Hino Antigo
(1866)
A Fernando de Magalhães.
Quando rasgas, ó Sol, as nuvens do oriente
Quando teu cetro, ó Rei, teu cetro onipotente
Nos espaços divide os raios do esplendor,
O universo desperta e surge sobranceiro
Calcando a gleba ardente, — altivo, audaz guerreiro,
Que fita a multidão depois de vencedor!
Teu coche flamejante esmaga uma por uma
As noites e a tormenta: assim esmaga a espuma
A cortadora nau nas planícies do mar:
Quando desces do céu a prumo sobre o monte
A Treva espavorida esconde a negra fronte,
E a estrela da manhã mergulha em teu olhar!
As charnecas, a veiga, as campinas molhadas
Pelo orvalho da noite acordam deslumbradas,
Rasgando nos teus pés os lutulentos véus:
O caçador afasta o ramo e presta o ouvido,
O lavrador ensaia o braço entorpecido,
Beija a esposa, o filhinho e lembra-se de Deus!
E tu, gigante ousado, amparas desde o berço
O problema da vida, a história do universo!
E mais sublime sempre e com mais resplendor,
Cimentas o edifício e dás vigor ao galho,
Às aves o gorjeio, aos homens o trabalho,
Às florestas o rio, aos membros o suor!
Ao teu aspecto, ó Rei, ó grande soberano,
Tudo ressurge e luz! O pensador humano
Fustiga a imensidade e quer te acompanhar!
Nos antros da miséria apagas o suplício,
E aquele que se entrega à palidez do vício
Quando despontas vê que é tempo de corar!
Nada abafa o clarão da tua imensidade!
E teu pé flamejante escala a eternidade
E não esmaga o inseto, o homem sobre o chão!
Abraças o oriente e o ocidente abraças!
Por onde a Noite surge, altivo, imenso, passas,
E teu manto de luz arrastas na amplidão!
A criação fecunda é mais bela cada ano:
E o rio ensina ao mar e ao rio ensina o oceano
A voz que os guia e manda, — a palavra fatal:
Como é tranquilo o mar! como é tranquila a praia!
A vaga azul se enrola, a vaga azul desmaia
Como um beijo de amor em boca maternal!
Ó! segundo universo! Ó! Astro arremessado
De céus em céus e sempre a novo céu voltado
Gravando no infinito as leis do Criador!...
Quando teu corpo ardente a natureza abraça,
Ó! Sol! suspendes rindo a fronte da desgraça
E dás à mão mirrada a esmola do calor!
Salve! mil vezes salve! A terra aos céus envia
A mais pura e saudosa e casta melodia,
Que a natureza mãe oferta ao rei dos céus!
Quando rompes, ó Sol, as nuvens do oriente
És como um livro imenso em cujo dorso ardente
A mão da Eternidade escreve um nome: — Deus!
Salve no campo e céu! nas ondas e no espaço!
Faísca de luz eterna iluminando o passo
Daquele que se assenta em tronos de arrebol!
Daquele que apalpando a esfera desolada
Inerte e fria, e vendo a massa amontoada,
Abriu a mão na sombra e fez surgir o Sol!
Teus cabelos de fogo as nuvens afagando
Como docel gigante — em tranças mil rolando
Chovem sobre os vergéis e vêm cobrir a flor:
A luz que dás ao berço entregas ao sudário!
E tu que iluminaste o sangue do Calvário
Banhaste o teu olhar no olhar Redentor!
Pode o tempo esmagar o bronze e as arcarias!
Lançar por terra o monte, as longas penedias:
E se o mundo estender-se imenso, inculto e nu,
Há de sempre passar atravessando os montes,
Uma sombra, um fantasma abrindo os horizontes:
E esse espectro não morre: — esse fantasma és tu!
Ergue-te azinha, ó Sol! Às portas do oriente
Rola teu carro d’oiro e o teu corcel nitente
Das crinas solta em febre o matinal clarão!
Eis a hora em que Deus desperta-te no berço,
E erguendo-te, farol, acima do universo,
Descobre a fronte imensa e espreita a criação!
- Rio.