Cantiga em Noite de Luar
(1863)
Marília, escuta
Um triste pastor.
- Lira de Gonzaga.
Amemos! Tudo desmaia
Do tempo aos beijos fatais,
A vaga lambe uma praia
E noutra além se desfaz:
Amemos! que a mocidade,
Querida, não volta mais!
Chove a neve e cobre o monte
O inverno sucede à paz:
Morre a planta, seca a fonte,
O tempo a velhice traz:
Amemos! que a mocidade,
Querida, não volta mais!
O musgo nasce e se agita
Da brisa aos noturnos ais,
Cresce, cresce a parasita
Cai o teto dos casais: —
Amemos! que a mocidade,
Querida, não volta mais!
Escuta a voz dolorida
Dos meus arpejos mortais:
Meus cantos são minha vida
Minhas canções são meus ais:
Amemos! que a mocidade,
Querida! não volta mais!
O vento passa gemendo
Nos leques dos palmeirais,
E vai rolando e morrendo
Pelas silvas e rosais:
Amemos! que a mocidade,
Querida, não volta mais!
— Nuvem pálida e sombria,
Que entre os morros expirais,
Andorinha fugidia,
Brisas de céu que passais,
Ide dizer a Maria
Que o tempo não volta mais!
- São Paulo.