O Cavaleiro Olaf
(H. HEINE - 1869)
Ao Dr. Henrique Mamede.
I
Ei-los junto à capela os dois homens — são dois:
Rubro manto os envolve. Um é rei, outro algoz.
Diz o rei ao carrasco: “Ei-lo enfim! eis o instante:
Examina o teu braço e a lâmina brilhante.”
O companheiro vibra, o som do órgão voa,
A sutil multidão da capela se escoa...
Pelo meio do povo os noivos vão passando
E um fúnebre cortejo os vem acompanhando.
Ela, — a filha do rei, muda, abatida e fria,
Caminha tristemente, e contempla sombria
Olaf; Olaf, o noivo, Olaf, o cavaleiro,
Cuja fronte está calma e cujo olhar fagueiro
Belo e nobre fulgura... Ao rei medonho e irado
Diz o noivo: — Ó meu pai! eis o instante aprazado
Em que a fronte de Olaf do tronco decepada,
Vai rolar a teus pés sangrenta e mutilada!
Eu sei que é hoje, eu sei! mas deixa-me viver
Só até meia-noite... É tão triste morrer
No começo da festa! Ah! por Deus! um instante!
Um momento de amor! de gozo delirante!
A dança, o prazer, o vinho, a loucura veloz!
E à meia-noite, ó rei, manda que venha o algoz.
E o rei diz ao carrasco: “Ao lúgubre sinal
Da meia-noite traz teu cutelo fatal”.
II
E enquanto Olaf esgota o falerno espumante,
Ela geme e comprime o seio agonizante!
Mudo, o carrasco espera à porta do salão.
Começa o baile, a dança, o fugaz turbilhão
Da valsa! Olaf arrasta a noiva desmaiada,
E ela vai como a rosa, a folha arrebatada!
Hirta, louca, arquejante, exânime e sem voz!
Junto à porta da sala está esperando o algoz.
E a música ressoa! E todos ali quantos
Assistem ao festim, dizem por entre prantos:
“Tão formosos, gentis e desgraçados são!”
E o algoz sempre de pé à porta do salão.
Aos sons da orquestra infrene: — Ó meu querido amor,
Murmura Olaf, e eu hei de suportar o horror
Da morte! só! na terra!? Ah! que suplício atroz! —
E na porta da sala está esperando o algoz.
III
“— É meia-noite, Olaf! Eis a hora aprazada!
E já que inodoaste a fronte imaculada
Duma virgem real, será o teu castigo
Sepultares teu gozo e o teu amor contigo.”
Os monges dão começo às preces da agonia:
Torna-se escuro o céu, foge a lua erradia...
Desce Olaf ligeiro os degraus das escadas:
Vem de tochas cercado e cercado de espadas.
Com um sorriso na boca e o rosto iluminado:
— Ó sol! exclama, ó lua! ó astro abençoado
Do meu céu venturoso! Ó! murmúrios suaves
Do oceano, do vento e das peregrinas aves!
E vós, violetas, vós cuja cor azulada
São como a cor azul do olhar da minha amada,
Eu vos bendigo e choro! Olhos santos, queridos,
Olhos de minha noiva, acolhei meus gemidos
Meu suspiro final! E tu, aérea trança,
Do bosque a cuja sombra, ó pálida criança,
Os meus lábios cruéis mancharam lábios teus,
Ah! recebe minh’alma! Ah! recebe este adeus!
- Rio.