Noite de Luar a Bordo Corimbos · Capítulo 26 de 63
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Noite de Luar a Bordo

(1868)

Recordar-se, - consolar-se.

- A. Herculano.

Daquela noite de luar, a bordo,

— Horas de amor, de febre e de poesia —

Debalde tento me esquecer, Maria,

Lembro-me sempre, sempre me recordo

Daquela noite de luar a bordo.

Os nossos nomes confundidos iam

Num longo beijo recortando o espaço

Da triste lua ao triste raio escasso,

E nas asas das auras que fugiam

Os nossos nomes confundidos iam

Com olhos fitos na amplidão da águas

Ambos gemendo de prazer mirávamos

O sombrio horizonte, e recordávamos

Passados sonhos e futuras mágoas,

Com os olhos fitos na amplidão das águas.

Ninguém nos viu, — ninguém nos escutava,

Deserto era o convés: na proa apenas

Curtindo dores e lembrando penas

Do marinheiro a voz o ar turbava...

Ninguém nos viu: — ninguém nos escutava.

E eu me esquecia a contemplar teus olhos

Perdido ali, — na solidão, — contigo,

Longe do céu e perto do perigo:

A nossos pés erguiam-se os abrolhos

E eu me esquecia de contemplar teus olhos!

Passava ao longe uma saudosa vela

Que entre névoas aos poucos se esvaía,

E enquanto o nosso olhar nela tremia

As nossas almas iam presas nela...

Passava ao longe uma saudosa vela.

Os juramentos que a tremer fizeste

Guarda-os do vasto mar o enorme leito,

E eu sepultei-me dentro do teu peito,

Dentro do coração que tu perdeste: —

Os juramentos que a tremer fizeste.

Só esquecido, abandonado e triste,

Hei de de novo, recortando os ventos,

Ouvir da vaga os fúnebres lamentos

E ver a lua que há dois anos viste:

Só, esquecido, abandonado e triste!

Ah! que saudades vou sentir, querida,

Quando os espaços perturbar apenas

Lembrando dores e curtindo penas

Do marinheiro a voz enternecida!

Ah! que saudades vou sentir, querida!

Pobre Maria! que tremenda sorte

A tua! e como deve ser penoso

Ver tão perto de ti o riso e o gozo

E em ti somente o desespero e a morte!

Pobre Maria! Que tremenda sorte!

Daquela noite de luar a bordo

Noite banhada de eternal magia,

Debalde tento me esquecer, Maria:

Lembro-me sempre, — sempre me recordo

Daquela noite de luar a bordo!...

- Recife.

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