Noite de Luar a Bordo
(1868)
Recordar-se, - consolar-se.
- A. Herculano.
Daquela noite de luar, a bordo,
— Horas de amor, de febre e de poesia —
Debalde tento me esquecer, Maria,
Lembro-me sempre, sempre me recordo
Daquela noite de luar a bordo.
Os nossos nomes confundidos iam
Num longo beijo recortando o espaço
Da triste lua ao triste raio escasso,
E nas asas das auras que fugiam
Os nossos nomes confundidos iam
Com olhos fitos na amplidão da águas
Ambos gemendo de prazer mirávamos
O sombrio horizonte, e recordávamos
Passados sonhos e futuras mágoas,
Com os olhos fitos na amplidão das águas.
Ninguém nos viu, — ninguém nos escutava,
Deserto era o convés: na proa apenas
Curtindo dores e lembrando penas
Do marinheiro a voz o ar turbava...
Ninguém nos viu: — ninguém nos escutava.
E eu me esquecia a contemplar teus olhos
Perdido ali, — na solidão, — contigo,
Longe do céu e perto do perigo:
A nossos pés erguiam-se os abrolhos
E eu me esquecia de contemplar teus olhos!
Passava ao longe uma saudosa vela
Que entre névoas aos poucos se esvaía,
E enquanto o nosso olhar nela tremia
As nossas almas iam presas nela...
Passava ao longe uma saudosa vela.
Os juramentos que a tremer fizeste
Guarda-os do vasto mar o enorme leito,
E eu sepultei-me dentro do teu peito,
Dentro do coração que tu perdeste: —
Os juramentos que a tremer fizeste.
Só esquecido, abandonado e triste,
Hei de de novo, recortando os ventos,
Ouvir da vaga os fúnebres lamentos
E ver a lua que há dois anos viste:
Só, esquecido, abandonado e triste!
Ah! que saudades vou sentir, querida,
Quando os espaços perturbar apenas
Lembrando dores e curtindo penas
Do marinheiro a voz enternecida!
Ah! que saudades vou sentir, querida!
Pobre Maria! que tremenda sorte
A tua! e como deve ser penoso
Ver tão perto de ti o riso e o gozo
E em ti somente o desespero e a morte!
Pobre Maria! Que tremenda sorte!
Daquela noite de luar a bordo
Noite banhada de eternal magia,
Debalde tento me esquecer, Maria:
Lembro-me sempre, — sempre me recordo
Daquela noite de luar a bordo!...
- Recife.