O Cavaleiro Olaf Corimbos · Capítulo 48 de 63
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O Cavaleiro Olaf

(H. HEINE - 1869)

Ao Dr. Henrique Mamede.

I

Ei-los junto à capela os dois homens — são dois:

Rubro manto os envolve. Um é rei, outro algoz.

Diz o rei ao carrasco: “Ei-lo enfim! eis o instante:

Examina o teu braço e a lâmina brilhante.”

O companheiro vibra, o som do órgão voa,

A sutil multidão da capela se escoa...

Pelo meio do povo os noivos vão passando

E um fúnebre cortejo os vem acompanhando.

Ela, — a filha do rei, muda, abatida e fria,

Caminha tristemente, e contempla sombria

Olaf; Olaf, o noivo, Olaf, o cavaleiro,

Cuja fronte está calma e cujo olhar fagueiro

Belo e nobre fulgura... Ao rei medonho e irado

Diz o noivo: — Ó meu pai! eis o instante aprazado

Em que a fronte de Olaf do tronco decepada,

Vai rolar a teus pés sangrenta e mutilada!

Eu sei que é hoje, eu sei! mas deixa-me viver

Só até meia-noite... É tão triste morrer

No começo da festa! Ah! por Deus! um instante!

Um momento de amor! de gozo delirante!

A dança, o prazer, o vinho, a loucura veloz!

E à meia-noite, ó rei, manda que venha o algoz.

E o rei diz ao carrasco: “Ao lúgubre sinal

Da meia-noite traz teu cutelo fatal”.

II

E enquanto Olaf esgota o falerno espumante,

Ela geme e comprime o seio agonizante!

Mudo, o carrasco espera à porta do salão.

Começa o baile, a dança, o fugaz turbilhão

Da valsa! Olaf arrasta a noiva desmaiada,

E ela vai como a rosa, a folha arrebatada!

Hirta, louca, arquejante, exânime e sem voz!

Junto à porta da sala está esperando o algoz.

E a música ressoa! E todos ali quantos

Assistem ao festim, dizem por entre prantos:

“Tão formosos, gentis e desgraçados são!”

E o algoz sempre de pé à porta do salão.

Aos sons da orquestra infrene: — Ó meu querido amor,

Murmura Olaf, e eu hei de suportar o horror

Da morte! só! na terra!? Ah! que suplício atroz! —

E na porta da sala está esperando o algoz.

III

“— É meia-noite, Olaf! Eis a hora aprazada!

E já que inodoaste a fronte imaculada

Duma virgem real, será o teu castigo

Sepultares teu gozo e o teu amor contigo.”

Os monges dão começo às preces da agonia:

Torna-se escuro o céu, foge a lua erradia...

Desce Olaf ligeiro os degraus das escadas:

Vem de tochas cercado e cercado de espadas.

Com um sorriso na boca e o rosto iluminado:

— Ó sol! exclama, ó lua! ó astro abençoado

Do meu céu venturoso! Ó! murmúrios suaves

Do oceano, do vento e das peregrinas aves!

E vós, violetas, vós cuja cor azulada

São como a cor azul do olhar da minha amada,

Eu vos bendigo e choro! Olhos santos, queridos,

Olhos de minha noiva, acolhei meus gemidos

Meu suspiro final! E tu, aérea trança,

Do bosque a cuja sombra, ó pálida criança,

Os meus lábios cruéis mancharam lábios teus,

Ah! recebe minh’alma! Ah! recebe este adeus!

- Rio.

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