Sonho Cruel Corimbos · Capítulo 59 de 63
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Sonho Cruel

(1868)

Eu tive um sonho mau... Quem me crê em sonhos?

Ah! não creias um dia,

Em sonhos maus, Maria!

Sonhei... Era uma praça enorme e triste,

Enchia a praça ardente multidão:

Chegava o réu co’a fronte condenada

Pendida para o chão.

Pálido o sacerdote, austero e grave,

Cravava os olhos na amplidão dos céus...

E o condenado já na hora extrema

Lembrava-se de Deus.

Eu segui-o também, — vi como os outros

Junto ao cepo fatal deter-se o réu:

Maria! o triste, o condenado, o mísero,

Conheci, — era eu!

Que sonho amargo! Ele subiu tremendo

A negra escada e como quem gemia,

Um nome murmurou, um nome apenas,

O nome teu, Maria!

Brancos fantasmas consolar tentavam

Do condenado as fundas aflições:

Era o bando das pombas fugidias

Das mortas ilusões!

E ele beijou a cruz, — do sacerdote

A benção recebeu, a fronte fria

Ergueu chorando, — o pobre inda pensava

Pensava em ti, Maria!

E quando o ferro atravessou-lhe as carnes,

E o sangue espadanou do colo nu,

Tremi de horror e despertei gemendo...

O carrasco eras tu!

- Rio.

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