Sonho Cruel
(1868)
Eu tive um sonho mau... Quem me crê em sonhos?
Ah! não creias um dia,
Em sonhos maus, Maria!
Sonhei... Era uma praça enorme e triste,
Enchia a praça ardente multidão:
Chegava o réu co’a fronte condenada
Pendida para o chão.
Pálido o sacerdote, austero e grave,
Cravava os olhos na amplidão dos céus...
E o condenado já na hora extrema
Lembrava-se de Deus.
Eu segui-o também, — vi como os outros
Junto ao cepo fatal deter-se o réu:
Maria! o triste, o condenado, o mísero,
Conheci, — era eu!
Que sonho amargo! Ele subiu tremendo
A negra escada e como quem gemia,
Um nome murmurou, um nome apenas,
O nome teu, Maria!
Brancos fantasmas consolar tentavam
Do condenado as fundas aflições:
Era o bando das pombas fugidias
Das mortas ilusões!
E ele beijou a cruz, — do sacerdote
A benção recebeu, a fronte fria
Ergueu chorando, — o pobre inda pensava
Pensava em ti, Maria!
E quando o ferro atravessou-lhe as carnes,
E o sangue espadanou do colo nu,
Tremi de horror e despertei gemendo...
O carrasco eras tu!
- Rio.