A uns Quinze Anos
(1866)
M. L.
Oh! grâce surnaturelle!
- Chansons des Bois.
És doce e pura e saudosa
Como um perfume de rosa,
Que pouco a pouco se esvai:
És como o frouxel dum ninho,
Os trinos dum passarinho,
Uma pétala que cai.
És alva e meiga e divina
Como a névoa peregrina
Da madrugada ao surgir:
O céu teu riso enamora,
Os anjos formam a aurora
Dos raios do teu sorrir.
És casta e nívea e serena
Como as asas, como a pena
Que um serafim esqueceu:
Quando tu rezas, parece
Que para ouvir tua prece
Deus põe mais astros no céu!
Teu ser a música exala:
Teu corpo aromas trescala
Tudo em ti é luz e amor:
Tu’alma um jardim resume —
Cada segredo um perfume
E cada sonho uma flor!
Às vezes tremes medrosa
Como o cálice da rosa
Por onde o vento passou...
E se o rubor te colora,
Eu vejo romper a aurora
Aonde o pejo apontou.
És triste e casta e suave
Como o soluço duma ave,
Que entre os ramos se escondeu...
se desprendes um gemido
És como um anjo perdido,
Que tem saudades do céu!
- Recife.