Recuerdo
(1868)
D'un soir lointain je reconnais les fièvres
Et mon coeur a senti refluer à mes lèvres
Une fraiche saveur de baisers anciens.
Léon Valade
Nós estávamos sós. triste e saudosa
Surgia a lua no elevado monte:
Cheia de orvalho suspirava a rosa,
Cheia de rosas suspirava a fonte.
Ao pé de nós a aragem murmurava
Nos curvos ramos da mangueira em flor:
Nos nossos lábios a ilusão cantava
Nos nossos olhos despontava o amor.
Nós estávamos sós. Ela tremia
Cravando o olhar nos mudos olhos meus:
O que eu lhe disse, o que ela me dizia
Foi um mistério que sumiu-se em Deus,
A natureza festival sorrindo
Nos atraía e nos forçava a amar:
Dizia o céu: — como esse par é lindo!
Dizia a Noite: — e como é bom sonhar!
Todo mistério que seduz encanta,
Tudo o que corta a solidão baixinho:
O som dum beijo, o estremecer da planta,
O voo da ave procurando o ninho;
A folha seca que resvala e freme
Da lua o raio solitário e vago,
O mole orvalho que nas urzes treme,
A sombra inquieta que perturba o lago;
Tudo assistiu ao virginal encanto
Das nossas crenças para sempre unidas:
Viram dois rostos confundindo o pranto,
E duas almas confundindo as vidas!
As doidas frases que a chorar dissemos,
Daquela noite na eternal mudez,
O louco abraço, as juras que fizemos:
— Não se repetem: fazem-se uma vez!
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