Branca Rosa
(1868)
Em troca do seu perfume
Quantas saudades resume
E quantos prantos tambem!
- Casimiro de Abreu.
Pendendo a fronte virginal, formosa,
Tremendo toda de infantil receio,
Ela deixou em minhas mãos a rosa
A branca rosa que adornou-lhe o seio.
E disse, enquanto o peito seu gemia
Partido em ânsias de amargura e dor:
— “Se desprezares meu amor um dia
Respeita ao menos esta pobre flor.”
Daquela noite de emoções e festa
Daquele instante de virgíneo enleio,
Só esta morta e seca flor me resta,
A branca rosa que adornou-lhe o seio.
Quando minh’alma na feral voragem
Do mundo luta em delirante anseio,
Sabeis acaso quem me dá coragem?
A branca rosa que adornou-lhe o seio.
E quando às vezes minha boca ansiosa
Beija a — lembrança — que me fez chorar;
Sinto entre as folhas da finada rosa
Um lábio ardente os lábios meus beijar.
E dentre as cinzas da corola fria
Sai um gemido de amargura e dor:
— “Se desprezares meu amor um dia
Respeita ao menos esta pobre flor!”
Por ela esqueço o labutar profundo:
Por ela o facho da esperança ateio:
É mais que a vida e vale mais que o mundo
A branca rosa que adornou-lhe o seio!
Ó! murcha rosa cada vez mais bela,
Que tanta força e tanta luz me dás,
Tiveste o berço no regaço dela
E a sepultura junto ao meu terás!
Assim se Deus arrebatar-me à vida
Dizendo ao anjo ceifador: — colhei-o!
Plantai na terra que me der guarida
A branca rosa que adornou-lhe o seio!...
- Recife.