A Choça do Lenhador
(1868)
A cauã piou, além, na extrema do vale. Caía a noite.
- Iracema.
No dorso da cordilheira
Tranquila, humilde, rasteira,
À sombra duma aroeira,
Cheia de frutos e flor,
Exposta ao vento, à invernada,
Às chuvas, à trovoada,
Existe a alegre morada,
A choça do lenhador.
Salvos do mundo às provanças,
Vivem nela de esperanças,
Dois velhos, quatro crianças
Na santa paz do Senhor:
E o raio que silva irado
Pelos trovões despenhado,
Poupa o teto abençoado
Da choça do lenhador.
E enquanto loucas, raivosas,
Nas ribanceiras fragosas
As torrentes caudalosas,
Bramem do vento ao furor,
Um canto agreste e baixinho
De mãe que embala o filhinho
Sai num terno burburinho
Da choça do lenhador.
Nas longas noites de estio,
Do vento ao sopro macio,
Da lua ao clarão sombrio,
Dos céus ao tíbio fulgor,
Como garça adormecida,
Nos matagais esquecida,
Alveja a sombra perdida
Da choça do lenhador.
Surge o dia irradiante,
Desponta o sol fulgurante
Banhando a serra odorante
De luz, de vida e esplendor:
E o vento que a noite espalha,
Que entre os coqueiros farfalha,
Canta sorrindo na palha
Da choça do lenhador.
Ó! diletos da inocência!
Corra-vos sempre a existência
Longe da crua inclemência
Do mundo ingrato e traidor;
Não há na terra nobreza,
Que valha a casta pobreza
Da choça do lenhador!
Minh’alma agora batida
Das tempestades da vida,
Prostrada, exausta, ferida,
Do mundo exposta ao rigor,
Vê-te ainda o teto amado
Pelas saudades banhado
Como um sonho do passado,
Cabana do lenhador!
Era tarde, ao sol posto,
Furtiva aragem de Agosto
Vinha expirar-me no rosto
Como um bafejo de amor...
As criancinhas brincavam,
Bandos de rolas voavam
E as andorinhas pousavam
Na choça do lenhador.
Um canto longo magoado
Partia o fundo valado
E o cavo som dum machado
Seguia a voz do cantor:
Na porta a velha cosia,
No berço o infante dormia
Enquanto o fumo saía
Da choça do lenhador...
O sabiá na aroeira
Quebrava a endecha fagueira
E o bem-te-vi na palmeira
Soltava o pio ruidor:
Os arvoredos gemiam,
As cachoeiras rugiam,
Os raios do sol morriam
Na choça do lenhador.
Pela janela entreaberta,
De murchas rosas coberta
Sobre a parede deserta
Sorria a Mãe do Senhor:
E enquanto a virgem sorria,
Deus invisível descia
E a luz, o pão repartia
Na choça do lenhador.
Ó! loira tarde perdida,
Celeste eflúvio da vida,
Ó! cordilheira vestida
De primaveras em flor!
Ó! alvas rolas cheirosas,
Ó! cantilenas saudosas,
Ó! criancinhas formosas
Da choça do lenhador...
Minh’alma ardente e sombria
Debalde evoca a harmonia
Daquela santa poesia,
Daquele esterno esplendor!
A glória, o futuro, o gozo,
Tudo eu trocara gostoso
Por um dia de repouso
Na choça do lenhador.
Mas ah! jamais ser-me-á dado
Reconstruir o passado,
Vestir meu ser isolado
De luz, de crença e de amor!
Em vão, em vão meus ouvidos
Pensam colher os ruídos
Do mato e os cantos sentidos
Da choça do lenhador.
Vós, minhas crenças nevadas,
Como rosas desfolhadas.
Secais no mundo espalhadas —
Ludibrio eterno da dor:
E além, na serra, esquecida,
Pela virgem defendida,
Cria mais flores e vida
A choça do lenhador.
- * * *