A Choça do Lenhador Corimbos · Capítulo 58 de 63
Obra Menu

A Choça do Lenhador

(1868)

A cauã piou, além, na extrema do vale. Caía a noite.

- Iracema.

No dorso da cordilheira

Tranquila, humilde, rasteira,

À sombra duma aroeira,

Cheia de frutos e flor,

Exposta ao vento, à invernada,

Às chuvas, à trovoada,

Existe a alegre morada,

A choça do lenhador.

Salvos do mundo às provanças,

Vivem nela de esperanças,

Dois velhos, quatro crianças

Na santa paz do Senhor:

E o raio que silva irado

Pelos trovões despenhado,

Poupa o teto abençoado

Da choça do lenhador.

E enquanto loucas, raivosas,

Nas ribanceiras fragosas

As torrentes caudalosas,

Bramem do vento ao furor,

Um canto agreste e baixinho

De mãe que embala o filhinho

Sai num terno burburinho

Da choça do lenhador.

Nas longas noites de estio,

Do vento ao sopro macio,

Da lua ao clarão sombrio,

Dos céus ao tíbio fulgor,

Como garça adormecida,

Nos matagais esquecida,

Alveja a sombra perdida

Da choça do lenhador.

Surge o dia irradiante,

Desponta o sol fulgurante

Banhando a serra odorante

De luz, de vida e esplendor:

E o vento que a noite espalha,

Que entre os coqueiros farfalha,

Canta sorrindo na palha

Da choça do lenhador.

Ó! diletos da inocência!

Corra-vos sempre a existência

Longe da crua inclemência

Do mundo ingrato e traidor;

Não há na terra nobreza,

Que valha a casta pobreza

Da choça do lenhador!

Minh’alma agora batida

Das tempestades da vida,

Prostrada, exausta, ferida,

Do mundo exposta ao rigor,

Vê-te ainda o teto amado

Pelas saudades banhado

Como um sonho do passado,

Cabana do lenhador!

Era tarde, ao sol posto,

Furtiva aragem de Agosto

Vinha expirar-me no rosto

Como um bafejo de amor...

As criancinhas brincavam,

Bandos de rolas voavam

E as andorinhas pousavam

Na choça do lenhador.

Um canto longo magoado

Partia o fundo valado

E o cavo som dum machado

Seguia a voz do cantor:

Na porta a velha cosia,

No berço o infante dormia

Enquanto o fumo saía

Da choça do lenhador...

O sabiá na aroeira

Quebrava a endecha fagueira

E o bem-te-vi na palmeira

Soltava o pio ruidor:

Os arvoredos gemiam,

As cachoeiras rugiam,

Os raios do sol morriam

Na choça do lenhador.

Pela janela entreaberta,

De murchas rosas coberta

Sobre a parede deserta

Sorria a Mãe do Senhor:

E enquanto a virgem sorria,

Deus invisível descia

E a luz, o pão repartia

Na choça do lenhador.

Ó! loira tarde perdida,

Celeste eflúvio da vida,

Ó! cordilheira vestida

De primaveras em flor!

Ó! alvas rolas cheirosas,

Ó! cantilenas saudosas,

Ó! criancinhas formosas

Da choça do lenhador...

Minh’alma ardente e sombria

Debalde evoca a harmonia

Daquela santa poesia,

Daquele esterno esplendor!

A glória, o futuro, o gozo,

Tudo eu trocara gostoso

Por um dia de repouso

Na choça do lenhador.

Mas ah! jamais ser-me-á dado

Reconstruir o passado,

Vestir meu ser isolado

De luz, de crença e de amor!

Em vão, em vão meus ouvidos

Pensam colher os ruídos

Do mato e os cantos sentidos

Da choça do lenhador.

Vós, minhas crenças nevadas,

Como rosas desfolhadas.

Secais no mundo espalhadas —

Ludibrio eterno da dor:

E além, na serra, esquecida,

Pela virgem defendida,

Cria mais flores e vida

A choça do lenhador.

- * * *

1/1
Menu

Fazer anotação