A Balada da Flor
(1865)
A Batista Guimarães
— Queres seguir-me? Eu te oferto
Os sonhos do coração...
— Donde tu vens? — Do deserto
Das urzes da solidão:
Vivo sozinha vagando
De planta em planta levando
Os prantos da criação:
Queres seguir-me, formosa?
Disse a rosa:
— Seguir-te... não quero, não.
Sumiu-se o sopro encantado:
Sumiu-se o canto magoado
Dos gênios da solidão.
— Amo-te! Quero em teu seio
Viver de aromas, ó flor!
Que susto, — diz-me: — que enleio
Turbou-te o régio fulgor?
Eu sou o vento das noites,
Da tempestade os açoites
Da primavera o terror:
Abre-me os seios, formosa,
Dá-me, oh rosa,
A primavera do amor.
O vento foi se afastando
Nas frias garras levando
O cadáver duma flor.
Desceu a noite, e quando a noite veio,
Bem como a queixa dum ferido seio,
Vinha de volta a brisa do sertão:
Por despedida quis passar no campo,
E à varia luz de incerto pirilampo
Buscou a rosa, mas buscou-a em vão.
— Ouve-me, escuta-me, rosa.
Sou eu, minha irmã, sou eu:
Queres seguir-me, formosa?
Mas a rosa,
Mas a flor não respondeu.
- Recife.