Hino Antigo Corimbos · Capítulo 32 de 63
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Hino Antigo

(1866)

A Fernando de Magalhães.

Quando rasgas, ó Sol, as nuvens do oriente

Quando teu cetro, ó Rei, teu cetro onipotente

Nos espaços divide os raios do esplendor,

O universo desperta e surge sobranceiro

Calcando a gleba ardente, — altivo, audaz guerreiro,

Que fita a multidão depois de vencedor!

Teu coche flamejante esmaga uma por uma

As noites e a tormenta: assim esmaga a espuma

A cortadora nau nas planícies do mar:

Quando desces do céu a prumo sobre o monte

A Treva espavorida esconde a negra fronte,

E a estrela da manhã mergulha em teu olhar!

As charnecas, a veiga, as campinas molhadas

Pelo orvalho da noite acordam deslumbradas,

Rasgando nos teus pés os lutulentos véus:

O caçador afasta o ramo e presta o ouvido,

O lavrador ensaia o braço entorpecido,

Beija a esposa, o filhinho e lembra-se de Deus!

E tu, gigante ousado, amparas desde o berço

O problema da vida, a história do universo!

E mais sublime sempre e com mais resplendor,

Cimentas o edifício e dás vigor ao galho,

Às aves o gorjeio, aos homens o trabalho,

Às florestas o rio, aos membros o suor!

Ao teu aspecto, ó Rei, ó grande soberano,

Tudo ressurge e luz! O pensador humano

Fustiga a imensidade e quer te acompanhar!

Nos antros da miséria apagas o suplício,

E aquele que se entrega à palidez do vício

Quando despontas vê que é tempo de corar!

Nada abafa o clarão da tua imensidade!

E teu pé flamejante escala a eternidade

E não esmaga o inseto, o homem sobre o chão!

Abraças o oriente e o ocidente abraças!

Por onde a Noite surge, altivo, imenso, passas,

E teu manto de luz arrastas na amplidão!

A criação fecunda é mais bela cada ano:

E o rio ensina ao mar e ao rio ensina o oceano

A voz que os guia e manda, — a palavra fatal:

Como é tranquilo o mar! como é tranquila a praia!

A vaga azul se enrola, a vaga azul desmaia

Como um beijo de amor em boca maternal!

Ó! segundo universo! Ó! Astro arremessado

De céus em céus e sempre a novo céu voltado

Gravando no infinito as leis do Criador!...

Quando teu corpo ardente a natureza abraça,

Ó! Sol! suspendes rindo a fronte da desgraça

E dás à mão mirrada a esmola do calor!

Salve! mil vezes salve! A terra aos céus envia

A mais pura e saudosa e casta melodia,

Que a natureza mãe oferta ao rei dos céus!

Quando rompes, ó Sol, as nuvens do oriente

És como um livro imenso em cujo dorso ardente

A mão da Eternidade escreve um nome: — Deus!

Salve no campo e céu! nas ondas e no espaço!

Faísca de luz eterna iluminando o passo

Daquele que se assenta em tronos de arrebol!

Daquele que apalpando a esfera desolada

Inerte e fria, e vendo a massa amontoada,

Abriu a mão na sombra e fez surgir o Sol!

Teus cabelos de fogo as nuvens afagando

Como docel gigante — em tranças mil rolando

Chovem sobre os vergéis e vêm cobrir a flor:

A luz que dás ao berço entregas ao sudário!

E tu que iluminaste o sangue do Calvário

Banhaste o teu olhar no olhar Redentor!

Pode o tempo esmagar o bronze e as arcarias!

Lançar por terra o monte, as longas penedias:

E se o mundo estender-se imenso, inculto e nu,

Há de sempre passar atravessando os montes,

Uma sombra, um fantasma abrindo os horizontes:

E esse espectro não morre: — esse fantasma és tu!

Ergue-te azinha, ó Sol! Às portas do oriente

Rola teu carro d’oiro e o teu corcel nitente

Das crinas solta em febre o matinal clarão!

Eis a hora em que Deus desperta-te no berço,

E erguendo-te, farol, acima do universo,

Descobre a fronte imensa e espreita a criação!

- Rio.

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