a fúlgida mortalha,

Bela, imensa, divina, esplêndida e feroz!

Na sua voz soava a orquestra da metralha,

E o seu manto arrastava um turbilhão de heróis!

E lambia-lhe a trança o fumo das bombardas!

Estrelada de sangue a hidra nacional,

Entre os dentes rasgava as inimigas fardas,

Enroscada da glória ao rubro pedestal!

Enquanto a espada, a pena, a inteligência, o verbo,

Irmãos gêmeos da luz, da humanidade irmãos,

Formarem-te o cortejo e o teu pendão soberbo

Tremular senhoril nas brasileiras mãos;

Enquanto a humanidade ousar erguer-se ufana,

Arrogante, plebeia, excelsa e triunfal,

E calcar a seus pés na marcha soberana,

A coroa cesárea e a púrpura real;

Ó! alma do universo! ó astro luminoso,

Pedestal do porvir! torrente popular!

Não há quem te detenha o curso caudaloso,

Nem Xerxes que acorrente as ondas do teu mar!

Tu és a encarnação do excelso cristianismo!

És a âncora imortal que prende a terra aos céus!

A criação sem ti, seria o caos, o abismo...

Ou mais de um Deus existe ou és o próprio Deus!

- Recife.

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