Ao Som da Viola
(1865)
Ainsi chante au soleil la cigale dorée
- A. de Musset.
Ai! fujamos destes ares
Deste clima e desta corte!
Há tantos sertões no norte,
Há tanta flor no sertão!
As florestas rumorejam,
Os vagalumes adejam
Da lua ai frio clarão:
Um rio o monte retalha,
Uma só casa de palha
Domina toda a extensão!
Ai! vamos viver de encantos!
Vem ver quanta liberdade
Te rouba o ar da cidade
Te entrega o céu do sertão:
Ai! quantas manhãs cheirosas!
Quantas silvas, quantas rosas,
Quantos perfumes no chão!
Na grama a palha dum ninho
A pena dum passarinho
Eu e tu e — a solidão.
Hás de ouvir talvez chorando
Os meigos sons da viola,
Tristes como ais da rola
Do mato na escuridão:
Ah! que saudades, querida,
Quanta lágrima esquecida
Não choraremos então!
E quanto amor, quanto medo
Prendendo um mútuo segredo
Nas asas da viração!
Ai! Vamos viver bem longe,
Longe do engano e do mundo,
Naquele exílio profundo,
Nos braços da criação:
Foge ao clima em que te abrasas,
Vem abrir as tuas asas
Aos ventos da solidão;
Perdes os bailes, é certo,
Mas lá — naquele deserto
Tens um mundo: — o coração!
- Rio.