Mont'Alverne
(1866)
Tel que ces pies, où moute un flot d'ombres funèbres,
Son crâne etait semé d'éclairs et de ténèbres,
Qui rendaient à son gré le ciel terne et serein.
- Eugène Villemin.
A multidão é muda: o templo imenso
Como a campa dum mundo, exala apenas
O longo, ardente e trêmulo respiro
Dum milhão de fiéis. Calou-se a orquestra,
Queda-se o órgão: — a abóbada sombria
Da casa do Senhor ampara as preces,
Que sobem como o incenso e envia-as castas.
Ao seio do infinito.Os círios ardem,
E um véu medonho de tristeza e morte
Envolve o altar e o templo... Os olhos fitos
Na vazia tribuna ansiosos tentam
Rasgar o espaço, que os afasta ainda
Do profeta de Deus!Enfim! Nas sombras
Uma sombra se eleva: sombra augusta,
Que do burel ressurge como a aurora
Nas trevas rebentando: como a Ideia,
Que alenta a vida, que dá vida a um Mundo!
Curvam-se todos, todos tremem, arfam,
Buscam, esperam... Um pavor ignoto
Espalha-se na Igreja: o altar, a imagem,
A cruz num mar de auréolas se banham,
Donde brota essa aurora? Dum profeta!
Tanta luz donde vem? Do olhar dum cego!
— Mont'Alverne na terra e Deus no Eterno!
Cego! Na fronte vasta, altiva e nobre,
O dedo do Senhor gravara a ideia!
Se a mão da Providência a luz nas pálpebras
Apagou duma vez, se das pupilas
A chama ativa se atufou nas sombras,
É que o fadara Cristo, é que o fadara
A lei divina a percorrer a terra
Sem o pó conhecer! É que ele via,
Ouvia, amava, os mudos pressentira
Sem ver aonde os dedos seus tocavam!
Era alma, era alma só! Luz, gênio, estudo!
Alma sublime, encarcerada, opressa
Nos mundanos grilhões! Ele era o raio,
Que as trevas fustigava, — era o estandarte,
Que à frente sempre das fileiras ia
Mostrar o rumo ao viajador perdido!
Quando da cela ao púlpito voava
O templo inteiro estremecia como
Se o coração da Igreja às claras ondas
Desse novo Jordão sentisse o sangue
Mais potente correr! e os ímpios trêmulos,
Viam dos lábios dele, envolto em frases
Cair o raio, da verdade o raio,
Que nas asas do Verbo ardente e eterno
O erro fulminava!Mont'Alverne
Sublime cego! Apóstolo sublime!
Sim! não devera o teu olhar perder-se
Nas misérias humanas! Em tua alma
Deus habitava e o verbo teu banhava-se
Na voz do Redentor antes do púlpito
Voar tremendo abalroando os mundos!
Glória há no campo em que as falanges tombam
Sob o gládio de Cesar! É sublime
Prender ao dorso dos corcéis pujantes
O porvir e a vitória! É grande a espada,
Que em Marengo vibrou e que brilhando
Em Austerlitz e fulgindo sempre,
Ébria de glória mergulhouos copos
E a lâmina quebrada abismos
Do campo de Waterloo! É nobre, é certo!
Glória é lançar ao mundo as folhas fúlgidas
Da fúlgida epopeia! É num só nome
Amontoar mil séculos! É num só sopro
Formar o alento dum milhão de povos!
Glória é rasgar o espaço luminoso,
Pairar na Eternidade e sobre o mundo
Deixar cair esferas, astros, raios,
Como sílabas de luz de polo a polo
Recordando o universo: — Homero, Klopstok,
Milton e Dante e Tasso e Ésquilo e Sófocles!
É santo o esforço que produz a pena:
É bela a ideia que conduz a espada!
Mas, tu, levita, és mais do que um poeta,
Um filósofo, um gênio: és como a sombra
A sombra eterna do Senhor dos mundos,
O fantasma de Cristo abrindo os braços
Ao pecador e ao justo, ao rico e ao pobre,
Ao pequeno e ao grande, e em voz serena
Chamando ao seio da oração, do alívio
Os náufragos da sorte! Isto é que é glória!
A espada é o coração, o grito a prece,
O fumo o incenso, o escudo o altar de Cristo,
E o sangue o pranto que o pecado lava!
Erguem-se às vezes mundana argila
Venenos e miasmas, como se ergue
Do chão das campas labareda impura,
Que açoita os ares e nos ares morre...
Tal dentre os ímpios, vis demolidores
Das doutrinas mais santas! Renegados,
Que embalde tentam derrocar do Gólgata
A cruz da Liberdade, erguem-se brados,
Imprecações malditas, — vozes lúgubres,
Mortas em vida e de miséria eivadas!
Nessas frágeis muralhas o teu verbo
Como gládio de fogo se enterrava
Nos combates da ideia! Santo Apóstolo,
Luzeiro da verdade! As mudas folhas
Do Evangelho inda marcam o vestígio,
Que tuas mãos deixaram: — na tribuna
Vê-se inda imóvel tua sombra imensa!
Âncora etérea que no mar sereno
Das doutrinas de Deus prendesse à margem
A barca dos Apóstolos! Ninguém pôde
Ouvir-te a voz sem procurar nas nuvens
A porta do infinito! Ninguém pôde
Deixar de crer em Deus quando ensinavas
Letra por letra as páginas gigantes
Dos poemas da Igreja! Ao teu aceno
As frontes se dobravam... Grande, altivo,
O teu aspecto, mártir, o teu porte
Elevava-se aos céus tal como o cedro
A cuja sombra augusta, excelsa e límpida,
Vinham em bandos, — desgraçados, pobres,
O pecado e a virtude, o mal e a angústia,
Almas feridas, corações exaustos,
Ganhar nova existência, ouvir-te os hinos
Sorver o aroma que roubaste aos anjos!
O Redentor de bençãos coroava
Tua fronte serene e calma e lisa
Como os espelhos dos tranquilos mares!
O Senhor dos exércitos se acaso
Via errabunda a multidão esquálida
Sem abrigo e sem pão, lançando aos ares
Imprecações e gritos, — mergulhava
A mão no espaço e vinha despertar-te
No silêncio do claustro aos pés da Bíblia:
“Vai! Tuas vozes, teu amor, teus rogos
Corram de zona em zona e a turba errante
Chamem ao templo, aos pés dos meus altares:
Fala!” A Tribuna abria-se e um vulto
Surgia como da mudez das campas
O espectro do passado. E qual se um manto
Cingisse inteiro a multidão compacta,
Vinha o silêncio da mudez, dos túmulos
Cobrir o templo e os homens... Mont'Alverne
Era o enviado às tribos, era a ideia,
Pensamento de Deus baixado à terra
Penetrando num claustro e após surgindo
Das sombras dum burel. — Profeta d’alma!
Tu foste o Livro em cujas folhas puras
A religião de Cristo eternizara
As doutrinas mais santas, onde o povo
Contrito vinha decorar as máximas,
Que teu lábio ensinava.Onde teus carmes,
Poeta-rei! Acaso a humanidade
Perdeu-te? É certo que partiste a fronte
Contra a pedra dos túmulos? Teu crânio
A terra oculta? e os vermes no silêncio
No mistério e na morte despojaram
O corpo teu e os ossos nus alvejam,
Quedos e frios na sombria terra?
É certo sim. A lei divina e eterna
Baixou sobre o teu corpo e os restos caros
Dormem envoltos no fulgor da glória
Sob a lápidaláp'da funérea!Estrela d’alva
Que o norte sempre às multidões mostraste
Nas vorazes tormentas! Mensageiro
Enviado dos céus! Pomba querida,
De cujas asas brancas e diáfanas,
O orvalho, o aroma, o bálsamo caíam!
Bem como um sonho que se esvai nas lágrimas
Sumiste-te na bruma, — abalroaste
A fronte d’oiro no feral sepulcro!
Era pequeno espaço em que vagavas:
O oceano às nuvens salta, as praias rompe
E a terra treme de pavor sentindo
As entranhas feridas. Quem pudera
Sondar o oceano do teu crânio, as ondas
De teu fundo pensar? O mundo absorto
Ouvindo-te, pasmando, recolhia
No seio exausto a vida, o pensamento,
Que em turbilhão lançavas, evitando
Fitar o oceano em que encontrara as pérolas!
Águia altaneira! A tempestade escura
Tentou rasgar-te o voo! Sobre os cimos
Pairaste um’hora e após mais gigantesca
Açoitaste a amplidão! Embalde as névoas
Em colunas se erguiam! sempre ousada
Ias cortando os plainos do infinito!
Quem se arrojara em teu caminho? O oriente
Quando passaste iluminou-se: a terra
De floco em floco evaporou-se ao longe...
Só, ias só! Ninguém seguir-te ousara:
Nem tua sombra!Ansioso, exausto, morto,
Chegaste enfim! E tu que o mundo inteiro
Arrojaste a teus pés; tu que num gesto
As multidões prendias... Nuvem d’oiro
Nos céus te evaporaste...Ó! se isto é morte
A morte é o sol da campa! — anjo indizível,
Tu não morreste, não! Homem, caíste,
Gênio voaste, — Mártir ressuscitas:
— Morres na campa e vás surgir em Deus!
Arcanjo-rei! Deu-te o universo um túmulo,
Um epitáfio eterno que atravessa
De polo a polo o mundo onde se eleva
Ao pé da Cruz a Bíblia!O sol mergulha
Nas rubras vagas e ergue-se mais fúlgido
Quando das vagas surge... E a tua imagem?
E o nome teu? Suceda o dia ao dia,,
A noite à noite, os séculos aos séculos,
Do tempo as rodas rolarão sombrias
Por cima do teu nome, qual do oceano
No dorso escuro as impotentes frotas!
Pedra por pedra as ambições derrubem
Os altares e o templo...Em vão! teu nome
Deus estampou num beijo sobre a fronte
Do velho Cristianismo!Em vão! teu nome
De idade a idade vibrará profundo
Como alma dum século: imenso, enorme,
Bem como a cruz em cujos braços negros
Tu te casaste à Eternidade e à Glória!
- Recife