Candura
(1868)
Teus dias correm suaves,
Bordados de loira luz,
Como o pipilo das aves
Nos horizontes azuis.
Tu’alma vai com a prece
Dormir no coxim dos céus;
O dia rompe e ela desce,
Quente dos braços de Deus!
E como o orvalho escondido
Entre os seios duma flor,
Brilha teu seio adormido
Nas rosas do teu pudor.
Nada prende os teus encantos,
Teus passos nada detém:
Choras e ris, — e teus prantos
São de alegria também.
Que doce existência tua!
Que meigo e puro arrebol!
Macio raio de lua,
Ardente raio de sol!
E teu pensamento à toa
Corre, corre sem parar
Como um barquinho que voa
Na correnteza do mar.
Mas esse encanto profundo
Há de acabar-se por fim,
Quando pensares no mundo,
Quando pensares em mim
- Recife.