Mont'Alverne Corimbos · Capítulo 37 de 63
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Mont'Alverne

(1866)

Tel que ces pies, où moute un flot d'ombres funèbres,

Son crâne etait semé d'éclairs et de ténèbres,

Qui rendaient à son gré le ciel terne et serein.

- Eugène Villemin.

A multidão é muda: o templo imenso

Como a campa dum mundo, exala apenas

O longo, ardente e trêmulo respiro

Dum milhão de fiéis. Calou-se a orquestra,

Queda-se o órgão: — a abóbada sombria

Da casa do Senhor ampara as preces,

Que sobem como o incenso e envia-as castas.

Ao seio do infinito.Os círios ardem,

E um véu medonho de tristeza e morte

Envolve o altar e o templo... Os olhos fitos

Na vazia tribuna ansiosos tentam

Rasgar o espaço, que os afasta ainda

Do profeta de Deus!Enfim! Nas sombras

Uma sombra se eleva: sombra augusta,

Que do burel ressurge como a aurora

Nas trevas rebentando: como a Ideia,

Que alenta a vida, que dá vida a um Mundo!

Curvam-se todos, todos tremem, arfam,

Buscam, esperam... Um pavor ignoto

Espalha-se na Igreja: o altar, a imagem,

A cruz num mar de auréolas se banham,

Donde brota essa aurora? Dum profeta!

Tanta luz donde vem? Do olhar dum cego!

— Mont'Alverne na terra e Deus no Eterno!

Cego! Na fronte vasta, altiva e nobre,

O dedo do Senhor gravara a ideia!

Se a mão da Providência a luz nas pálpebras

Apagou duma vez, se das pupilas

A chama ativa se atufou nas sombras,

É que o fadara Cristo, é que o fadara

A lei divina a percorrer a terra

Sem o pó conhecer! É que ele via,

Ouvia, amava, os mudos pressentira

Sem ver aonde os dedos seus tocavam!

Era alma, era alma só! Luz, gênio, estudo!

Alma sublime, encarcerada, opressa

Nos mundanos grilhões! Ele era o raio,

Que as trevas fustigava, — era o estandarte,

Que à frente sempre das fileiras ia

Mostrar o rumo ao viajador perdido!

Quando da cela ao púlpito voava

O templo inteiro estremecia como

Se o coração da Igreja às claras ondas

Desse novo Jordão sentisse o sangue

Mais potente correr! e os ímpios trêmulos,

Viam dos lábios dele, envolto em frases

Cair o raio, da verdade o raio,

Que nas asas do Verbo ardente e eterno

O erro fulminava!Mont'Alverne

Sublime cego! Apóstolo sublime!

Sim! não devera o teu olhar perder-se

Nas misérias humanas! Em tua alma

Deus habitava e o verbo teu banhava-se

Na voz do Redentor antes do púlpito

Voar tremendo abalroando os mundos!

Glória há no campo em que as falanges tombam

Sob o gládio de Cesar! É sublime

Prender ao dorso dos corcéis pujantes

O porvir e a vitória! É grande a espada,

Que em Marengo vibrou e que brilhando

Em Austerlitz e fulgindo sempre,

Ébria de glória mergulhouos copos

E a lâmina quebrada abismos

Do campo de Waterloo! É nobre, é certo!

Glória é lançar ao mundo as folhas fúlgidas

Da fúlgida epopeia! É num só nome

Amontoar mil séculos! É num só sopro

Formar o alento dum milhão de povos!

Glória é rasgar o espaço luminoso,

Pairar na Eternidade e sobre o mundo

Deixar cair esferas, astros, raios,

Como sílabas de luz de polo a polo

Recordando o universo: — Homero, Klopstok,

Milton e Dante e Tasso e Ésquilo e Sófocles!

É santo o esforço que produz a pena:

É bela a ideia que conduz a espada!

Mas, tu, levita, és mais do que um poeta,

Um filósofo, um gênio: és como a sombra

A sombra eterna do Senhor dos mundos,

O fantasma de Cristo abrindo os braços

Ao pecador e ao justo, ao rico e ao pobre,

Ao pequeno e ao grande, e em voz serena

Chamando ao seio da oração, do alívio

Os náufragos da sorte! Isto é que é glória!

A espada é o coração, o grito a prece,

O fumo o incenso, o escudo o altar de Cristo,

E o sangue o pranto que o pecado lava!

Erguem-se às vezes mundana argila

Venenos e miasmas, como se ergue

Do chão das campas labareda impura,

Que açoita os ares e nos ares morre...

Tal dentre os ímpios, vis demolidores

Das doutrinas mais santas! Renegados,

Que embalde tentam derrocar do Gólgata

A cruz da Liberdade, erguem-se brados,

Imprecações malditas, — vozes lúgubres,

Mortas em vida e de miséria eivadas!

Nessas frágeis muralhas o teu verbo

Como gládio de fogo se enterrava

Nos combates da ideia! Santo Apóstolo,

Luzeiro da verdade! As mudas folhas

Do Evangelho inda marcam o vestígio,

Que tuas mãos deixaram: — na tribuna

Vê-se inda imóvel tua sombra imensa!

Âncora etérea que no mar sereno

Das doutrinas de Deus prendesse à margem

A barca dos Apóstolos! Ninguém pôde

Ouvir-te a voz sem procurar nas nuvens

A porta do infinito! Ninguém pôde

Deixar de crer em Deus quando ensinavas

Letra por letra as páginas gigantes

Dos poemas da Igreja! Ao teu aceno

As frontes se dobravam... Grande, altivo,

O teu aspecto, mártir, o teu porte

Elevava-se aos céus tal como o cedro

A cuja sombra augusta, excelsa e límpida,

Vinham em bandos, — desgraçados, pobres,

O pecado e a virtude, o mal e a angústia,

Almas feridas, corações exaustos,

Ganhar nova existência, ouvir-te os hinos

Sorver o aroma que roubaste aos anjos!

O Redentor de bençãos coroava

Tua fronte serene e calma e lisa

Como os espelhos dos tranquilos mares!

O Senhor dos exércitos se acaso

Via errabunda a multidão esquálida

Sem abrigo e sem pão, lançando aos ares

Imprecações e gritos, — mergulhava

A mão no espaço e vinha despertar-te

No silêncio do claustro aos pés da Bíblia:

“Vai! Tuas vozes, teu amor, teus rogos

Corram de zona em zona e a turba errante

Chamem ao templo, aos pés dos meus altares:

Fala!” A Tribuna abria-se e um vulto

Surgia como da mudez das campas

O espectro do passado. E qual se um manto

Cingisse inteiro a multidão compacta,

Vinha o silêncio da mudez, dos túmulos

Cobrir o templo e os homens... Mont'Alverne

Era o enviado às tribos, era a ideia,

Pensamento de Deus baixado à terra

Penetrando num claustro e após surgindo

Das sombras dum burel. — Profeta d’alma!

Tu foste o Livro em cujas folhas puras

A religião de Cristo eternizara

As doutrinas mais santas, onde o povo

Contrito vinha decorar as máximas,

Que teu lábio ensinava.Onde teus carmes,

Poeta-rei! Acaso a humanidade

Perdeu-te? É certo que partiste a fronte

Contra a pedra dos túmulos? Teu crânio

A terra oculta? e os vermes no silêncio

No mistério e na morte despojaram

O corpo teu e os ossos nus alvejam,

Quedos e frios na sombria terra?

É certo sim. A lei divina e eterna

Baixou sobre o teu corpo e os restos caros

Dormem envoltos no fulgor da glória

Sob a lápidaláp'da funérea!Estrela d’alva

Que o norte sempre às multidões mostraste

Nas vorazes tormentas! Mensageiro

Enviado dos céus! Pomba querida,

De cujas asas brancas e diáfanas,

O orvalho, o aroma, o bálsamo caíam!

Bem como um sonho que se esvai nas lágrimas

Sumiste-te na bruma, — abalroaste

A fronte d’oiro no feral sepulcro!

Era pequeno espaço em que vagavas:

O oceano às nuvens salta, as praias rompe

E a terra treme de pavor sentindo

As entranhas feridas. Quem pudera

Sondar o oceano do teu crânio, as ondas

De teu fundo pensar? O mundo absorto

Ouvindo-te, pasmando, recolhia

No seio exausto a vida, o pensamento,

Que em turbilhão lançavas, evitando

Fitar o oceano em que encontrara as pérolas!

Águia altaneira! A tempestade escura

Tentou rasgar-te o voo! Sobre os cimos

Pairaste um’hora e após mais gigantesca

Açoitaste a amplidão! Embalde as névoas

Em colunas se erguiam! sempre ousada

Ias cortando os plainos do infinito!

Quem se arrojara em teu caminho? O oriente

Quando passaste iluminou-se: a terra

De floco em floco evaporou-se ao longe...

Só, ias só! Ninguém seguir-te ousara:

Nem tua sombra!Ansioso, exausto, morto,

Chegaste enfim! E tu que o mundo inteiro

Arrojaste a teus pés; tu que num gesto

As multidões prendias... Nuvem d’oiro

Nos céus te evaporaste...Ó! se isto é morte

A morte é o sol da campa! — anjo indizível,

Tu não morreste, não! Homem, caíste,

Gênio voaste, — Mártir ressuscitas:

— Morres na campa e vás surgir em Deus!

Arcanjo-rei! Deu-te o universo um túmulo,

Um epitáfio eterno que atravessa

De polo a polo o mundo onde se eleva

Ao pé da Cruz a Bíblia!O sol mergulha

Nas rubras vagas e ergue-se mais fúlgido

Quando das vagas surge... E a tua imagem?

E o nome teu? Suceda o dia ao dia,,

A noite à noite, os séculos aos séculos,

Do tempo as rodas rolarão sombrias

Por cima do teu nome, qual do oceano

No dorso escuro as impotentes frotas!

Pedra por pedra as ambições derrubem

Os altares e o templo...Em vão! teu nome

Deus estampou num beijo sobre a fronte

Do velho Cristianismo!Em vão! teu nome

De idade a idade vibrará profundo

Como alma dum século: imenso, enorme,

Bem como a cruz em cujos braços negros

Tu te casaste à Eternidade e à Glória!

- Recife

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